Dois tornados atingiram o Rio Grande do Sul em menos de dez dias. O primeiro, em três municípios do Noroeste gaúcho, na última terça-feira (28). Ontem (6), mais um tornado e desta vez na cidade de Pedro Osório, no Sul gaúcho.

Tornado ontem à tarde em Pedro Osório | REPRODUÇÃO
Muita gente está espantada com a ocorrência de dois tornados em tão curto intervalo, assim é importante contextualizar o que ocorre no clima e explicar se dois eventos em poucos dias fogem à normalidade.
O primeiro ponto a se levar em conta é que tornados não são incomuns no Rio Grande do Sul, uma vez que o estado está numa região subtropical de transição climática que sofre continuamente efeitos de massas de ar frio e quente, o que favorece episódios de tempo severo.
É por isso que a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Sul do Brasil formam uma área em que está entre as com maior incidência de tempo severo no mundo e, por efeitos, com tornados.
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Ocorre que, embora tornados não sejam incomuns no Rio Grande do Sul e nos demais estados do Sul do Brasil, não se trata de um fenômeno frequente. Assim, que ocorram dois tornados em apenas dez dias não é uma situação corriqueira e comum, portanto o que se viu nos últimos dez dias com duas ondas de tempestades que trouxeram tornados foge ao habitual.
Mas não é algo que surpreenda. Na semana passada, em artigo, escrevi que “o tornado que atingiu o Noroeste do Rio Grande do Sul não deve ser encarado como um episódio isolado” e alertei que o El Niño provocaria mais ondas de tempestades e agravaria o risco de tornados.
O fenômeno não provoca tornados diretamente, mas favorece uma configuração atmosférica mais propícia às tempestades severas. Durante episódios do El Niño, aumenta a frequência de frentes frias, do transporte de umidade da Amazônia e de sistemas de baixa pressão, ingredientes que elevam a probabilidade de formação de tempestades organizadas.
Estudos científicos mostram que essa combinação torna mais comuns os ambientes favoráveis às supercélulas, responsáveis pela maior parte dos tornados. A literatura meteorológica identifica o Sul do Brasil como uma das regiões de maior ocorrência de tempestades severas fora da América do Norte. A interação entre o ar quente e úmido vindo da Amazônia, o relevo dos Andes e ventos intensos em diferentes níveis da atmosfera cria um ambiente particularmente favorável para tempestades de grande intensidade.
Quando esses fatores atuam simultaneamente, podem surgir supercélulas capazes de produzir granizo gigante, vendavais e tornados. Pesquisas realizadas por universidades brasileiras mostram que o Oeste e Norte do Rio Grande do Sul, o Oeste de Santa Catarina e o Sudoeste do Paraná concentram a maior quantidade de registros documentados de tornados na região Sul.
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Assim, como alertei na semana passada, os dois tornados não serão os últimos deste ano. Haverá mais ocorrências no Rio Grande do Sul e também em Santa Catarina e no Paraná.
Os próximos meses costumam representar o período de maior risco para tempestades severas no Sul do Brasil. Com a aproximação da primavera, cresce a disponibilidade de calor e umidade na atmosfera, enquanto continuam atuando sistemas frontais e fortes correntes de vento em altitude.
A combinação favorece o desenvolvimento de tempestades mais intensas e organizadas, aumentando a possibilidade de episódios de granizo, vendavais e tornados. O El Niño tende a reforçar esse cenário ao aumentar o número de situações favoráveis às tempestades.
Isso não significa que haverá tornados com frequência elevada, pois a formação do fenômeno depende de uma combinação muito específica de ingredientes atmosféricos. No entanto, cresce o número de dias em que a atmosfera apresentará condições propícias para a formação de supercélulas, elevando o risco estatístico de novos episódios na primavera, no verão e ainda no outono do próximo ano.