Um ciclone extratropical intenso vai se formar sobre o Sul do Brasil nesta quarta-feira e avançar para o Oceano Atlântico na quinta-feira, gerando chuva forte a torrencial em diversas cidades e ventania que em algumas regiões será muito forte a intensa com rajadas que devem passar dos 100 km/h.

As características deste ciclone do meio da semana são distintas do ciclone bomba de 30 de junho e 1º de julho de 2020, da tempestade subtropical Yakecan de maio de 2022, assim como do sistema extratropical junto à costa de 15 e 16 de junho deste ano, mas os dados sugerem que pode ser um dos mais intensos ciclones a afetar o Sul do Brasil em tempos recentes.

O ciclone vai se formar pelo encontro de duas massas de ar: uma quente e uma fria. Ar mais frio vai avançar pelo Norte da Argentina com uma alta pressão de trajetória continental e o contraste vai aprofundar um centro de baixa pressão sobre o Rio Grande do Sul a partir desta quarta.

Ciclones extratropicais são um fenômeno absolutamente comum no Sul do país e ocorrem em todos os anos. O período do inverno e da primavera marca a maior frequência deste tipo de fenômeno por conta do maior contraste térmico entre ar quente e frio nas latitudes médias do continente.

Observa-se neste momento um padrão mais propício à formação de ciclones por conta de uma fase negativa do Modo Anular Sul ou Oscilação Antártica com o enfraquecimento do cinturão de ventos ao redor do continente antártico, que tende a favorecer mais chuva e ciclogênese no Sul do Brasil e no Atlântico Sul.

A rota do ciclone

Uma área de baixa pressão no Norte da Argentina vai ingressar no Rio Grande do Sul a partir do Oeste e do Noroeste do estado no começo desta sexta. No decorrer do dia, o centro de baixa pressão começa a se aprofundar muito sobre o território gaúcho, dando início a um processo de ciclogênese (formação de um ciclone).

Com isso, a pressão atmosférica em superfície vai despencar a valores abaixo de 1000 hPa nesta quarta no estado gaúcho, podendo atingir valores tão baixos de 995 hPa a 996 hPa na redução ao nível do mar. São valores por demais baixos de pressão e poucos frequentes no Rio Grande do Sul, que favorecem forte instabilidade.

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No final da quarta, o centro do ciclone vai estar no Nordeste gaúcho, sobre a região de Porto Alegre. Por isso, a instabilidade aumenta muito na capital gaúcha e na maior parte do estado da tarde para a noite desta quarta-feira.

Na quinta, o ciclone migra para o mar, onde se intensifica, e estará a Leste do Rio Grande do Sul durante o dia com pressão de 989 hPa. O deslocamento do sistema para Leste-Sudeste será rápido, ou seja, vai se afastar rapidamente do continente, mas pela sua grande intensidade e o seu vórtice de nebulosidade ainda sobre o continente provocará ainda intensa ventania e chuva.

Campo de vento abrangente

O campo de vento forte do ciclone será muito amplo. Normalmente, ciclones extratropicais são capazes de gerar vento mesmo a milhares de quilômetros de distância do seu centro, mas como este sistema será intenso os seus ventos serão sentidos em muitos estados do Brasil.

Rio Grande do Sul e Santa Catarina serão os estados mais afetados pelo vento forte, porém o Leste do Paraná e mesmo São Paulo e Rio de Janeiro devem sentir os reflexos do sistema, primeiro com forte ventania quente do quadrante Norte e depois o ingresso de ar mais frio acompanhada de rajadas de vento.

O que esperar de velocidade do vento

Rajadas de vento forte a muito intensas devem acompanhar a atuação deste ciclone. O vento ganha muita força com rajadas, em média, de 50 km/h a 80 km/h na maioria dos municípios do Rio Grande do Sul durante a quarta-feira e atinge o seu pico entre a madrugada e a manhã ou começo da tarde de quinta.

O vento por vezes forte a intenso atingirá quase todo o estado gaúcho pelo campo de vento muito extenso do ciclone. Mesmo locais que não costumam ter intensa ventania em ciclone, como do Centro para o Oeste, podem ter rajadas em alguns locais tão fortes quanto 80 km/h ou 90 km/h.

O pior do vento ocorrerá no Leste gaúcho com rajadas que devem ficar perto e acima de 100 km/h em muitos pontos, especialmente na costa, na área de entorno da Lagoa dos Patos, inclusive em Porto Alegre, e nos pontos mais próximos da costa dos Campos de Cima da Serra.

Em Porto Alegre e a parte Sul da área metropolitana (setor Norte do Vale do Sinos é menos impactado por vento em ciclones extratropicais que o Sul da Grande Porto Alegre), o vento médio deve ficar entre 70 km/h e 90 km/h, mas em alguns pontos as rajadas podem atingir marcas mais altas que podem ficar entre 100 km/h e 110 km/h, sobretudo mais ao Sul da capital e locais perto da Lagoa dos Patos. Dentro da área urbana, topografia e construções aceleram o vento e pode gerar rajadas muito intensas.

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Na costa gaúcha, as rajadas devem ficar em média entre 80 km/h e 100 km/h, mas em alguns setores da faixa costeira o vento pode ser mais intenso com rajadas que alguns modelos indicam poderiam chegar a 110 km/h ou mais.  O vento mais forte na costa deve ocorrer entre Rio Grande e Torres. Nos Campos de Cima da Serra, na borda da Serra, a mais de mil metros de altitude, os ventos devem ficar acima de 100 km/h em alguns trechos.

O vento sopra forte a intensamente ainda durante o dia na quinta no Leste do Paraná com rajadas em alguns pontos de 80 km/h a 100 km/h nos picos da Serra do Mar e de 70 km/h a 90 km/h no litoral paranaense. Curitiba deve ter vento por vezes forte com rajadas de 60 km/h a 70 km/h, mas que isoladamente podem ser maiores.

Em Santa Catarina, que sofrerá os maiores efeitos do ciclone juntamente com o Rio Grande do Sul, o vento será mais forte no Leste do estado. Previsão de rajadas de 70 km/h a 90 km/h em quase toda a costa, mas que devem atingir de 100 km/h a 120 km/h, e isoladamente até mais, em pontos do litoral, especialmente o Sul.

Vento muito intenso, acima de 100 km/h, em trechos da Serra do Planalto Sul – como o Mirante da Serra do Rio do Rastro em Bom Jardim da Serra – até o setor serrano da Grande Florianópolis, na região de Rancho Queimado. Em alguns pontos, destas áreas de maior altitude da Serra Catarinense, rajadas localizadas podem atingir de 120 km/h a 140 km/h.

Impactos do vento

O vento de um ciclone é muito diferente do vento de um temporal. Normalmente, temporais, como os de verão, trazem vento forte a intenso durante segundos ou minutos, mas que pode ser em alguns casos violento e causar danos. No ciclone, ao contrário, as rajadas fortes a muito intensas sopram por várias horas seguidas. O vento sopra muito forte, diminui, volta a ser bastante intenso, diminuiu novamente, e assim segue por horas.

Com as velocidades de vento projetadas para este episódio, pode se antecipar a ocorrência de falta de luz e a possibilidade altíssima de queda de árvores e postes. Por isso, o impacto na rede elétrica pode ser significativo com grande número de pessoas atingidas por cortes de luz no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. O vento pode causar ainda danos estruturais, como destelhamentos e colapso de estruturas.

É totalmente desaconselhável a navegação em águas interiores, como a Lagoa dos Patos ou o Lago Guaíba entre esta quarta e a quinta, assim como no mar na costa do Sul do Brasil. Sob o vento que se projeta, pequenas embarcações têm um alto risco de naufrágio. O vento muito intenso sobre o mar deve ainda gerar um swell com maré de tempestade, ondas de até cinco metros em pontos da costa, e forte ressaca do mar que deve se estender do litoral do Sul do Brasil ao litoral da Região Sudeste.