Bom dia e o desejo de um ótimo fim de semana estimados e estimadas leitores da MetSul, o cenário que temos pela frente exige atenção redobrada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina pelo risco alto de enchente com vários rios podendo sair do leit0 na semana que se inicia amanha.

CBMSC/ARQUIVO
Neste fim de semana e na segunda, vamos observar a intensificação de um rio atmosférico sobre o Sul do Brasil, com transporte muito intenso de umidade da região amazônica em direção às latitudes mais ao Sul do continente. Esse processo vai alimentar uma sequência de áreas de instabilidade e pode provocar chuva excessiva em diversas regiões.
O que mais me preocupa neste episódio não é apenas a ocorrência de chuva forte em um determinado momento, mas a possibilidade de termos vários dias com precipitação volumosa até segunda. Quando a chuva se prolonga por um período maior, piora o risco de cheia. O solo também vai perdendo capacidade de absorver água, aumentando rapidamente o escoamento superficial e, consequentemente, o risco hidrológico e de enchente.
Neste fim de semana, a distribuição da chuva será bastante irregular no Rio Grande do Sul. Enquanto a precipitação tende a diminuir no Centro e no Sul do estado, com melhora do tempo em diversos municípios da Metade Sul, a instabilidade ganha força no Norte e no Nordeste gaúcho. Santa Catarina e parte do Paraná também passam a receber volumes maiores.
Na segunda-feira, dia 31, a chuva pode ser muito intensa entre o Norte do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná. Uma das áreas que merece maior atenção é a faixa entre o Alto Uruguai e os Campos de Cima da Serra, justamente uma região onde estão importantes nascentes e áreas de contribuição de grandes bacias hidrográficas.
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É importante entender o mecanismo que está por trás dessa situação. Temos uma grande massa de ar quente e seco sobre o Centro do Brasil associada a um bloqueio atmosférico. Esse bloqueio impede o avanço normal dos sistemas e favorece a canalização da umidade amazônica para o interior da América do Sul. Essa umidade é transportada para o Sul e encontra uma atmosfera que também estará bastante aquecida.
Essa combinação é potencialmente explosiva. De um lado, temos uma enorme quantidade de vapor d’água disponível. De outro, temos calor e condições favoráveis à formação de instabilidade. O resultado é uma sucessão de áreas de chuva forte a intensa, com volumes elevados e, de forma localizada, temporais acompanhados de granizo e vendavais.
Estamos falando de um rio atmosférico com mais de 7 mil quilômetros de extensão, conectando a região amazônica ao extremo Sul do Atlântico. Esses corredores de umidade não são rios no sentido convencional, evidentemente. São faixas longas e concentradas de transporte de vapor d’água na atmosfera. Quando essa umidade encontra condições favoráveis à ascensão do ar, a consequência pode ser chuva muito volumosa.
No Rio Grande do Sul, minha principal preocupação está voltada por enchente para os rios Uruguai, Jacuí, Taquari, Sinos, Gravataí, Caí e Camaquã. Também me preocupa especialmente a região dos Campos de Cima da Serra e o Leste do Planalto, onde estão nascentes importantes dos rios Taquari, Caí e Jacuí.
Os modelos meteorológicos indicam acumulados superiores a 100 milímetros em vários pontos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em áreas do Norte e Nordeste gaúcho, especialmente entre o Alto Uruguai, Planalto Médio, Serra, Campos de Cima da Serra e Litoral Norte, os volumes podem chegar a 100 a 200 milímetros, com marcas localmente superiores.
Esse cenário também terá consequências para o sistema do rio Uruguai. Com muita chuva no Alto Uruguai e entre o Planalto Sul Catarinense e os Aparados da Serra, onde está o rio Pelotas, a nascente do Uruguai, uma onda de vazão tende a se formar e avançar posteriormente pelo curso do rio em direção à Fronteira Oeste.
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Outra preocupação importante é o Guaíba. Se os rios Jacuí, Caí e Taquari tiverem cheias expressivas, essa água chegará posteriormente ao sistema que desemboca no Guaíba. Por isso, considero elevada a possibilidade de o nível do Guaíba superar a cota de alerta de 2,50 metros na próxima semana, com potencial de alagamentos nas ilhas de Porto Alegre.
E existe ainda um fator adicional que merece ser acompanhado com muito cuidado. Entre os dias 4 e 5 de setembro, uma massa de ar frio mais forte pode avançar para o Sul, acompanhada de vento Sul. Dependendo da intensidade e da direção dos ventos, poderá ocorrer represamento no Guaíba justamente em um momento em que o nível já estará elevado pela chegada da vazão dos rios.
Por isso, não devemos olhar apenas para a previsão de chuva. Precisamos acompanhar a evolução dos rios, das vazões e dos níveis dos contribuintes e do Guaíba. Chuva excessiva é um risco meteorológico, mas quando essa chuva encontra bacias hidrográficas vulneráveis, transforma-se rapidamente em risco hidrológico.
Em Santa Catarina, a atenção deve estar voltada por enchente para as bacias do Meio-Oeste, Sul e Vale do Itajaí, onde também existe possibilidade de elevação significativa dos rios e atingimento de cotas de inundação.
Minha recomendação, portanto, é de atenção redobrada nos próximos dias. É um evento de longa duração, alimentado por um corredor de umidade excepcionalmente amplo, e que poderá produzir impactos meteorológicos e hidrológicos relevantes no Sul do Brasil. O acompanhamento da evolução da chuva e dos rios será fundamental, especialmente nas áreas mais vulneráveis a alagamentos, inundações, enchente e deslizamentos, o que vamos fazer detalhadamente aqui no site da MetSul e em nosso canal no Youtube.