A semana que começa promete ser histórica na climatologia do Sul do Brasil com uma das mais intensas ondas de frio dos últimos anos na nossa região. O frio será extremo e deve gear forte em um grande número de localidades, mas, como é natural neste tipo de evento, seja aqui ou no exterior, a maior expectativa meteorológica é sempre pela neve, fenômeno que desperta um enorme interesse do público mesmo nos países acostumados ao fenômeno. Para os meteorologistas, não deixa de ser um drama de prognóstico. E não é “choro”. Em artigo intitulado “The science of snow prediction” (ABC News), o então diretor do Centro de Previsão Hidrometeorológica do NOAA, o órgão do governo dos Estados Unidos de previsão do tempo e clima, afirma que a previsão de neve é a mais difícil e complicada existente para quem faz previsão. James Hoke afirma que para prever neve os meteorologistas precisam responder a “perguntas sem fim”, incluindo quando irá começar a nevar, quando vai parar, se vai ser forte, qual será a temperatura no solo e na atmosfera, e se chuva, gelo ou neve cairão do céu. O artigo diz que podem existir vários fatores “enganadores”. O uso de modelos numéricos equivocados pode “liquidar” com a previsão. E, ainda, existem diversos fatores imprevisíveis que podem surgir e arrasar com as idéias dos prognosticadores.

Não existe certeza no vocabulário da Meteororologia. Meteorologista algum pode tomar como certo um fato. A possibilidade de nevar neste evento no Sul do Brasil, entretanto, nos parece muito grande e como poucas vezes se viu. O que não está claro ainda é qual será a abrangência real do fenômeno e sua força, e nestes quesitos residem o drama dos prognósticos. Uma certeza, porém, tenho. Este tipo de evento terá surpresas. Sempre há surpresas nestes episódios de erupções polares poderosas, ainda mais uma de natureza tão intensa e continental com o gelo tomando conta do “Poço dos Andes” e extensa área da América do Sul tomada pelo ar gelado. Para tentar antecipar o máximo possível todo o cenário e estas surpresas, trabalha-se com o que há de mais moderno no mundo hoje em tecnologia que são os modelos numéricos, mas a regra de experiência (no meu caso de 40 anos) ainda tem seu valor. Vejamos o que os modelos indicam de neve, a começar pelo modelo meteorológico do Centro Europeu, reputado como o melhor do mundo por quase todos meteorologistas do planeta.



O modelo Europeu indica neve nos três estados do Sul. No Rio Grande do Sul mais na Serra e nos Aparados, além do Norte do Planalto Médio e do Alto Uruguai. Para Santa Catarina indica neve na maioria das regiões, mesmo no Oeste e no Planalto Norte. E no Paraná, segundo o modelo, a neve seria muito abrangente, atingindo grande parte do Centro e do Leste do Estado, o Planalto de Palmas, a região de Guarapuava e até mesmo a capital Curitiba e sua região metropolitana. Já o modelo operacional norte-americano GFS (projeções abaixo) segue a mesma linha do modelo Europeu em indicar entre esta segunda-feira e a terça a ocorrência de neve primeiro entre o Norte do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com posterior avanço do fenômeno por Santa Catarina, atingindo áreas extensas do Paraná na sequência. A diferença do modelo americano é que ele aponta um evento de neve mais abrangente, até mesmo porque o modelo Europeu no seu campo de neve tende a ser mais conservador. O modelo operacional GFS do NCEP/NOAA apontou ainda em suas últimas saídas chances de nevar no Noroeste gaúcho, Alto Jacuí, Médio e Alto Uruguai, Serra e Aparados da Serra, Campanha, Sul, Serra do Sudeste, Centro-Serra e até em pontos próximos da Grande Porto Alegre. Ou seja, é o mais agressivo na projeção de neve com indicativo do fenômeno na maioria das regiões gaúchas. Outra diferença é que enquanto na terça-feira o Europeu concentra a neve no Paraná e Santa Catarina, o norte-americano indica justo para este dia a possibilidade da neve ser mais ampla no Rio Grande do Sul, acompanhando o avanço de nebulosidade de Sul, do Uruguai, o que também é apontado por outros modelos numéricos.


O que se extrai destas projeções. Primeiro, parece muito crível que as condições vão estar postas para um evento de neve nos três estados do Sul do Brasil, logo abrangente e de rara ocorrência. Segundo, os dados são altamente sugestivos de acumulação (este o pior aspecto de se prognosticar), com possibilidade da neve acumular até valores expressivos em alguns pontos, especialmente porque se espera “drifting” (efeito do vento que faz com que a neve precipitada se acumule mais em obstáculos). Terceiro, a neve tende a cair em locais não indicados pelo modelo Europeu, ou seja, o potencial é da neve ter um caráter mais abrangente, tal qual sinalizado pelo modelo americano. Quarto, o potencial de neve parece ser maior para Santa Catarina e o Paraná com a maior umidade na região. A tendência é de alta probabilidade de neve em locais acima de 1000 metros de altitude, média a alta em pontos entre 500 e 1000 metros de altitude (maior parte da Metade Norte do Rio Grande do Sul e grande parte de Santa Catarina e do Sul e Leste do Paraná), pequena a média entre 200 e 500 metros de altitude, e baixa ao nível do mar, excetuando-se áreas próximas ao nível do mar no Sul e parte do Leste do Rio Grande do Sul. A cota de neve em altura vai estar muito baixa segunda e terça-feira, consequência de uma atmosfera extremamente fria com temperatura de até 25ºC abaixo de zero no nível de 500 hPa sobre o Estado (abaixo), o que contribui para gerar perturbação termodinâmica na atmosfera, acentuando a chance de neve. Ademais, haverá vento muito forte entre segunda e terça-feira, o que induz levantamento do ar frio, formação de nuvens e pode trazer a neve em nossas áreas de relevo (neve orográfica).  



Os modelos computadorizados mais usados no mundo pela Meteorologia, como se viu, apontam a possibilidade de nevar na cidade de Curitiba, fato que seria inédito na capital paranaense desde 17 de julho de 1975. A simples perspectiva traz à memória a onda de frio histórica de 1975. Foi um evento catastrófico pelo impacto econômico da geada e mudou o perfil da economia do Paraná. Quando a geada atingiu os cafezais paranaenses em 1975, a colheita já tinha acabado. O Paraná havia colhido 10,2 milhões de sacas, 48% da produção brasileira. No ano seguinte, conforme sites especializados, a produção foi de 3,8 mil sacas. Nenhum grão  chegou a ser exportado e a participação paranaense na produção brasileira caiu para só 0,1%.


Onda de frio da segunda quinzena de julho de 1975 foi catástrofe e dizimou cafezais no Paraná (foto de divulgação)


A memorável e histórica onda de frio de julho de 1975 foi uma das mais poderosas de toda a segunda metade do século XX no Sul do Brasil. Nevou nos três estados do Sul e em muitos locais onde o fenômeno é raro. Foz do Iguaçu, por exemplo, teve neve e a temperatura caiu a 3,5ºC abaixo de zero. A neve caiu em diversas regiões gaúchas, do Sul ao Norte do Estado. A temperatura caiu a valores negativos na capital paulista e chegou a 10ºC abaixo de zero no Planalto de Palmas, no Paraná.


Imagem de satélite da manhã que nevou em Curitiba em 1975 e projeção de precipitação do modelo Europeu para a noite de segunda-feira mostram cenário semelhante

As características sinóticas com 1975 não são idênticas, mas são muito parecidas. Tal qual em 1975, será uma erupção de ar polar muito continental, com centro de alta pressão no Norte da Argentina. Em 17 de julho de 1975, quando nevou em Curitiba, a “alta” estava pouco mais ao Norte que se prevê para entre segunda e terça-feira, quando pode nevar no Paraná. Este posicionamento mais ao Norte contribui para  maior advecção fria no Sudeste do Brasil do que se antecipa para agora.


Outro aspecto da onda de frio de 1975 e que motivou trabalhos sobre o Poço dos Andes, o avanço de ar polar continental a Leste dos Andes, foi que há 38 anos o ar frio avançou tanto ao Norte que conseguiu cruzar a linha do Equador, trazendo forte friagem na região amazônica. Desta vez é uma possibilidade que o ar frio possa chegar até ao Equador, afinal os modelos indicam que a incursão seria tão continentalizada que atingiria Bolívia, Peru é até mesmo o Sul da Colômbia, o que é incrível!


Colunas de previsão do Jornal do Brasil de 17, 18 e 19 de julho de 1975 com cartas sinóticas e satélite

O que peço a todos é a compreensão que nenhuma onda histórica de frio é igual à outra. Cada uma possui sua própria “impressão digital”. Como apaixonados pelo clima que somos, sempre buscamos analogias para tentar melhor entender o que pode ocorrer, o que é correto e um excelente caminho. A história desta onda de frio, contudo, ainda não foi escrita e jamais se pode ter a pretensão de querer escrevê-la antes de acontecer. Todos os melhores análogos da história não dirão com precisão absoluta o que ocorrerá. Os dias que se avizinham, para quem é aficionado por Meteorologia ou é profissional da área, podem ser inesquecíveis. E, como disse, com surpresas que nossos melhores esforços e nossas melhores tecnologias falham em antecipar. (Colaboraram Marcelo Albieri e Vinícius Lucyrio, com Alexandre Aguiar na pesquisa histórica)