A MetSul Meteorologia avalia que uma microexplosão atmosférica ou um downburst, uma corrente violenta de vento descendente que se estende se forma radial ao atingir a superfície, pode ter sido causa dos extensos e graves danos observados no temporal da tarde de ontem, em Não-Me-Toque, no Norte do Rio Grande do Sul.

PORTAL NÃO-ME-TOQUE
Em poucos minutos, o céu escureceu e os ventos ganharam muita intensidade, sendo seguidos por chuva forte e queda de granizo. Logo começaram a surgir relatos de destelhamentos, árvores caídas e prejuízos em diferentes bairros.
A Praça Central de Não-Me-Toque foi uma das áreas afetadas. Árvores de grande porte tombaram com a força do vento, causando danos e exigindo a atuação das equipes municipais para desobstrução de vias e avaliação dos riscos.
No CTG Galpão Amigo, três árvores caíram sobre o telhado da entidade, comprometendo parte da cobertura. Outra árvore foi arrancada pelo vento e caiu sobre o pátio dos fundos. Apesar dos danos materiais, não houve registro de feridos no local.
O setor industrial também sofreu prejuízos. Um dos pavilhões da empresa Molasul foi destruído pelas violentas rajadas de vento. A estrutura ficou severamente danificada, mas, felizmente, ninguém se feriu durante o desabamento.
Os estragos alcançaram ainda o distrito de São José do Centro, onde moradores registraram danos em construções e na vegetação. Em Lagoa dos Três Cantos, as rajadas de vento e a chuva intensa também provocaram destelhamentos e avarias em imóveis.
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Com o tempo mais estável, começou uma grande mobilização para reparar os prejuízos. Em diversos pontos da região, moradores passaram a reconstruir telhados e proteger residências com lonas, enquanto equipes municipais seguem auxiliando as famílias atingidas.
O esforço para recuperar os imóveis trouxe uma consequência inesperada. O hospital da região registrou lotação na emergência com pacientes que sofreram acidentes durante os consertos. Foram atendidas vítimas de quedas de telhados, cortes, escoriações e até fraturas provocadas durante os trabalhos.
Danos graves consistentes com uma microexplosão
Os danos estruturais observados em Não-Me-Toque com colapso parcial ou total de estruturas são consistentes com rajadas de vento extremamente fortes e com caráter destrutivo.
Os danos característicos de uma microexplosão ou downburst apresentam um padrão bastante distinto. Como os ventos divergem a partir do ponto de impacto da corrente descendente, árvores, postes e estruturas tendem a cair em direções diferentes, apontando para fora da área central do fenômeno.
O padrão de divergência é um dos principais elementos utilizados por meteorologistas para diferenciar uma microexplosão de um tornado, no qual os destroços normalmente convergem em direção ao eixo do vórtice.
Entre os danos mais frequentes estão o destelhamento total ou parcial de residências, a queda de árvores de grande porte, postes de energia e torres de comunicação, além de interrupções no fornecimento de eletricidade. Galpões, pavilhões e outras construções leves podem sofrer colapso estrutural devido à violência das rajadas, como se viu neste sábado em Eldorado do Sul.
A intensidade dos danos depende da força das rajadas. Microexplosões mais intensas podem gerar ventos superiores a 150 km/h e, em casos extremos, acima de 200 km/h. Embora normalmente afetem uma área inferior a quatro quilômetros de diâmetro, os prejuízos podem ser muito severos dentro da faixa de vento destrutivo.
Outro aspecto marcante é a natureza localizada da destruição. Enquanto um bairro pode apresentar danos extensos, áreas situadas a poucos quilômetros podem registrar apenas chuva ou ventos mais fracos, tal como se viu no final da madrugada em Eldorado do Sul, onde apenas uma parte do município sofreu danos severos.
Entenda o que aconteceu
Uma microexplosão, uma corrente de vento descendente violenta que se espalha de forma radial ao atingir a superfície, é a muito provável causa dos estragos no município do Norte gaúcho, de acordo com a avaliação da MetSul Meteorologia.
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Uma frente quente se formnou com o avanço de ar tropical, transportado por uma corrente de jato em baixos níveis, favorecendo a formação de múltiplas células de tempestades ao longo da segunda-feira no Rio Grande do Sul. Uma célula poderosa de tempestade se formou no Norte gaúcho e acabou por provocar a tempestade severa na cidade.

Imagem do satélite GOES-19 do momento do temporal em Não-Me-Toque | METSUL
Frentes quentes são prolíficas em causar pancadas de chuva fortes a torrenciais, grande quantidade de raios e ainda tempestades severas isoladas de vento e granizo, uma vez que o tempo severo se dá sob uma atmosfera muito instável quente e úmida.
O que é o fenômeno
O que é um dowburst ou microexplosão atmosférica? Este tipo de fenômeno ocorre principalmente no verão porque é a época em que os dias são muito quentes e, sob a presença de umidade alta, formam-se nuvens de grande desenvolvimento vertical do tipo Cumulonimbus (Cb) que podem atingir até 15 a 20 quilômetros de altura e são capazes de gerar vento destrutivo.
Em sua página na internet, o National Weather Service dos Estados Unidos explica o que é um downburst – uma corrente descendente de vento violenta – que é capaz de produzir estragos e danos tão graves quanto o de um tornado pela enorme velocidade que o vento pode atingir durante os episódios deste tipo de fenômeno.
“Um downburst é uma forte e relativamente pequena área de ar rapidamente descendente debaixo de uma tempestade que pode resultar de vento muito forte em altitude sendo transportado para a superfície. Ou pode ser efeito do resfriamento muito rápido do ar com a chuva que evapora em uma atmosfera inicialmente seca. O ar mais frio e denso desce rapidamente para a superfície.
Um downburst se diferencia do vento uma tempestade comum pelo seu potencial de causar danos próximos à superfície, onde se espalham ou divergem consideravelmente. Ao contrário, em tornados convergem para uma faixa estreita do terreno.
Downbursts intensos podem ser fenomenais. Velocidades do vento podem atingir marcas tão altas quanto as observadas de 281 km/h em Morehead City (Carolina do Norte) e 254 km/h na base aérea de Andrews (Maryland). Fortes episódios de downburst podem causar sons e ruídos que as pessoas frequentemente mencionam como sendo de um trem de carga, termo tipicamente associado a tornados.
Embora downbursts não sejam tornados, podem causar danos equivalentes a de um tornado pequeno ou médio, afinal vento é vento. Downbursts são classificados como macrobursts ou microbursts, dependendo da extensão da área afetada pelo vento. Os danos de macrobursts se estendem horizontalmente por mais de quatro quilômetros enquanto nos microbusts os ventos destrutivos ocorrem em área inferior a quatro quilômetros”.
Uma nuvem Cumulonimbus, pelas suas correntes ascendentes e descendentes violentas, dentro e junto à nuvem gera turbulência forte a severa, granizo, formação de gelo, raios e por vezes tornados, o que é um risco para as aeronaves principalmente no pouso e decolagem ante o perigo de cortantes de vento e correntes descendentes violentas (microburst).
Depois de vários acidentes aéreos causados por correntes descendentes (downbursts) nos Estados Unidos, aeroportos passaram a contar com radares meteorológicos e foram realizados vários estudos no país. O caso mais famoso é do desastre do voo Delta 191 em que morreram 137 pessoas. A aeronave se preparava para pousar no aeroporto de Dallas quando foi atingida por um microburst, uma corrente de vento descendente intensa em uma nuvem de tempestade, e o avião foi levado a se chocar contra o solo a um quilômetro da pista.