O rápido aquecimento das águas do Pacífico junto à costa do Peru está elevando a preocupação de meteorologistas e autoridades sobre os impactos de um episódio de El Niño Costeiro que pode ganhar ainda mais força nos próximos meses. Dados recentes mostram que o fenômeno se fortalece de forma acelerada, enquanto organismos internacionais alertam para possíveis reflexos sobre chuva, temperatura e atividades econômicas em diversos países da América do Sul, notadamente no Peru e Equador que sofrem mais os efeitos do El Niño Costeiro.

El Niño Costeiro de 2017 causou graves inundações em Lima e provocou enchentes em várias partes do Peru | Foto por SEBASTIAN CASTAÑEDA/ANADOLU/AFP/METSUL
Medições indicam que as temperaturas do mar chegaram a atingir até 6°C acima da média em áreas próximas ao litoral norte peruano. O índice Niño 1+2, utilizado para monitorar as águas costeiras do Peru e do Equador, aproxima-se da marca de +3°C, valor considerado muito elevado para a região.
O aquecimento observado ocorre em uma área estratégica para o desenvolvimento do El Niño Costeiro. Diferentemente do El Niño tradicional, que envolve uma extensa faixa do Pacífico Equatorial, o fenômeno costeiro concentra-se principalmente nas águas próximas ao Peru e ao Equador, produzindo impactos locais mais imediatos.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) já advertiu que as condições oceânicas e atmosféricas estão favoráveis para que o fenômeno influencie os padrões climáticos globais nos próximos meses. A entidade considera que o evento deverá atingir pelo menos intensidade moderada e recomenda que governos e setores econômicos se preparem para possíveis consequências.
No Peru, o aquecimento do oceano já provoca alterações observáveis. Especialistas apontam que o aumento da temperatura superficial do mar contribui para a elevação do nível médio das águas ao longo da costa, ampliando o risco de alagamentos em áreas muito próximas ao litoral.
O meteorologista peruano Abraham Levy destacou que as anomalias térmicas registradas atualmente são superiores às observadas em igual período de 2023. Em algumas localidades, como Paita, no Norte peruano, a temperatura do mar chegou a apresentar desvios próximos de 7°C acima da média histórica.
Além da elevação das temperaturas, há preocupação com a ocorrência de forte agitação marítima. A previsão indica ondas mais intensas ao longo da costa peruana, especialmente em praias voltadas para o Sul, situação que pode afetar atividades pesqueiras e operações portuárias.
O Estudo Nacional do Fenômeno El Niño (ENFEN), órgão responsável pelo monitoramento oficial do fenômeno no Peru, mantém o status de alerta para El Niño Costeiro. As projeções indicam que o evento poderá persistir até fevereiro de 2027, embora a intensidade mais elevada esteja concentrada nos próximos meses.
Segundo o ENFEN, o fenômeno já alcançou oficialmente intensidade moderada e deverá permanecer nessa categoria pelo menos até agosto, mas trata-se de uma avaliação considerada por muitos que subestima a força do aquecimento. O órgão também prevê que o inverno eruano será mais quente que o normal devido à persistência das águas aquecidas junto à costa.

El Niño Costeiro ganha muita intensidade na costa peruana | NOAA
Uma das razões para o fortalecimento do fenômeno é a chegada de ondas Kelvin oceânicas. Essas ondas transportam grandes volumes de água quente através do Pacífico abaixo da superfície do mar e favorecem o aumento das temperaturas superficiais quando alcançam a costa sul-americana.
De acordo com os especialistas, a primeira de três ondas Kelvin previstas para o período já está influenciando as condições oceânicas. Embora uma onda fria seja esperada entre junho e julho, ela não deverá ser suficiente para neutralizar completamente o aquecimento observado atualmente.
As comparações com o histórico episódio de 1997 chamam atenção da comunidade científica. Aquele evento ficou marcado por chuvas extremas, enchentes e prejuízos bilionários em diversos países da costa Oeste da América do Sul, notadamente no Peru.
Diversos indicadores mostram semelhanças entre os cenários de 1997 e 2026. Entretanto, existe atualmente uma quantidade ainda maior de água quente disponível no oceano, o que poderia permitir que o fenômeno atingisse intensidade superior à registrada há quase três décadas.
Os efeitos potenciais não se limitam ao Peru. O Equador também acompanha com preocupação a evolução das condições oceânicas. Autoridades equatorianas emitiram alerta preventiva e reconhecem que o país chega ao possível novo episódio de El Niño em condição de elevada vulnerabilidade.
Estudos locais apontam que centenas de milhares de pessoas vivem em áreas suscetíveis a inundações, movimentos de massa e problemas de infraestrutura caso as chuvas aumentem significativamente. Províncias historicamente afetadas por episódios anteriores continuam apresentando fragilidades estruturais e ambientais.
O setor pesqueiro é outro dos segmentos mais sensíveis ao fenômeno. O aquecimento das águas modifica a distribuição de espécies marinhas, deslocando cardumes tradicionais para áreas mais profundas ou mais ao sul. Isso afeta diretamente a captura de recursos como a anchova, fundamental para a economia peruana.
A agricultura também permanece sob atenção. Mudanças nos regimes de chuva e temperatura podem provocar impactos sobre lavouras, disponibilidade hídrica e produtividade em diferentes regiões da costa do Pacífico sul-americano.
Evento de 1997-1998 deixou rastro de destruição no Peru e no Equador
O episódio de El Niño de 1997-1998 foi um dos mais intensos já registrados e provocou impactos devastadores em diversos países da América do Sul, especialmente no Peru e no Equador. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento excepcional das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterou profundamente os padrões atmosféricos da região e desencadeou uma sequência de eventos extremos.
No Peru, os efeitos foram particularmente severos ao longo da costa Norte e central. Chuvas torrenciais atingiram áreas normalmente áridas, causando enchentes de grandes proporções e numerosos deslizamentos de terra. Rios transbordaram, cidades ficaram isoladas e milhares de moradias foram destruídas ou danificadas. Estradas, pontes, sistemas de abastecimento de água e redes elétricas sofreram graves prejuízos.
As precipitações excessivas transformaram paisagens desérticas em extensas áreas inundadas. Em muitas localidades, a infraestrutura não estava preparada para volumes tão elevados de chuva em um curto período de tempo. O resultado foi uma crise humanitária que afetou milhões de pessoas, com milhares de famílias desabrigadas e grandes perdas econômicas.
A agricultura peruana também sofreu impactos significativos. Áreas cultivadas foram inundadas, plantações foram perdidas e a produção de diversos alimentos registrou queda. O setor pesqueiro, um dos pilares da economia peruana, enfrentou dificuldades devido às mudanças na temperatura das águas oceânicas, que alteraram a distribuição de espécies marinhas e reduziram a disponibilidade de peixes em algumas regiões.

El Niño Costeiro de 1997-1998 foi arrasador no Peru | GEC
No Equador, a situação foi semelhante. Chuvas excepcionalmente intensas provocaram enchentes generalizadas, destruíram estradas e afetaram importantes atividades econômicas. Diversas cidades sofreram com alagamentos persistentes, enquanto comunidades rurais enfrentaram isolamento e dificuldades de acesso a serviços básicos.
A produção agrícola equatoriana registrou perdas expressivas. Cultivos de banana, arroz, cana-de-açúcar e outros produtos importantes para a economia nacional foram severamente prejudicados pelas inundações e pelo excesso de umidade. Os danos repercutiram tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Além dos prejuízos materiais, o fenômeno teve importantes consequências para a saúde pública nos dois países. O aumento das áreas alagadas favoreceu a proliferação de mosquitos e contribuiu para o crescimento de doenças transmitidas por vetores. Também houve aumento de enfermidades relacionadas à contaminação da água e às precárias condições sanitárias em áreas afetadas pelas enchentes.
O que é o El Niño Costeiro e como se diferencia do clássico
O El Niño costeiro, é evento oceânico-atmosférico que consiste no aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial nas proximidades das costas sul-americanas, que implica que afeta o clima de países como Peru, Equador e às vezes no Chile. É um fenômeno local que não afeta todo o clima mundial.

METSUL
É diferente do El Niño na sua forma clássica ou canônica, que é fenômeno climático global de maior dimensão e que consiste no aquecimento anômalo do Pacífico Central e Leste na zona equatorial. Este El Niño clássico é que pode se instalar nos próximos meses. O que agora se instala na costa peruana é o El Niño local.
Uma vez que tanto o El Niño de impacto global como o El Niño costeiro se dão em seu litoral, o Peru sofre muito com o aquecimento anômalo das águas em sua costa. Por esta razão, os dois fenômenos causam muita apreensão entre os peruanos. O Peru sofreu com chuvas e huaicos (deslizamentos) nos últimos dias com escala em algumas áreas que não se via desde o Super El Niño clássico de 1997/1998 e o intenso El Niño costeiro de 2017.