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Oito mortos. Ruas que viraram rios. Bairros que se transformaram lagos. Carros que deram lugar a barcos. Botes que viraram transporte coletivo. Buenos Aires já viu muitas vezes chuva forte, mas muito raramente como ontem. A capital da Argentina e a Grande Buenos Aires foram atingidas por chuva avassaladora, sem precedentes em mais de um século no mês de abril. Os bairros mais atingidos foram Palermo, Belgrano e Nuñez, no Norte da capital. A chuva também afetou municípios na  Grande Buenos Aires como Tigre, Ituzaingó, Olivos e José León Suárez, provocando graves inundações. Em alguns pontos, a água chegou a até dois metros de altura. Cerca de 350 mil pessoas foram afetadas diretamente pela chuvara na capital argentina.


O temporal provocou danos em residências, cortes de energia elétrica, arrastou veículos, alterou os serviços ferroviários e derrubou árvores. Um trabalhador do Subte (metrô) morreu eletrocutado em uma estação inicial quando trabalhava com bombas de extração de água”. A inundação de ruas e casas atingiu com maior força os bairros da zona norte da cidade, onde tem crescido nos últimos 10 anos a construção de edifícios, sem ser compensada com obras de infraestrutura de macrodrenagem, segundo especialistas. Um agravante na cidade de Buenos Aires é que existem antigos cursos d’água, agora debaixo da terra, que obstruem um deságue normal para o Rio da Prata em caso de chuva intensa ou extrema como ontem.


Em algumas áreas, o corte de eletricidade foi mantido por medida preventiva, já que a água chegou a um metro de altura e arrastou carros pelas ruas. Moradores saíram às ruas ontem à noite com os tradicionais bumbos para protestar contra a falta de luz. Uma das linhas do metrô foi interrompida, e outras cinco apresentavam problemas na circulação dos trens no dia de ontem. Carros foram arrastados pela força da água e chegaram a ficar empilhados nas ruas. O prefeito de Buenos Aires Mauricio Macri, sob pesadas críticas, defendeu-se dizendo que a cidade foi vítima de chuva recorde e “desastre climático”.


A chuva que submergiu Buenos Aires foi em todos sentidos excepcional e histórica. O acumulado em 24h até 9h da manhã (hora em se apura o volume diário) de ontem foi de 159 mm em Ortuzar, estação climatológica da cidade usada na séria histórica do Serviço Meteorológico Nacional da Argentina (SMN). A maior parte caiu na madrugada com 110 mm em só duas horas. Foi o maior volume em 24 horas em abril na história climática da capital argentina que tem dados há mais de um século. O recorde prévio era de 142 mm de 8 de abril de 1989. Nos últimos 100 anos só há quatro casos em que choveu mais em 24h: 194,1 mm (27/02/1930), 188,4 mm (31/05/1985), 172,7 mm (24/01/1974) e 166,0 mm (05/05/1912). O evento de maio de 1985 foi dramático porque caíram mais de 300 mm na capital portenha em 48 horas. A chuva extrema ontem foi localizada. Se até 9h da terça (2) caíram 159 mm na estação do observatório central de Ortuzar, foram só 40 mm no Aeroparque e 15 mm em La Plata. Ezeiza teve 116 mm até 9h de ontem. Já até 9h de hoje (3) os volumes em 24 horas foram de mais 36 mm anotados no observatório central de Buenos Aires (195 mm em 48 horas) e 6 mm no Aeroparque. Em Ezeiza, onde está o aeroporto internacional, a precipitação em 24 horas até 9h de hoje foi 23 mm, totalizando 139 mm em 48 horas.


Se La Plata escapou do feroz temporal de chuva da madrugada de ontem na capital portenha, horas mais tarde seria golpeada pela maior chuva que se tem na memória na cidade. Entre o meio da tarde e o começo da noite choveu de forma avassaladora na cidade com registros em estações meteorológicas particulares de 300 mm a 400 mm, mas o dado oficial do aeroporto de La Plata indicou precipitação em 24 horas até 9h de hoje de 181 mm. O governador da província de Buenos Aires descreveu o quadro como uma “tragédia sem precedentes”. A água passou de dois metros em vários pontos da cidade e pessoas tiveram que se refugiar e permanecer por horas nos telhados e em árvores devido à rápida subida das águas. O governo de La Plata, capital da província de Buenos Aires, diz que é o maior desastre da história da cidade e que nunca antes se viu coisa igual.


As autoridades ainda não têm a exata noção das conseqüências da chuva em La Plata e dizem que o desfecho do temporal pode ser “trágico”. Até a manhã de hoje estava confirmada uma morte, mas políticos locais descreviam o cenário como desesperador e que o número de vítimas certamente iria aumentar. Há milhares de pessoas desalojadas em La Plata (estimativas variam de 3 mil a 5 mil). Forças militares e da Gendarmería da Argentina foram mobilizadas para auxiliar no resgate das pessoas ainda refugiadas em telhados. No momento da chuva intensa ontem à noite teve início um incêndio de grandes proporções numa planta da petroleira argentina YPF em Enseñada, junto a La Plata. As explosões podiam ser ouvidas a uma grande distância na área urbana de La Plata, o que agravou o cenário de pesadelo vivido pela comunidade local ontem.


A chuva extrema na província de Buenos Aires decorreu da presença na região de uma “baixa segregada” ou um vórtice ciclônico em níveis médios e altos da atmosfera com advecção de ar quente e abundante umidade de Norte. No outro lado do Rio da Prata, no Uruguai, a chuva também foi extrema com acumulados em 24 horas até 9h de hoje de 162 mm em Melilla e 126 mm no Prado, em Montevidéu. A maior parte deste volume se deu apenas na madrugada de hoje. A estação do Prado da capital uruguaia tem média histórica mensal em abril de 88 mm e a de Carrasco média no mês de 87 mm. Significa que em alguns pontos da região de Montevidéu choveu somente nas últimas horas duas vezes a média mensal histórica de abril. Cenário semelhante ao do ciclone subtropical que atingiu o Sul do Rio Grande do Sul no começo de 2009 com precipitação extrema em Pelotas e municípios próximos. Não raro estes sistemas de baixa segregada provocam episódios de chuva extrema localizada com graves danos. Trazem um elevado risco ainda de granizada isoladas, quando o vórtice está associado a ar mais frio em altura, e ainda nuvens funis e trombas d’água sobre lagoas e o oceano. (Com imagens da TN, C5N e agência Telam)

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