O Rio Grande do Sul tem mais de 40% de seus municípios com danos por chuva, vento, temporais e enchentes após uma semana de instabilidade com o mau tempo que se iniciou na última sexta-feira (17), mostra levantamento oficial da Defesa Civil.

Enchente na quarta-feira (22) em Encantado | GUSTAVO GHISLENI/AFP/METSUL
Em apenas sete dias, mais de 200 municípios registraram danos provocados pela combinação de chuva intensa, temporais e vento forte, um retrato da abrangência de um episódio que começou com vendavais localizados e terminou com enchentes, rios fora da calha, comunidades isoladas e estradas interrompidas em praticamente todas as regiões do estado.
Os registros mostram que o comportamento do evento mudou ao longo dos dias. Nos primeiros dias, os maiores prejuízos estavam concentrados nos temporais e no vento Norte, que soprou com rajadas perto e acima de 100 km/h por três dias seguidos, com destelhamentos de residências, quedas de árvores, postes e outros danos às redes elétricas.
À medida que as precipitações persistiram, porém, o excesso de chuva passou a dominar o cenário, provocando a rápida elevação dos rios e uma sucessão de inundações, enxurradas, deslizamentos e bloqueios de acessos, especialmente a partir da segunda-feira (20).
Os primeiros impactos foram provocados pelo vento. Em cidades como Alegrete, Arroio Grande, Bagé, Santa Maria, São Francisco de Assis, São Martinho da Serra, São Gabriel e Rio Grande, os temporais causaram destelhamentos em dezenas de residências, danos em prédios públicos, escolas e estabelecimentos comerciais. Em vários municípios, equipes das defesas civis precisaram distribuir lonas ainda durante a passagem dos temporais para reduzir os prejuízos provocados pela chuva que continuava caindo sobre as estruturas danificadas.
Na Região Metropolitana e nos vales do Sinos e do Paranhana, as rajadas também provocaram estragos. Araricá registrou danos relacionados exclusivamente ao vento, enquanto Campo Bom teve residências destelhadas e Novo Hamburgo contabilizou queda de árvores, bloqueios parciais de vias e, posteriormente, um movimento de massa. Em Taquara, duas casas e parte de um ginásio escolar foram atingidos, enquanto Vera Cruz registrou cerca de vinte residências destelhadas, árvores derrubadas e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
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Outros municípios também sofreram prejuízos provocados principalmente pelas rajadas. Giruá teve a cobertura de um galpão arrancada pelo vento e arremessada contra um poste da rede elétrica. Em Jaguarão houve danos na rede de distribuição de energia e interrupções no abastecimento para centenas de imóveis. Frederico Westphalen, Restinga Seca, Tenente Portela, Terra de Areia, Palmitinho, Vista Alegre, Santa Vitória do Palmar e Xangri-lá também registraram ocorrências relacionadas ao vento forte.
Na Fronteira Oeste, os temporais produziram danos tanto nas áreas urbanas quanto rurais. Em Uruguaiana, dezenas de residências sofreram destelhamentos e houve interrupções no fornecimento de energia elétrica após a queda de postes. Alegrete registrou prejuízos em diversos bairros e famílias precisaram deixar suas casas. Em Quaraí, uma estrutura em construção caiu sobre uma residência, enquanto em Barra do Quaraí um cabo de alta tensão interrompeu simultaneamente os serviços de energia, abastecimento de água e internet em praticamente todo o município.
Com o avanço da semana, entretanto, a chuva passou a produzir impactos muito superiores aos provocados pelos temporais. Os elevados acumulados fizeram rios, arroios e córregos transbordarem em diferentes bacias hidrográficas, alterando completamente o perfil das ocorrências. Os registros passaram a ser dominados por inundações, alagamentos, pontes interditadas, estradas destruídas e retirada preventiva de moradores.
Na Região Central, a força da água atingiu dezenas de municípios. Agudo enfrentou interrupções de acessos e o bloqueio do desvio da ERS-348 pela água sobre a pista. Ajuricaba registrou alagamentos e a interdição de uma ponte, enquanto Almirante Tamandaré do Sul teve diversas vias rurais bloqueadas pelo aumento dos rios. André da Rocha enfrentou o transbordamento de arroios que invadiram áreas residenciais, e municípios como Arroio do Tigre, Arroio dos Ratos, Candelária, Cerro Branco e Sobradinho contabilizaram danos em estradas, pontes, pontilhões e vias urbanas.
No Norte do estado, a situação também se agravou rapidamente. Casca, Caseiros, Ciríaco, Coxilha, Ernestina, Espumoso, Lagoa Vermelha, Marau, Mormaço, Nicolau Vergueiro, Nonoai, Nova Alvorada, Sertão, Vanini e Vila Maria registraram uma combinação de alagamentos, estradas destruídas, pontes comprometidas, bueiros rompidos e comunidades parcialmente isoladas. Em diversos municípios, o transporte escolar precisou ser suspenso porque as estradas do interior ficaram sem condições de tráfego.
Nas Missões e no Noroeste, a principal preocupação passou a ser a destruição da infraestrutura rural. Cândido Godói, Esperança do Sul, Independência, Inhacorá, Palmeira das Missões, Pejuçara, Redentora, Roque Gonzales, Salvador das Missões, Santo Augusto, São Pedro das Missões e Ubiretama registraram danos generalizados em estradas vicinais, pontes e pontilhões. Em muitas localidades, produtores rurais ficaram temporariamente sem acesso às propriedades devido ao bloqueio das vias.
Os Vales voltaram a concentrar parte das atenções com a elevação dos rios Taquari, Forqueta e Caí. Arroio do Meio iniciou a retirada preventiva de moradores da Barra da Forqueta, enquanto Encantado, Estrela, Muçum e Roca Sales registraram inundações em áreas ribeirinhas. Em Lajeado, cerca de 220 pessoas foram removidas preventivamente de áreas vulneráveis, e em Travesseiro a ponte baixa sobre o Rio Forqueta precisou ser interditada diante da rápida elevação das águas.
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O Vale do Caí também voltou a registrar ocorrências importantes. Feliz sofreu danos nas cabeceiras de uma ponte, Harmonia enfrentou bloqueios causados pela inundação do Rio Caí e São Sebastião do Caí iniciou a remoção preventiva de moradores para abrigos. Em Pareci Novo houve desmoronamentos e bloqueios de vias, enquanto Brochier registrou deslizamentos de terra após dias consecutivos de chuva intensa.
Na Fronteira Oeste, o foco passou a ser a cheia do Rio Uruguai. O aumento do nível do rio obrigou diversos municípios a retirar moradores das áreas ribeirinhas. Barra do Guarita contabilizou famílias desabrigadas, Garruchos realizou evacuações preventivas, Iraí retirou dezenas de famílias de áreas sujeitas à inundação e Porto Mauá, Porto Vera Cruz e Porto Xavier também iniciaram remoções diante da rápida elevação das águas. Em São Borja, moradores e comerciantes começaram a retirar móveis e bens das áreas mais baixas antes mesmo da chegada da inundação.
Os danos à infraestrutura viária estão entre os mais expressivos. Em praticamente todas as regiões do estado houve registros de pontes interditadas, cabeceiras destruídas, bueiros rompidos e estradas levadas pela força das enxurradas. Municípios como Putinga, Dois Lajeados, Campinas do Sul, São Sepé, Vale Real e Relvado registraram interrupções em travessias importantes, comprometendo o deslocamento entre comunidades e dificultando o atendimento às populações do interior.
A saturação do solo também elevou o risco de movimentos de massa. Cerro Branco, Passa Sete, Porto Alegre, Monte Belo do Sul, Novo Hamburgo, Ronda Alta, Três Forquilhas e Westfália registraram deslizamentos ou quedas de barreiras que exigiram o bloqueio de rodovias e o trabalho de máquinas para remover terra e rochas acumuladas sobre as pistas.
Além das moradias, os prejuízos atingiram escolas, hospitais, postos de saúde, prefeituras e outras estruturas públicas. Houve registros de hospitais alagados, escolas parcialmente destelhadas, unidades de saúde inundadas e suspensão de aulas em diversos municípios devido às condições das estradas ou aos danos nas edificações. Em várias localidades, o fornecimento de energia elétrica e de água também foi interrompido temporariamente.
O setor agropecuário igualmente sofreu impactos importantes. As enxurradas provocaram erosão em lavouras, destruíram acessos rurais, danificaram pontes utilizadas para o escoamento da produção e comprometeram a circulação em centenas de quilômetros de estradas municipais. Em muitas comunidades, moradores permaneceram isolados até que o nível da água baixasse ou os acessos fossem restabelecidos.
