A primavera deste ano no Centro-Sul do Brasil tem apresentado vários períodos com condições atmosféricas atípicas para a estação com frio tardio e agora um ciclone no final desta semana na costa do Sul do Brasil, o que se explica por um padrão no clima conhecido dos meteorologistas.

Padrão atmosférico atual favorece formação de ciclones nas latitudes médias da América do Sul e episódios tardios de temperatura baixa | ARQUIVO
No último dia 21 de outubro, por exemplo, a temperatura mínima na cidade de São Paulo, de 10,8ºC na estação do Mirante de Santana, foi a mais baixa em outubro desde 2014, quando os termômetros no local mediram 10,7ºC no dia 6. Em outros pontos da capital paulista, com base em medições da prefeitura, a temperatura desceu a 7,6ºC em plena segunda metade de outubro.
Em Minas Gerais, a estação do Instituto Nacional de Meteorologia em Belo Horizonte registrou mínima no mesmo dia 21 de 9,1ºC, a mais baixa na estação do Cercadinho e para todas da capital mineira desde 2014, quando os termômetros marcaram 8,1ºC. No Sul de Minas Gerais, geou por vários dias seguidos.
No Rio de Janeiro, a temperatura no Parque Nacional de Itatiaia, com elevações de até 2500 metros, a temperatura no dia 21 de outubro caiu a 5,2ºC abaixo de zero. Na cidade do Rio de Janeiro, fez 12,1ºC em Jacarepaguá, menor marca em outubro também em mais de uma década.
No Sul do Brasil, áreas de relevo da região e próximas da fronteira com o Uruguai em pleno outubro tiveram marcas abaixo de zero. No Rio Grande do Sul, no dia 8, Cambará do Sul anotou 0,6ºC abaixo de zero no 57º dia em 2025 com marcas negativas no estado.
No mesmo dia 8, Porto Alegre em sua estação do Jardim Botânico registrou mínima de 8,2ºC, a mais baixa para outubro desde 2015, quando fez 7,4ºC no dia 18 com Super El Niño atuando naquela primavera.
Chuva e temporais chegaram com frequência mais cedo ao Sudeste do Brasil. No dia 22 de setembro, uma grave onda de tempestades com tornados atingiu estados do Sul e São Paulo.
Foi o episódio que destruiu uma fábrica de Toyota no município paulista de Porto Feliz, o que a MetSul Meteorologia considera ter sido um tornado, embora a Defesa Civil de São Paulo tenha catalogado o evento como uma microexplosão.
No último fim de semana, uma onda de temporais no Paraná atingiu 36 cidades e afetou aproximadamente 10 mil pessoas. Entre estas, 1.776 ficaram desalojadas e 100 estão desabrigadas. Levantamento mostra que 5.984 casas ficaram danificadas. No estado de São Paulo, no Oeste, a mesma onda de temporais causou uma morte e deixou mais de 40 pessoas feridas em desabamento de estrutura numa festa de estudantes.
Grande culpada não é a La Niña e está na Antártida
O Pacifico Equatorial está com águas mais frias do que a média e a NOAA, a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, declarou em 9 de outubro que condições de La Niña estão presentes.
O resfriamento do Oceano Pacífico, obviamente, acaba tendo impacto no clima do Brasil e, por exemplo, favorece redução da chuva mais ao Sul do país e episódios tardios de temperatura baixa.
No entanto, na avaliação da MetSul Meteorologia, uma outra variável do clima apresenta maiores reflexos no clima do Centro-Sul do Brasil nesta primavera que o Oceano Pacífico. Trata-se da chamada Oscilação Antártica e que desde setembro tem estado na maior parte do período numa fase negativa.

NIWA
O comportamento do regime de vento ao redor da Antártida nesta primavera pela fase negativa agrava o risco de formação de ciclones extratropicais nas latitudes médias da América do Sul, por efeito impactando a parte meridional do território brasileiro, como se espera no final desta semana.
Isso não significa que sempre que a oscilação da Antártida adentrar em valores negativos vai se dar um ciclone intenso. O que a fase negativa gera é um maior risco de formação de ciclones nas latitudes médias perto do Sul do Brasil, e estes sistemas podem ser fracos, moderados e em alguns casos intensos.
Outro impacto da Oscilação Antártica é no regime de chuva, uma vez que favorece mais incursões de ar frio que, ao encontrar o ar mais quente comum nesta época do ano, favorece episódios de chuva mais volumosa com ondas de temporais.
O que é a Oscilação Antártica e seu impacto no clima
A Meteorologia presta muita atenção nesta oscilação porque ela não apenas impacta o processo ciclogenético (de formação de ciclones no Atlântico Sul), mas também tem repercussão na chuva que se precipita sobre o Sul e o Sudeste do Brasil.
A chamada Oscilação Antártica (AAO) ou Modelo Anular Sul ou Meridional é uma das mais importantes variáveis que impacta as condições no Brasil e no Hemisfério Sul, tanto na chuva como na temperatura. Do que se trata? Trata-se de um índice de variabilidade relacionado ao cinturão de vento e de baixas pressões ao redor da Antártida. Há quase três meses ela vem em terreno predominantemente negativo.
A Oscilação Antártica tem duas fases. A positiva e a negativa. Na positiva, o cinturão de vento ao redor da Antártida se intensifica e se contrai em torno do Polo Sul. Já na fase negativa, o cinturão de vento enfraquece e se desloca para Norte, no sentido do Equador, obviamente sem atingir a faixa equatorial. Com a maior ondulação da corrente de jato na fase negativa, crescem as chances de episódios de chuva mais volumosa e ciclones.

METSUL | ARTE DE LEANDRO MACIEL
Modelos de previsão do tempo indicam que a Oscilação Antártica nesta primeira metade do mês de novembro vai estar em território negativo (AAO-), assim, pela climatologia histórica da AAO-, a tendência é de aumento da chuva e de um padrão mais favorável a formação de baixas pressões (ciclones).

NOAA
Independente da condição do Pacífico (El Niño, neutralidade e La Niña), períodos de AAO- têm potencial de incrementar a precipitação no Sul do país. Um trabalho publicado sobre vazão de rios do Rio Grande do Sul mostrou que os mais altos índices de vazão se deram sob El Niño mais Oscilação Antártica negativa, ou seja, a fase negativa incrementa a chuva que já é aumentada sob El Niño, piorando ainda mais o risco de eventos extremos de precipitação e enchentes.
As fases da Oscilação Antártica influenciam o posicionamento das ciclogêneses (formação de ciclones extratropicais) em todo o Hemisfério Sul. Quando na fase negativa, os ciclones extratropicais tendem a ocorrer em latitudes mais baixas do que na fase positiva, logo mais distantes da Antártida e mais próximos do Brasil.
Observando-se a climatologia histórica, muitos dos ciclones de alto impacto no Rio Grande do Sul se deram sob períodos em que a Oscilação Antártica estava negativa. Foi assim como o sistema de maio de 2008 – de altíssimo impacto em chuva e vento – como de outubro de 2016 – que trouxe uma enorme maré de tempestade e destruição na orla gaúcha.