Um fenômeno atmosférico tropical conhecido como Oscilação de Madden-Julian (OMJ) vai aumentar a chuva no Brasil nos próximos dias e ainda reforçará o El Niño que começa no Oceano Pacífico, elevando ainda mais as temperaturas da superfície do mar e o risco de um episódio muito forte de Niño no segundo semestre.

OMJ vai provocar chuva forte e raios com risco de temporais em estados em que nesta época do ano o clima deveria ser seco | ASAF SAAB DE SOUZA
A Oscilação de Madden-Julian deixou a região do Pacífico Ocidental e voltou a atuar no Hemisfério Ocidental, o que tende a favorecer um novo reforço do aquecimento das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico Equatorial nas próximas semanas.
Segundo especialistas, o atual episódio da OMJ pode gerar mais uma Onda Kelvin oceânica descendente (downwelling wave), mecanismo que transporta calor para Leste e contribui para intensificar o El Niño.
Com a sucessão de sinais atmosféricos e oceânicos favoráveis observados nos últimos meses, cresce a avaliação de que estão presentes, ou em desenvolvimento, praticamente todos os ingredientes necessários para que o fenômeno alcance forte intensidade ou até níveis extremos durante o segundo semestre.
A Oscilação de Madden-Julian, mais conhecida pela sigla OMJ, é um dos fenômenos atmosféricos mais importantes dos trópicos e exerce influência significativa sobre o tempo e o clima em diversas partes do planeta.
Descoberta pelos cientistas Roland Madden e Paul Julian no início da década de 1970, a OMJ consiste em uma área de intensa atividade de nuvens, chuva e tempestades que se desloca lentamente de Oeste para Leste ao longo da faixa tropical do planeta.
Diferentemente do El Niño e da La Niña, que podem durar muitos meses ou até anos, a Oscilação de Madden-Julian é um fenômeno de curta duração. Seu ciclo completo normalmente leva entre 30 e 60 dias para percorrer os oceanos Índico, Pacífico e parte do Atlântico.
A OMJ alterna períodos de forte convecção atmosférica, quando há formação de muitas nuvens e chuva, com fases de menor atividade. À medida que essa região ativa se desloca pelos trópicos, modifica os padrões de vento, umidade e precipitação em diferentes continentes.
Os impactos podem ser observados em regiões muito distantes da área onde o fenômeno está atuando. A OMJ pode influenciar a ocorrência de chuvas intensas, secas temporárias, ondas de calor e até episódios de frio em determinadas partes do mundo.
No Brasil, a OMJ frequentemente influencia os períodos de chuva mais intensa e pode aumentar a instabilidade atmosférica em diversas regiões. Além disso, favorece mais ciclones no Atlântico.
Como a oscilação afeta o El Niño
A equação do El Niño é complexa e muitos fatores interferem na formação do fenômeno e a sua intensificação uma vez formado, como agora, destaca a MetSul Meteorologia. Um deles é justamente a Oscilação de Madden-Julian que pode intensificar um episódio de El Niño ao favorecer períodos de forte atividade de tempestades e ventos sobre o Oceano Pacífico tropical.
Quando a fase ativa da OMJ se desloca pelo Pacífico, ela costuma gerar episódios de ventos de Oeste próximos à Linha Internacional de Data. Os ventos ajudam a empurrar águas quentes da região Oeste para o Centro e Leste do Pacífico e também desencadeiam ondas oceânicas de calor conhecidas como ondas de Kelvin, que avançam nas profundezas do Pacífico.

OMJ está agora nas lomgitudes do Brasil e vai estar sobre o Pacífico na segunda quinzena deste mês com reforço do El Niño | NOAA
O resultado é um aquecimento adicional da superfície do mar nas áreas monitoradas para o El Niño, reforçando o fenômeno. Por isso, durante a formação de um El Niño, a ocorrência de fases fortes e persistentes da OMJ pode acelerar seu desenvolvimento e aumentar sua intensidade, enquanto a ausência desse suporte atmosférico tende a favorecer uma evolução mais lenta do aquecimento.
OMJ no Hemisfério Ocidental aumenta a chuva no Brasil
Quando a Oscilação de Madden-Julian (OMJ) se posiciona no Hemisfério Ocidental, especialmente sobre a América do Sul e áreas próximas do Pacífico Leste, ela favorece a formação de grandes áreas de nuvens e tempestades nos trópicos.
A intensificação da convecção libera enorme quantidade de calor na atmosfera, alterando a circulação dos ventos em escala planetária. Como consequência, aumenta o transporte de umidade da Amazônia para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de estimular a formação de áreas de baixa pressão e frentes mais ativas.
Justamente por isso, a tendência é de chuva acima a muito acima da média durante os próximos dias em pontos do Sudeste e do Centro-Oeste com acumulados até altos para esta época do ano, começo da estação seca.

METSUL
O mapa acima mostra a projeção de chuva para dez dias do modelo ECMWF do Centro Meteorológico Europeu (clique aqui para ter acesso) em que se observa como devem ser altos os volumes no Mato Grosso do Sul e São Paulo, em particular. Deve chover em muitas áreas do Centro do Brasil em que nesta época do ano não costuma ter chuva, como é o caso de Brasília, pela estação seca.
O que se espera é uma sequência de vários dias com registro de chuva com persistência de áreas de instabilidade frequentes. Modelos indicam que a instabilidade maior vai ocorrer entre os dias 11 de 16 deste mês, em particular em São Paulo e no Mato Grosso do Sul. Alerta-se que, além da chuva, podem ocorrer temporais convectivos com queda de granizo e vento em pleno junho.
Em anos de El Niño, o impacto da OMJ na chuva do Brasil costuma ser ainda mais forte porque a atmosfera já se encontra predisposta a maior instabilidade, fazendo com que a OMJ atue como um “reforço temporário” que eleva os volumes de chuva e a frequência de temporais em várias regiões do país.