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Já se sabia por semanas que uma Onda Kelvin de convecção acoplada oceano-atmosfera (CCKW) traria enorme atividade ciclogenética (formação de ciclones) no Atlântico Norte no final de agosto e no começo de setembro com prováveis vários furacões e tempestades tropicais na região. O que não se sabia é que a onda, ao passar por longitudes entre o continente americano e a África, traria ciclone atípico no Atlântico Sul.

Universidades de Albany/Mike Ventrice

Modelos numéricos estão a indicar a formação nesta semana de um ciclone atípico na costa brasileira. Não se trata de um novo ciclone bomba que se caracteriza por muito rápida intensificação (queda da pressão central de ao menos 24 hPa em 24 horas). O que os modelos indicam é um ciclone de características subtropicais ou possivelmente até tropicais, o que pela atipicidade receberia um nome, conforme a lista previamente elaborada pela Marinha do Brasil. 

Os dados indicam uma baixa pressão em trajetória anômala de Oeste para Leste, avançando do Atlântico em direção ao litoral do Sudeste e do Nordeste do Brasil, particularmente entre os litorais do Rio de Janeiro, Espírito Santo e da Bahia. Ao se aproximar da costa, o sistema recurvaria para Norte sem atingir o litoral. Ao mesmo tempo, os modelos indicam que o sistema se intensificaria em alto mar para depois enfraquecer ao se acercar do litoral brasileiro. 

Diagramas de fase da Universidade da Flórida (EUA) gerados para este sistema indicam que durante parte do seu tempo de vida poderia atingir status de tropical (depressão ou tempestade tropical de acordo com a intensidade do vento). 

A boa notícia é que os modelos não indicam a pressão atmosférica mínima central deste sistema atípico se aprofundando muito, jamais baixando de 1.000 hPa. Um expressivo aprofundamento poderia levar a uma situação inédita na costa do Sudeste ou do Nordeste do Brasil. Outra boa notícia é que os efeitos do sistema seriam percebidos predominantemente com chuva e vento mais em mar aberto e não no continente. 

Mesmo assim, este tipo de sistema exige muita atenção porque trajetória e intensidade em ciclones subtropicais e, principalmente, tropicais podem mudar muito em questão de horas, dependendo do ambiente oceânico (temperatura do mar) e divergência de vento (shear) na atmosfera.

Se o sistema superar o estágio de depressão e passar ao de tempestade, com vento médio sustentado acima de 60 km/h, receberia um nome. No caso, pela lista da Marinha, de Mani. 

Detalhe notável é que seria o primeiro ciclone anômalo (subtropical ou tropical) desde o começo da lista na costa brasileira em um mês de inverno. Todos os demais se deram majoritariamente no verão e no começo do outono (dezembro a abril), especialmente no período de transição entre as duas estações, quando as águas estão mais aquecidas. Exceção da tempestade Jaguar de maio de 2019 no litoral do Rio de Janeiro. 

Uma condição de bloqueio atmosférico que vai se instalar nesta semana vai ser um fator adicional favorável à formação desde ciclone, além da passagem da onda de convecção pelo Atlântico. 

A temperatura oceânica, entretanto, não é sugestiva de um grande aprofundamento deste sistema. Ciclones tropicais se intensificam muito com temperatura perto ou acima de 30°C das águas, o que não é o caso de agora. 

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