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Enchentes nesta semana em Canoas (fotos) e dezenas de cidades gaúchas foram históricas e tiraram quase 30 mil gaúchos de suas casas | GUSTAVO GARBINO/PREFEITURA DE CANOAS

A MetSul Meteorologia tem recebido nos últimos dias uma série de questionamentos por parte do público e da imprensa sobre dezembro ser absurdamente chuvoso e com volumes ainda mais altos que os registrados nos últimos meses. Alguns chegam a indagar ser verdade que vai chover todos os dias do mês de dezembro.

Mesmo o noticiário de imprensa aqui no Rio Grande do Sul dá voz a previsões que fogem à realidade histórica e ao que os modelos climáticos indicam, ouvindo profissionais que não são da Meteorologia, afirmando que, com um El Niño mais forte neste fim de ano e no início de 2024, deve chover ainda mais com “enchentes recordes”.


Então, vamos ao que importa e é a ideia central deste comentário: o fato de o El Niño atingir seu pico agora no fim do ano e/ou no início de 2024, o que é a previsão da MetSul e de centros meteorológicos internacionais, não significa que a chuva vai ser pior que a já registrada nesta primavera.

A relação entre volumes de precipitação e intensidade do El Niño no Pacífico não é linear e tampouco automática. Não funciona sob a lógica equivocada que o Pacífico fica 0,2ºC ou 0,3ºC mais quente e isso fará chover mais.


Pico de intensidade do El Niño não significa pico de volumes de chuva no Sul do Brasil. Ponto!

Embora a previsão de que o fenômeno El Niño atinja seu máximo de intensidade entre dezembro e janeiro agora, não há indicativo por parte dos modelos climáticos de que dezembro será mais chuvoso que, por exemplo, novembro ou setembro, os dois meses de maior precipitação desta primavera e de cheias históricas. Apesar de outubro ter tido em Santa Catarina e no Norte gaúcho, o pior mês de chuva nesta primavera.

Dezembro será outro mês com chuva acima da média em muitas cidades gaúchas. De acordo com as projeções dos modelos, os maiores volumes se dariam na Metade Norte e em Santa Catarina. O Paraná, pela proximidade do Centro do Brasil que ingressa na estação chuvosa, naturalmente costuma ter mais chuva em dezembro.

Que dezembro seja outro mês com chuva acima da média em várias cidades gaúchas – não necessariamente todas – não significa que seja o mês mais chuvoso de todos porque estará acompanhando o pico de intensidade do fenômeno El Niño.

Veja nos mapas abaixo com as projeções semanais do modelo europeu de anomalia de precipitação para dezembro como parte do mês de dezembro deve ter chuva perto da média e alguns períodos acima da média.

É importante conhecer a história em se tratando de El Niño. Quando o fenômeno atua, dependendo da data de seu começo, os maiores volumes de chuva ocorrem no inverno e na primavera ou apenas na primavera. Nunca houve um El Niño em que os mais altos volumes de chuva se deram no verão no Rio Grande do Sul.

Em alguns episódios, o outono do ano seguinte ao começo do evento de El Niño foi de muita chuva. Cito o caso marcante de 1941, ano da pior enchente da história em Porto Alegre (4,76 metros no Guaíba) e da maior cheia do Taquari (29,92 metros no porto de Estrela), em maio de 1941. Hoje, modelos de clima de longo prazo indicam chuva ainda acima da média no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024.

No verão meteorológico, que neste ano deve ter chuva acima da média em grande parte do estado gaúcho, a chuva não costuma ser tão frequente como no inverno e na primavera. Há mais dias de sol e, obviamente, mais dias de calor.

Com maior umidade pelo El Niño e a temperatura mais alta, ocorrem mais temporais de verão, de fim de tarde e à noite, localizados. Um memorável é o de janeiro de 2016, sob forte El Niño, em Porto Alegre com ventos destrutivos e queda de milhares de árvores.

A combinação de calor com maior umidade pelo El Niño pode trazer ainda eventos locais ou regionais de chuva extrema no verão. Em 2010, sob forte El Niño, muitos devem se lembrar da queda da ponte em Agudo, no Centro do estado, por uma cheia do Jacuí.

Naquele janeiro, Porto Alegre teve 173 mm, valor acima da média histórica, mas longe dos mais de 400 mm de setembro de 2023. Já Santa Maria foi a 406 mm em janeiro de 2010, ou seja, foi evento mais concentrado e localizado no Centro do estado.

Metade dos dias de janeiro de 2010 não teve chuva na capital gaúcha e houve muitos dias abafados, sobrevindo uma intensa onda de calor em fevereiro, mês que foi muito quente e registrou 110 mm.

No Litoral Norte gaúcho e na costa catarinense, com ou sem El Niño, pode ocorrer episódios de chuva extrema no verão pela condição geográfica que favorece chuva orográfica (associada ao relevo) e a influência às vezes da ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul), corredor de umidade entre o Norte e o Sudeste do Brasil que em algumas oportunidade se inclina para o Leste do Sul do Brasil.

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