Três tornados atingiram o Sul do Brasil em apenas doze dias, dois no Rio Grande do Sul e um no Paraná, mas os meses de maior risco do fenômeno ainda estão por vir e devem trazer mais ocorrências do fenômeno.

Tornado em Pedro Osório na quinta-feira (6) | REDES SOCIAIS
Eu não acredito que os dois tornados que atingiram o Rio Grande do Sul em menos de dez dias devam ser vistos como uma sequência encerrada. Pelo contrário. Minha preocupação, olhando para o cenário atmosférico que temos pela frente, é que os meses de maior risco para tempestades severas e tornados ainda estão por vir.
Isso não significa que teremos necessariamente uma sucessão de tornados. Tornados são fenômenos extremamente localizados e impossíveis de prever com precisão de muitos dias ou semanas de antecedência. O que podemos avaliar é o ambiente atmosférico e, neste momento, ele aponta para uma temporada de tempestades que merece muita atenção.
O primeiro tornado ocorreu em 28 de julho, no Noroeste gaúcho, atingindo três municípios e sendo classificado pela MetSul como F3, com ventos estimados de até 300 km/h. Poucos dias depois, em 6 de agosto, Pedro Osório, no Sul do Estado, foi atingido por outro tornado, classificado como F2, com vento estimado de até 200 km/h. Ontem, mais um tornado e desta vez em Piraí do Sul, no Paraná.
Dois tornados em dez dias não são algo corriqueiro no Rio Grande do Sul. Três no Sul do Brasil em doze dias, tampouco. Mas também não significam que o fenômeno esteja surgindo agora. Tornados sempre ocorreram no Sul do Brasil e fazem parte da nossa climatologia.
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A região é uma das mais favoráveis do planeta para a formação de tempestades severas. Temos, de um lado, o ar quente e úmido transportado. De outro, massas de ar frio que avançam frequentemente a partir da Argentina. Entre as massas de ar quente e frio, surge um ambiente de enorme instabilidade.
Quando acrescentamos ao cenário um forte cisalhamento do vento, em regra sob correntes de jato de baixos níveis, aumentam as condições para a formação de células de tempestade que podem produzir tornados.
É por isso que considero um erro olhar para os três tornados recentes apenas como acontecimentos isolados. Eles ocorreram em um ambiente atmosférico que continuará muito dinâmico nos próximos meses.
E aqui entra um fator fundamental: o El Niño. O El Niño não produz tornados diretamente. Não existe uma relação simples de causa e efeito em que o fenômeno oceânico provoque automaticamente um tornado. O que ele pode fazer é modificar padrões de circulação atmosférica e favorecer determinadas combinações de calor, umidade, instabilidade e vento que aumentam o risco de tempo severo.
E o El Niño deste ano não é um El Niño qualquer. Estamos diante de uma intensidade excepcional do fenômeno, em um cenário que pode favorecer muitas ondas de tempestades no Sul do Brasil. Cada onda de instabilidade terá suas próprias características. Algumas produzirão apenas chuva. Outras poderão trazer granizo e vendavais. E algumas poderão encontrar condições para tempestades supercelulares e tornados.
Por isso, quando digo que os piores meses para tornados ainda estão por vir, não estou dizendo que haverá necessariamente um número sem precedentes de tornados. Estou dizendo que o ambiente atmosférico dos próximos meses será, em minha avaliação, mais preocupante e que pode trazer mais tornados que o habitual.
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A aproximação da primavera é especialmente importante. O inverno ainda pode produzir tempestades violentas, como acabamos de testemunhar. Mas, conforme avançamos para setembro, outubro e novembro, aumenta a disponibilidade de calor e umidade na atmosfera. E calor e umidade são combustíveis para tempestades.
Quando esse combustível encontra frentes frias, áreas de baixa pressão, jatos de baixos níveis e forte cisalhamento do vento, temos uma combinação que pode gerar tempestades extremamente organizadas. É justamente por isso que a primavera é uma estação de atenção especial no Sul do Brasil.
Eu não quero criar a impressão de que o Rio Grande do Sul viverá meses de tornados constantes. Isso seria cientificamente incorreto. A Meteorologia não consegue prever um tornado com semanas de antecedência, muito menos determinar onde ele irá tocar o solo.
O que conseguimos fazer é reconhecer quando a atmosfera está se tornando mais favorável a tempestades severas e, a partir daí, acompanhar cada sistema meteorológico individualmente.
Também é importante lembrar que hoje enxergamos muito mais tornados do que no passado. Celulares e maior interesse por este tipo de fenômeno permitem registrar fenômenos que décadas atrás poderiam simplesmente desaparecer sem documentação.