A influência do fenômeno El Niño de excepcional intensidade divide o Brasil no momento entre fogo e água com excesso de queimadas no Norte e chuva acima a muito acima da média no Sul e em pontos do Centro-Oeste e do Sudeste, especialmente em São Paulo e no Mato Grosso do Sul, no caso do Centro do país.

De acordo com dados mais recentes da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar pelo tradicional índice ONI (Índice Oceânico Niño) é de +3,2ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central, que é usada oficialmente para definir se há um El Niño na forma clássica e de impacto global.

O valor é recorde e jamais observado neste índice nos tempos modernos, superando o recorde anterior de +3,0ºC, durante o episódio do Super El Niño de 2015-2016. A marca histórica não surpreende, uma vez que por meses se alertava que este evento acabaria sendo extremo e com potencial de se transformais no mais intenso em séculos.

O recorde ocorre dois meses antes do que o pico anterior registrado em novembro de 2015, e do El Niño de 1877, que contribuiu para uma fome que dizimou entre 3% e 4% da população mundial. Pelo indicador ONI, este El Niño também já superou eventos historicamente significativos registrados em 1982-1983 e 1997-1998.

Levantamento da MetSul com base em dados semanais da NOAA e calculados pelo método ONI mostra que o maior valor de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 entre os episódios de Super El Niño antes do recorde de 2026 tinha sido registrado no evento de Super El Niño 2015-2016, quando a anomalia semanal alcançou 3,0°C na semana de 18 de novembro de 2015, seguido por 2,6°C no Super El Niño de 1982-1983, na semana de 29 de dezembro de 1982.

Excesso de chuva pelo El Niño no Sul

O El Niño está entre os principais fatores climáticos que ajudam a explicar o cenário de excesso de chuva, cheias de rios e sucessivas ondas de tempestades que atingem o Sul do Brasil e áreas de São Paulo desde o inverno.

Leia tambémO que o furacão nos EUA e os temporais no Sul do Brasil têm em comum

No Rio Grande do Sul, os episódios de chuva volumosa provocaram cheias de diversos rios nas últimas semanas, como Taquari, Caí, Antas, Jacuí, Sinos, Uruguai, Quaraí, Ibicuí, Vacacaí, Ibirapuitã e Jaguarão, dentre outros. Neste momento, o Rio Uruguai está acima da cota de inundação em vários pontos da Fronteira Oeste gaúcha, como Uruguaiana, Itaqui e São Borja.

Em Santa Catarina, o excesso de precipitação da mesma forma causou cheias de rios em diferentes pontos do estado nas últimas semanas, casos dos rios Uruguai, Chapecó, Bonito e Itajaí, afetando vários municípios.

No Paraná, as precipitações volumosas atingiram o Vale do Ribeira, onde os rios Ribeira, Turvo e Ponta Grossa provocaram inundações. No Sul do estado, a região de União da Vitória também permanece vulnerável às cheias do Rio Iguaçu, que também registrou cheia.

Foto de enchente no Vale do Caí

Vale do Caí registra várias enchentes desde a metade do ano | PREFEITURA DE SÃO SEBASTIÃO DO CAÍ

Foto de enchente em São Paulo

Enchente no município de Eldorado, Vale do Ribeira, em São Paulo, em setembro | FREDERICO VIEGAS/ISA

Em São Paulo, o Vale do Ribeira enfrentou episódios de inundação associados à elevação do Rio Ribeira de Iguape. Municípios como Eldorado, Ribeira, Iporanga, Registro e Apiaí estão entre as localidades que foram afetadas. Na Grande São Paulo, as chuvas intensas causaram o transbordamento do Rio Tietê em setembro. O último mês foi o setembro mais chuvosos da série histórica da cidade de São Paulo.

No Norte do Brasil, fogo e fumaça

Se o Sul do Brasil enfrenta excesso de água, o Norte do país registra fogo. A fumaça provocada pelas queimadas no Amazonas agravou a qualidade do ar em Manaus e levou à suspensão de aulas, atividades presenciais em órgãos públicos e eventos ao ar livre neste fim de semana.

Os níveis de poluição atmosférica atingiram patamares considerados péssimos, com riscos à saúde da população, especialmente crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias.

Foto de queimadas no Amazonas pelo clima seco do El Niño

Vários focos de queimadas ardem perto de Manaus | MICHEL DANTAS/AFP/METSUL

Foto da fumaça em Manaus

Fumaça traz péssima qualidade do ar em Manaus | MICHEL DANTAS/AFP/METSUL

Na sexta-feira (9), a concentração de material particulado fino (MP2,5) chegou a 196,4 microgramas por metro cúbico (µg/m³) no início da manhã. Na noite anterior, às 22h, o índice havia alcançado 200 µg/m³. Dados do sistema de monitoramento da qualidade do ar também apontaram um pico de 344,5 µg/m³ às 2h de sexta-feira, segundo informações da plataforma Selva, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Leia tambémMudança de La Niña para El Niño recorde em 2026 espanta a ciência

Concentrações elevadas de MP2,5 representam um risco importante porque essas partículas podem penetrar profundamente nos pulmões. Entre os sintomas associados à exposição estão tosse, falta de ar e irritação nos olhos, além do agravamento de problemas respiratórios preexistentes.

A Prefeitura de Manaus suspendeu eventos ao ar livre previstos para o Dia das Crianças em pelo menos dois parques da cidade. As aulas da rede municipal e as atividades presenciais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), da UEA e do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) também foram suspensas.

As atividades administrativas de órgãos municipais permaneceram interrompidas pelo menos até segunda-feira (12), enquanto os serviços essenciais de saúde foram mantidos. A Defesa Civil recomendou aumentar a hidratação, evitar exercícios físicos ao ar livre e utilizar máscaras PFF2 para reduzir a inalação de partículas.

A orientação é que pessoas dos grupos de risco redobrem os cuidados. Focos de calor quase quadruplicam O agravamento da situação ocorre em meio ao aumento expressivo das queimadas, condição favorecida pelo clima mais seco pelo El Niño.

O Amazonas registrou 3.726 focos de calor em setembro, quase quatro vezes os 942 contabilizados no mesmo mês de 2025, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A estiagem severa, a falta de chuva e o uso ilegal do fogo para limpeza de áreas e pastagens favorecem a propagação dos incêndios. Para reforçar o combate às chamas, o governo federal enviou aeronaves a Manaus, incluindo helicópteros do Ibama e aviões Air Tractor, além de prever o apoio de 290 brigadistas. A operação busca ampliar a capacidade de resposta aos incêndios no estado.