O cenário de circulação atmosférica no Hemisfério Sul que favorece o ingresso de ar frio no Brasil mudou e agora desfavorece a chegada de incursões de ar frio de origem polar de maior intensidade no território brasileiro, conforme avaliação da MetSul Meteorologia.

Cenário atmosférico em torno da Antártida que trouxe muito frio neste mês de maio agora se modifica no fim do mês | MYCCHEL LEGNAGHI
Esta mudança de padrão decorre do comportamento da chamada Oscilação Antártica, associada ao regime de ventos em torno do continente antártico. Mais cedo neste mês, a oscilação favoreceu a chegada de massas de ar frio de maior intensidade e agora neste fim de maio e começo de junho entrou em fase que desfavorece.
Justamente a fase favorável foi que proporcionou um período frio prolongado com três massas de ar frio em sequência, sendo duas de maior intensidade, a partir do dia 8 deste mês. Foram cerca de 15 dias com temperaturas predominantemente abaixo da média e alguns com temperaturas muito inferiores à climatologia histórica.
O Rio Grande do Sul registrou 13 dias com temperaturas mínimas negativas neste maio de 2026, reflexo da sucessão de massas de ar polar que atingiram o estado ao longo do mês. As menores marcas ocorreram principalmente em áreas de maior altitude e baixadas da Metade Sul e do Norte gaúcho. A menor temperatura até agora foi de -4,8ºC em Pinheiro Machado no dia 19, seguida por -4,7ºC na mesma cidade no dia 20 e -4,2ºC em Soledade no dia 12.
As menores mínimas diárias abaixo de zero no Rio Grande do Sul neste mês se deram em 03/05 com -2,2ºC em Pinheiro Machado; 04/05 com -1,5ºC em Herval; 09/05 com -0,4ºC em Soledade; 11/05 com -2,4ºC em Capão Bonito do Sul; 12/05 com -4,2ºC em Soledade; 13/05 com -2,7ºC em Vacaria; 14/05 com -2,7ºC em Soledade; 15/05 com -0,6ºC em Pinheiro Machado; 16/05 com -0,2ºC em Pinheiro Machado; 19/05 com -4,8ºC em Pinheiro Machado; 20/05 com -4,7ºC em Pinheiro Machado; 21/05 com -3,5ºC em Soledade; e 22/05 com -2,5ºC em Soledade.
O período frio afetou ainda Santa Catarina com mínimas de até 6ºC abaixo de zero no Planalto Sul e o estado do Paraná com geada e marcas negativas em diferentes cidades. O frio se fez sentir com mínimas abaixo de zero ainda na região da Mantiqueira, em São Paulo, e com mínimas de até 1ºC no Sul da cidade de São Paulo. Vários municípios do interior paulista anotaram mínimas abaixo de 5ºC com geada, o que se repetiu no Mato Grosso do Sul. Houve marcas negativas ainda no Parque Nacional de Itatiaia, entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, e no Sul mineiro.
O frio não se limitou ao Brasil e a temperatura esteve excepcionalmente abaixo da média também no Uruguai e na Argentina nas últimas duas semanas. A cidade de Buenos Aires registrou no observatório de Villa Ortúzar mínimas de 5,0ºC no dia 10; 4,5ºC no dia 11; 4,6ºC no dia 18; e 4,9ºC no dia 22.
Grande parte da Argentina enfrentou temperaturas muito inferiores ao normal da climatologia de maio no período de 10 a 20 de maio com anomalias de temperatura mínimas de até 7ºC abaixo da média.
Oscilação Antártica agora desfavorece frio mais intenso
O período muito frio observado durante mais de duas semanas no Cone Sul da América do Sul foi favorecido, dentre outros fatores, por um pico negativo breve da Oscilação Antártica, o que acabou por levar a corrente de jato polar até latitudes médias e trouxe o significativo resfriamento.

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Agora, a chamada AAO ingressou outra vez em terreno positivo e, segundo projeções de modelos, pode apresentar um pico positivo neste fim de maio com ventos mais intensos em torno da Antártida, o que desfavorece o avanço de massas de ar frio de origem polar para o Brasil.
Com isso, há uma importante mudança na circulação de vento em altitude em torno da Antártida com reflexos em todo o Hemisfério Sul, desfavorecendo o escape e o avanço de ar frio até as latitudes médias e, por consequência, até o Brasil.
O que é a Oscilação Antártica
A chamada Oscilação Antártica (AAO) ou Modelo Anular Sul ou Meridional é uma das mais importantes variáveis que impacta as condições no Brasil e no Hemisfério Sul, tanto na chuva como na temperatura.
Do que se trata? Trata-se de um índice de variabilidade relacionado ao cinturão de vento e de baixas pressões ao redor da Antártida. A Oscilação Antártica tem duas fases. A positiva e a negativa.
Na positiva, o cinturão de vento ao redor da Antártida se intensifica e se contrai em torno do Polo Sul. Já na fase negativa, o cinturão de vento enfraquece e se desloca para Norte, no sentido do Equador, obviamente sem atingir a faixa equatorial.

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Com a maior ondulação da corrente de jato na fase negativa, crescem as chances de episódios de chuva mais volumosa e ciclones assim como para o ingresso de ar frio nas latitudes médias. Estudos mostram que na fase negativa há uma maior propensão para chuva no Sul e Sudeste do Brasil.
Independente da condição do Pacífico (El Niño, neutralidade e La Niña), períodos de AAO- têm potencial de incrementar a precipitação no Sudeste da América do Sul com maior frequência de ingresso de massas de ar frio de origem polar nos meses de inverno.
Oscilação Antártica positiva trará temperatura mais altas
A fase positiva da Oscilação Antártica se reflete na projeção de desvio da média da temperatura para 15 dias, que pode ser vista no mapa abaixo de anomalia de temperatura do modelo europeu (ECMWF).

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Como se observa no mapa, grande parte do Brasil terá temperatura acima a muito acima da média nas próximas duas semanas, neste fim de maio e nos primeiros dez dias do mês de junho, com algumas áreas mais perto do oceano apresentando anomalias negativas.
No caso de áreas mais ao Sul do Brasil, uma vez que estamos ingressando no período mais frio do ano, as anomalias perto da média ou pouco acima significam que ainda vai fazer frio, mais concentrado à noite, mas sem mínimas tão baixas quanto observadas dias atrás. O frio, ademais, será mais úmido com maior incidência de dias com formação de nevoeiro e neblina.