A atuação do fenômeno El Niño já impacta o Brasil de Norte a Sul com extremos de precipitação radicalmente distintos com escassez de água no Norte e excesso no Sul e no Sudeste, mostram dados analisados pela MetSul Meteorologia.

Fotos mostram os impactos do El Niño no Brasil

Seca castiga Roraima e enchentes inundam cidades em Sao Paulo | SECOM-RR E DEFESA CIVIL DE SP

Os impactos do fenômeno no clima brasileiro que atualmente são observados já eram esperados e previstos pelos modelo de clima analisados pela MetSul com redução drástica da chuva na região amazônica e parte do Nordeste enquanto nos estados do Sul, Mato Grosso do Sul e parte do Sudeste o indicativo era de muita água.

O El Niño não para de ganhar força na faixa equatorial do Oceano Pacífico, já está entre os mais intensos das últimas décadas e se encaminha para ser o mais forte dos tempos modernos no último trimestre deste ano.

De acordo com o boletim semanal publicado ontem pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar pelo tradicional índice ONI (Índice Oceânico Niño) é de +2,9ºC na denominada região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Central, que é usada oficialmente para definir se há um El Niño.

O valor, pelo índice tradicional, corresponde a um El Niño muito forte e no limite de intenso. Anomalias nesta área do Pacífico que sejam iguais ou superiores a +2ºC estão na categoria e muito forte, popularmente conhecida como Super El Niño.

A NOAA passou a utilizar neste ano um segundo índice, chamado de Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), que faz uma compensação com o aquecimento dos oceanos tropicais, e que mostra hoje uma anomalia na Região Niño 3.4 de +2,0ºC, na categoria de El Niño muito forte. É a primeiro boletim semanal da NOAA que informa o índice RONI com anomalia de +2ºC ou superior.

Assim, pela primeira vez no evento de 2026-2027 o critério de Super El Niño foi alcançado pelos dois indicadores usados pela agência norte-americana. A última vez em que o índice RONI esteve na categoria de Super El Niño em um boletim semanal da NOAA foi em 10 de fevereiro de 2026, no episódio do fenômeno de 2015-2016, com anomalia semanal de +2,1ºC. No evento da década passada, o maior valor do RONI foi de +2,7ºC, na semana de 18 de novembro de 2015.

Seca provocada pelo El Niño avança na Região Norte

A seca provocada pelo El Niño já afeta diferentes áreas da Região Norte. A redução das chuvas, a queda acelerada dos níveis dos rios e as temperaturas elevadas começam a produzir impactos em comunidades, navegação, abastecimento de água e ecossistemas amazônicos.

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Em agosto, o Rio Branco chegou a 1,38 metro na estação de Boa Vista, abaixo do menor nível já registrado para o mês, de 1,39 metro. Em Caracaraí, o rio marcou 2,05 metros, 62,7% abaixo da média histórica de agosto, de 5,50 metros.

A situação levou o governo de Roraima a decretar emergência por 180 dias e criar um gabinete integrado para coordenar ações contra os efeitos da estiagem e do El Niño. Entre as medidas estão o reforço das brigadas de incêndio, a abertura emergencial de poços e ações para garantir o abastecimento de água.

No Amapá, a seca já provoca impactos diretos sobre comunidades ribeirinhas. No arquipélago do Bailique, na foz do Rio Amazonas, a combinação entre baixo nível da água e assoreamento dificulta a navegação e deixa mais de dez comunidades isoladas.

O problema afeta o transporte escolar, a chegada de medicamentos e o acesso a serviços de saúde. Em alguns trechos, embarcações ficam impedidas de navegar devido ao acúmulo de lama e areia no leito dos canais.

No Amazonas, a redução dos níveis dos rios também dificulta a navegação e o transporte de pacientes, profissionais de saúde, alimentos e medicamentos. Comunidades rurais e ribeirinhas estão entre as mais vulneráveis porque dependem dos rios para acessar serviços básicos.

A seca também ameaça a fauna amazônica. Durante a estiagem extrema de 2023, mais de 300 botos morreram nos lagos Tefé e Coari, onde a temperatura chegou perto de 41°C. Milhões de peixes também morreram em diferentes áreas da Amazônia.

Para evitar uma nova mortandade, pesquisadores passaram a monitorar temperatura e oxigênio da água em lagos considerados vulneráveis. O objetivo é identificar rapidamente condições críticas e permitir o resgate de animais para áreas mais seguras.

Enchentes no Sul e no Sudeste

Mais ao Sul do Brasil, o cenário é oposto pelo El Niño. Quatro estados do Sul e do Sudeste do Brasil enfrentam nesta semana cheias de rios, alagamentos e enchentes após os volumes excepcionais de chuva registrados nos últimos dias. Paraná e São Paulo concentram os impactos mais graves, mas Santa Catarina e Rio Grande do Sul também registram elevação dos rios e transtornos.

Em São Paulo, a chuva desde o final da semana passada já deixou três mortes. O excesso de chuva provocou enchentes em diferentes regiões desde o fim de semana. No Vale do Ribeira, o Rio Ribeira de Iguape subiu muito, obrigando moradores a deixarem casas e estabelecimentos comerciais. Em Eldorado, ruas amanheceram alagadas na segunda-feira. No interior paulista, o Rio Tietê também apresentou vazão muito acima do normal.

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No Paraná, há quatro mortes confirmadas e dois desaparecidos com 76 municípios afetados pelas chuvas. Mais de 21 mil pessoas sofreram impactos e mais de duas mil deixaram suas casas. O Vale do Ribeira paranaense concentra uma das situações mais críticas. Cerro Azul, Adrianópolis e Rio Branco do Sul registraram deslizamentos, quedas de barreiras e danos em rodovias. Em Adrianópolis, a erosão destruiu parte da BR-476 e interrompeu completamente o acesso pela rodovia.

Em Santa Catarina, o Rio Iguaçu também subiu rapidamente. Em Porto União, o nível chegou a 6,22 metros, acima da cota de alerta, afetando mais de 370 pessoas. Centenas precisaram deixar suas casas e escolas foram transformadas em abrigos. No Rio Grande do Sul, o Rio Uruguai ultrapassou a cota de inundação em São Borja e a onda de vazão avança para Itaqui e Uruguaiana.

Cenário se agrava no último trimestre com o Pacífico mais quente

Modelos numéricos apresentam consenso que o pico deste El Niño, como normalmente ocorre, deve se dar no final do ano. Algumas simulações apontam a intensidade máxima em novembro e outros em dezembro, o que vai levar a um agravamento dos extremos no clima do Brasil.

Os mapas abaixo mostram a projeção atualizada neste mês de anomalias de chuva para o trimestre outubro a dezembro no Norte e no Centro-Sul do Brasil do modelo SEAS-5 do Centro Meteorológico Europeu (ECMWF) e o Sistema Copernicus.

METSUL

METSUL

Como se observa, a tendência para a Região Norte e parte do Mato Grosso é de chuva abaixo a muito abaixo do normal, mesmo com o retorno gradual da precipitação com o começo do inverno amazônico no fim do ano, o que deve levar a um agravamento do quadro de estiagem e seca em estados do Norte.

Já no Centro-Sul, o sinal é contrário. A tendência é de a chuva seguir acima a muitíssimo acima do normal entre o Sul, o Mato Grosso do Sul e uma extensa área do Sudeste. Na Região Sul, deve chover mais entre o Norte gaúcho e o Paraná com os maiores desvios no Paraná e Santa Catarina, onde deve chover demais com muitas enchentes e graves consequências. No Sudeste, a chuva deve seguir muito acima do normal mais em São Paulo.

Além da chuva, o padrão mais instável deve levar a muitas tempestades fortes a severas nos estados do Sul, Mato Grosso do Sul e no Sudeste nos meses do último trimestre do ano, com previsão de alta incidência de temporais com raios, granizo, vendavais e, em alguns casos, até tornados, o que vai provocar muitos estragos.