Uma notícia causou grande impacto nos últimos dias nas redes sociais, especialmente em contas que se valem do alarmismo em se tratando de clima, sobre a possibilidade de dezenas de milhares de brasileiros morrerem nos próximos meses como consequência do fenômeno El Niño.

Mapa do El Niño

COPERNICUS

Como surgiu a história? Projeção do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, estima que o Super El Niño poderá provocar 857,4 mil mortes adicionais relacionadas ao calor em todo o mundo entre junho deste ano e março de 2027. Desse total, 484,5 mil óbitos adicionais já teriam ocorrido entre junho e setembro, enquanto outros 372,9 mil são projetados para os próximos seis meses.

O que diz a projeção sobre o Brasil? O país aparece entre os mais afetados no mudo, com estimativa de 26,7 mil mortes adicionais no período, sendo 19,5 mil até março. Entre os países com maiores projeções estão Índia, com 160 mil mortes adicionais, China, com 85,4 mil, e Nigéria, com 69,7 mil. Indonésia, Sudão e Brasil também aparecem entre os mais afetados.

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Como foi feito o cálculo? As estimativas foram calculadas pelo monitor El Niño Heat Mortality Tracker e representam mortes adicionais em comparação com a média registrada entre 1996 e 2005.

Os números pioraram? As projeções foram revisadas para cima após agosto e setembro apresentarem temperaturas superiores às inicialmente previstas. Especialistas ressaltam que, além do El Niño, o aquecimento global contribui para intensificar as temperaturas extremas e ampliar os riscos à população.

Mas dá para acreditar? A projeção de aproximadamente 30 mil mortes adicionais associadas à alta temperatura no Brasil até março precisa ser recebida com bastante cautela. Embora calor extremo represente um risco real à saúde pública, especialmente para idosos, pessoas com doenças preexistentes e populações vulneráveis, o número parece superdimensionado quando se considera a climatologia brasileira e a época do ano em que a estimativa está concentrada.

Um aspecto importante é que o período entre novembro e março corresponde ao verão e à temporada chuvosa em grande parte do Brasil, especialmente no Centro-Oeste, Sudeste e parte do Norte. A maior frequência de chuva, nebulosidade e períodos de instabilidade atmosférica tende a limitar a persistência de ondas de calor prolongadas e a ocorrência de extremos de temperatura máxima. Não significa ausência de episódios de calor intenso, mas torna questionável a extrapolação de cenários de mortalidade tão elevados para o conjunto do território brasileiro.

Há também questão metodológica importante. O próprio Climate Impact Lab trabalha com estimativas estatísticas de mortalidade adicional, comparando as temperaturas projetadas com uma referência histórica. Não se trata de uma previsão de que 26,7 mil pessoas efetivamente morrerão por calor no Brasil, muito menos de uma contagem de óbitos que possam ser atribuídos diretamente ao El Niño. Além disso, o levantamento foi atualizado com novas observações e projeções, o que elevou consideravelmente os números.

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Uma projeção nacional é realista? É preciso considerar que o Brasil tem características climáticas muito diferentes de países de clima temperado ou de regiões tropicais com estação seca prolongada. Mesmo sob El Niño excepcionalmente intenso, a ocorrência de calor extremo depende de uma combinação de fatores atmosféricos, como bloqueios, ventos, nebulosidade, umidade e distribuição das chuvas.

No verão brasileiro, a chuva pode interromper sequências de calor persistente, embora não impeça ondas de calor, até extremas, especialmente no Sul do Brasil e no Rio de Janeiro. Ondas de calor ocorrem com ou sem El Niño e, no caso do Sul do Brasil, tendem a ser mais fortes e longas sob La Niña que El Niño.

O resumo? A projeção merece questionamento quanto à magnitude e à comunicação do resultado. O risco de mortalidade pelo calor é real e não deve ser minimizado, mas apresentar dezenas de milhares de mortes como consequência esperada do Super El Niño no Brasil pode transmitir uma dimensão de certeza que uma projeção sazonal não possui. É necessário avaliar a distribuição regional dos riscos, as margens de incerteza e a evolução efetiva das condições meteorológicas nos próximos meses.