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Ciclone na costa gaúcha possui algumas características que não se costuma observar nos corriqueiros ciclones extratropicais da nossa região e são comuns de se observar em furacões | Zoom Earth

Exatamente um ano depois do ciclone extratropical bomba que deixou mais vítimas e danos materiais no Sul do Brasil que o furacão Catarina de 2004, um ciclone volta a ocupar as atenções no final de junho na região. Desta vez não é um ciclone poderoso do tipo bomba ou que represente grave risco para a população, mas os aspectos peculiares da tempestade agora na costa do Rio Grande do Sul chamam atenção não apenas de profissionais da Meteorologia no Brasil, mas também em outras partes do mundo.


O Centro de Hidrografia da Marinha (CHM) da Marinha classificou o sistema como uma tempestade subtropical a partir da sua intensificação. De acordo com o órgão, na noite do dia 28 de junho houve a formação de um ciclone subtropical em alto mar, nas coordenadas 35°S 050,2°W, a aproximadamente 310 quilômetros a Sudeste da costa do estado do Rio Grande do Sul.

O sistema classificado como tempestade subtropical recebeu o nome “Raoni” com ventos estimados de 45 nós (83 km/h) nos setores Sudoeste e Oeste da tempestade marítima e de 40 nós (74 km/h) nos setores Noroeste e Norte do sistema. A expressão “Raoni” significa “grande guerreiro” em tupi-guarani e integra a lista de ciclone atípicos da Marinha.

Que ciclone é esse?

Um comunicado no final da segunda-feira da agência meteorológica norte-americana NOAA classificando o sistema na costa gaúcha como tropical aumentou ainda mais a curiosidade sobre o ciclone e detonou debates no Brasil e no exterior sobre a sua natureza.

O Met Office, serviço meteorológico do Reino Unido e outra referência internacional em Meteorologia, foi na contramão da NOAA e informou o sistema como subtropical, tal qual o comunicado da Meteorologia estatal no Brasil.

A NOAA observou em seu boletim a formação de um olho no sistema após 20h30 da segunda (hora de Brasília) e o resfriamento dos topos das nuvens ao redor do centro de circulação (CDO), indicando intensificação por convecção (instabilidade). O informe identificou o sistema como Invest, o que significa que passou a merecer monitoramento e coleta de dados pelos centros de previsão de ciclones tropicais.

No acompanhamento que iniciou ainda estimou a intensidade do ciclone pela técnica de Dvorak para ciclones tropicais a partir das imagens de satélite em 3,5, o que corresponde no caso do Atlântico a uma tempestade tropical com vento sustentado de 102 km/h. Isso colocou o sistema no limite superior de uma tempestade tropical e perto do estágio de furacão que é a partir de 4.0 na escala de Current Intensity (CI) na técnica Dvorak.

O último boletim da NOAA para este sistema acusou o seu enfraquecimento pela técnica Dvorak de estimativa de ciclones tropicais. 

Características singulares e comuns em furacão

Desde o Catarina em 2004, a MetSul nunca observou um sistema tão parecido com os estágios iniciais do Catarina como este ciclone Raoni de agora. Trata-se de um sistema que merecerá, certamente, muitos estudos porque possui diversas peculiaridades singulares como sua estrutura e sua formação muito ao Sul, fora do período quente do ano e ainda em meio a uma onda intensa de frio com neve. Isso faz com que não haja um consenso na comunidade meteorológica sobre a sua real natureza. Há meteorologistas, por exemplo, na Argentina que entendem ser um mero ciclone extratropical com o que se chama de reclusão quente em seu centro.

Tempestade Raoni | Zoom Earth

Este sistema, entretanto, tem algumas particularidades muito interessantes e incomuns de se observar nos freqüentes ciclones extratropicais que se formam em nossa zona. Um, o ciclone segregou ou se descolou da frente fria. Dois, adquiriu um centro de circulação fechado (CDO). Três, apresenta convecção ao redor do seu centro. Quatro, adquiriu um olho. Cinco, possui uma configuração em imagens de satélite semelhante a de ciclones tropicais mais fortes.

Formação de um olho chamou atenção neste ciclone | NOAA

Algumas destas peculiaridades, incomuns nos ciclones que atuam em nossa região, são comumente vistas em um furacão, mas não há elementos hoje para se classificar a tempestade como um. Não há voos de reconhecimento como no Atlântico Norte e os ventos são estimados com base em satélite e modelagem numérica. E estes dados não indicam um ciclone com vento sustentado de 120 km/h, o mínimo no caso de um furacão.

Ciclone na costa se afasta e não oferece perigo

A tempestade Raoni ainda está na costa gaúcha, onde atuou ao longo do dia com vento moderado a forte na Metade Leste gaúcha. O sistema, entretanto, não oferece perigo. Os motivos são dois. Um, a tempestade move-se no sentido Nordeste e se afasta da costa do Sul do Brasil lentamente. Dois, todos os dados indicam que à medida que seguir avançando para Nordeste tende a enfraquecer.

Os mapas abaixo do modelo WRF mostram como o ciclone que está hoje na costa do Rio Grande do Sul tende a se afastar do continente no decorrer da terça-feira, logo não há qualquer indicativo de que tocará terra.

Nesse sentido, com o gradual afastamento do ciclone, a tendência é que o vento no Rio Grande do Sul diminua bastante nesta quarta-feira ao longo do dia e passe a soprar fraco a calmo, portanto a ventania de hoje não se repetirá.

Vento foi forte nesta terça-feira

O ciclone atípico perto da costa foi responsável por trazer um dia de muito vento hoje no Sul e no Leste do Rio Grande do Sul, o que fez aumentar a percepção de frio intenso e a sensação térmica fosse gélida e desconfortável na rua. Devido ao vento, a sensação térmica chegou a 10ºC abaixo de zero nos Aparados e era de 4ºC em plena tarde na Capital.

Vento soprou muito forte hoje em Osório e houve falta de luz | Rosinara Ferreira

As rajadas, em geral, variaram entre 50 km/h e 70 km/h no Sul e no Leste do Estado hoje, mas chegaram a 105 km/h no Ninho das Águias, um ponto alto de Nova Petrópolis que é usado para a prática de esportes. Veja mais registros do vento hoje no Rio Grande do Sul:

Nova Petrópolis: 104,9 km/h
Rio Grande: 81,4 km/h
Cambará do sul: 68,0 km/h
Santa Vitória do Palmar: 66,6 km/h
Capão do Leão: 65,5 km/h
São José dos Ausentes: 64,4 km/h
Canela: 62,2 km/h
Barra do Ribeiro: 61,2 km/h
Canoas: 61,1 km/h
Porto Alegre: 61,1 km/h
Minas do Leão: 60,2 km/h
Pelotas: 59,5 km/h
Pinheiro Machado: 59,5 km/h
Rio Pardo: 59,4 km/h
Encruzilhada do Sul: 57,9 km/h


Em consequência do vento forte e do mar agitado, as atividades de praticagem foram suspensas no Porto de Rio Grande, mas a tendência é que as condições melhorem muito na região entre esta quarta e a quinta-feira.

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