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O Oceano Pacífico vai ingressar em uma nova fase de aquecimento que irá reforçar ainda mais e significativamente o fenômeno El Niño durante o inverno do Hemisfério Sul, de acordo com dados analisados pela MetSul Meteorologia. Dados apontam uma nova onda Kelvin no Pacífico Equatorial, um processo que tende a transportar grandes quantidades de calor das profundezas do oceano em direção ao Pacífico Central e Leste.

Mapa do El Niño

El Niño está instalado no Oceano Pacífico | NOAA

O desenvolvimento desta nova onda ocorre em um momento em que o Pacífico já apresenta um volume extraordinário de águas mais quentes do que o normal abaixo da superfície.

A combinação entre esse enorme reservatório de calor e a chegada de um novo pulso de águas quentes aumenta o potencial para que o El Niño se intensifique ainda mais nos próximos meses e atinja intensidade muito forte, caracterizando um Super El Niño.

O atual episódio de El Niño, que teve o início declarado pela NOAA no dia 11, começou justamente após a formação e evolução de uma grande onda Kelvin que começou a se deslocar pelo Pacífico a partir do outono.

O mecanismo transportou enormes quantidades de água quente do Pacífico Oeste para regiões mais próximas da costa da América do Sul, favorecendo o aquecimento das águas superficiais e o estabelecimento do fenômeno.

Agora, os dados de monitoramento indicam que um novo pulso de calor oceânico está se formando. A origem está em recentes episódios de rajadas de vento de Oeste sobre a faixa equatorial do Pacífico. Os ventos sopram na direção oposta aos ventos alísios, que normalmente empurram as águas superficiais quentes para a região da Indonésia e da Oceania.

Quando os ventos alísios enfraquecem ou são interrompidos por rajadas de vento de Oeste, parte da água quente acumulada no Pacífico Oeste começa a se deslocar para Leste em direção à América do Sul.

O transporte ocorre por meio das chamadas ondas Kelvin, que funcionam como pulsos de energia capazes de atravessar rapidamente o Pacífico ao longo da linha do Equador nas profundezas do mar, antes de emergirem na superfície perto da América do Sul.

Gráfico da Onda Kelvin

Primeira grande onda Kelvin alcançou América do Sul em maio e instalou o El Niño | METSUL

Diferentemente das ondas observadas na superfície do mar, as ondas Kelvin atuam principalmente abaixo da superfície. Elas alteram a profundidade da camada quente do oceano e provocam mudanças no nível do mar, avançando silenciosamente por milhares de quilômetros.

À medida que a nova onda Kelvin avança, ela aprofunda a termoclina, a região que separa as águas superficiais quentes das águas profundas mais frias. Com a termoclina mais profunda, diminui a ressurgência de águas frias que normalmente ajuda a manter temperaturas mais baixas no Pacífico Oriental.

El Niño já é forte por alguns critérios

O aquecimento do Pacífico segue acelerado e já apresenta características comparáveis aos maiores episódios de El Niño da história recente. Na região Niño 1+2, próxima às costas do Peru e do Equador, a temperatura da água está cerca de 2,7°C acima da média, valor muito próximo ao registrado em 1997 (2,8°C) e superior ao observado em 2015 (2,0°C). Isso mostra que as águas junto à América do Sul estão excepcionalmente quentes, uma marca típica dos eventos mais intensos do fenômeno.

Ainda mais relevante é a situação da região Niño 3.4, considerada a principal referência para medir a intensidade do El Niño e seus impactos globais. Nesta área, a anomalia já alcança cerca de 1,5°C pelo índice ONI (0,9°C pelo método RONI), superando com folga os valores observados no mesmo período de 1997 (0,7°C) e de 2015 (0,9°C). Os dados indicam ainda que o aquecimento está mais amplo e consolidado ao longo do Pacífico Equatorial.

Em síntese, isso significa que o atual El Niño está mais avançado em seu desenvolvimento do que estavam os episódios históricos de 1997 e 2015 durante o mês de junho. O calor oceânico já se espalhou por uma extensa faixa do Pacífico, característica normalmente associada aos eventos mais fortes.

Qual será o impacto deste El Niño no Brasil

Como nenhum episódio de El Niño é igual ao outro e cada episódio tem a sua própria história, este evento de 2026-2027 produzirá muitas das consequências observadas no passado quando da atuação do fenômeno, mas não necessariamente iguais ou com a mesma proporção.

Uma série de fatores atmosféricos em paralelo ao El Niño, e que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio. No episódio deste ano, os efeitos no clima serão sentidos mais a partir do segundo semestre, especialmente no fim do inverno e na primavera.

Mapa de impactos do El Niño no Brasil

METSUL

Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal.

Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.

Em 2026, conforme os indicativos de vários modelos de clima, o El Niño será diferente do último nos seus impactos no Centro-Oeste e no Sudeste do Brasil nos primeiros meses do fenômeno com chuva acima a muito acima da média em diversos pontos de estados das duas regiões e temperaturas mais baixas no outono-inverno em diversos estados.

No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte, mas mesmo no verão podem ocorrer extremos de chuva com enchentes. As duas maiores enchentes da história gaúcha, 1941 e 2024, não se deram no primeiro ano do El Niño e sim no outono do ano seguinte, o que neste episódio corresponderia a 2027.

Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio no Sul do Brasil. O final do inverno e a primavera, em particular, são de alto risco de tempo severo com temperaturas mais altas, sendo frequentes ondas de tempestades com granizo, vendavais e até tornados.

Sul do Brasil será a região mais impactada por este episódio

O El Niño impacta o clima em todas as regiões do Brasil com a diminuição da chuva mais ao Norte do país e um grande aumento da precipitação mais ao Sul, mas nenhuma região deve ser tão afetada por este evento como o El Niño.

Para o Sul do Brasil, os sinais são especialmente preocupantes. A experiência histórica mostra que o El Niño inevitavelmente vai trazer chuva extrema, cheias de rios, enchentes, e muitos temporais severos de vento e granizo. Não é uma pergunta se haverá ou não enchentes, mas sim quantas e o tamanho.

A MetSul destaca que o período de maior risco será o segundo semestre, especialmente o fim do inverno e a primavera, e o outono de 2027, mas mesmo no verão podem ocorrer eventos extremos.

Embora aumente o risco de uma nova catástrofe, o retorno do fenômeno com intensidade muito possivelmente maior que em 2023-2024 não significa que haverá uma repetição da enchente histórica de maio de 2024. Não há relação linear entre a intensidade do El Niño e a ocorrência ou magnitude de um desastre em determinada região. As grandes enchentes dependem da soma de diversos fatores atmosféricos em paralelo e que só podem ser avaliados com maior precisão em previsões de curto prazo.