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Chegada do frio mais cedo neste ano e com recordes de temperatura baixa em março aguça a curiosidade se é um sinal de inverno rigoroso ou se pode haver uma repetição da grande nevada de julho de 2021 (foto) no Rio Grande do Sul e Santa Catarina | ANDRÉ FERNANDES/PREFEITURA MUNICIPAL DE CANELA

O mês de março e o começo de abril tiveram muito frio com inverno antecipado por alguns dias. O Rio Grande do Sul teve marcas históricas e até recordes de frio, o que se repetiu na Argentina. Com o frio se antecipando e chegando com força muito cedo, fica a pergunta: é um sinal de que o nosso inverno vai ser rigoroso em 2022 com poderosas massas de ar polar e frio muito constante?

Então, De acordo com dados do Oitavo Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia, a mínima do dia 31/3 em Quaraí de 2,5ºC foi a menor na cidade da fronteira com o Uruguai em março desde que começaram as medições na estação automática em 16 de outubro de 2007. O menor valor anterior no mês era de 5,3ºC em 28 de março de 2012. Ou seja, o recorde anterior foi quebrado por uma margem de 2,8ºC, o que é significativo.


A mínima na estação automática de Uruguaiana do Inmet de 5,1ºC, também no dia 31, foi a mais baixa em março na cidade da Fronteira Oeste desde que o equipamento passou a fazer registros há 15 anos. Foi a menor marca observada no município pelo Instituto Nacional de Meteorologia desde 1º de março de 1968, quando a estação convencional da cidade apontou 4,3ºC.

Em Bagé, a mínima do último dia do mês na estação automática de 3,9ºC foi a mais baixa desde que se iniciaram os registros pelo equipamento há uma década e meia. O valor ficou abaixo das menores marcas da estação convencional da série 1991-2020 de 7,1ºC (2013), da série 1961-1990 de 5,4ºC (1964) e da série 1931-1960 de 6,5ºC (1940). Há um registro de 5,7ºC no período 1912-1930 em 1916, portanto superior, o que faz da temperatura do dia 31 em Bagé a mais baixa já observada na cidade da Campanha em março em 110 anos de observações.


Outras estações meteorológicas do Rio Grande do Sul como de Caçapava do Sul, Alegrete, Livramento, Caçapava do Sul e Encruzilhada do Sul, dentre outras instaladas em municípios do Sul e do Sudoeste gaúcho, igualmente anotaram as suas menores marcas para o mês de março em décadas e que não tinham precedentes neste século.

Na Argentina, no último dia de março foram vários recordes de mínimas para o mês. Em Paso de los Libres, fronteira com Uruguai, na província de Corrientes, fez 5,5ºC que bateu o recorde de março de 5,8ºC em 28 de março de 1962. Em Chepes, La Rioja, a mínima de 31/3 de 1,8ºC foi inferior ao recorde prévio do mês de 4,0ºC em 28/3/2000. Em Catamarca, a mínima de 5,3ºC bateu o registro anterior de 5,8ºC de 27/3/1968.

Já em Santiago del Estero, a mínima do dia 31 de 2,7ºC foi igualmente recorde para março e bateu a menor marca no mês anterior de 4,5ºC de 28/3/1982. Em Villa María del Rio Seco, apenas 0,1ºC com a derrubada do recorde do mês de mínima de 0,3ºC em 30/3/1964. Em Rosario, Santa Fé, 1,2ºC contra o recorde prévio mensal de mínima de 2,4ºC em 30/3/1964. Em Concordia, Entre Ríos, a mínima do dia 31 de 3,2ºC superou o recorde prévio de março de 4,9ºC de 30/3/1964.

Agora, a pergunta que não quer calar: o frio que chegou mais cedo neste ano e intenso com quebra até de recordes é sinal de um rigoroso inverno mais tarde? Um evento pontual por si só não é um dos melhores preditores do clima meses adiante. Há muitos casos mundo afora de episódios muito intensos de frio ainda no começo do outono, mas que não se traduziram em um inverno rigoroso mais tarde.

Agora, às vezes a natureza dá sinais e como curiosidade vale a pena sim investigar as possíveis correlações históricas, especialmente no âmbito local. Como foram os invernos aqui no Estado nos anos de forte episódio de frio em março?

Nos últimos 60 anos, o episódio de frio do fim de março deste ano encontra paralelo em 1964, 1976, 1990, 2000 e 2012. Indo mais atrás na história, a menor temperatura em março em Porto Alegre durante a primeira metade do século passado (1909-1948) foi de 9ºC em 16 de março de 1916. Naquele ano, a estação fria foi rigorosíssima na Capital. Junho teve média de 10,2ºC com mínima absoluta na cidade de 0,5ºC e julho anotou média de 10,0ºC com mínima de 0,8ºC.

Em 1964, no geral, o inverno daquele ano foi muito frio com temperatura abaixo a muito abaixo da média em grande parte da América do Sul. Apesar disso, não foi um inverno em que a neve tenha se destacado no Sul do Brasil. O Instituto Nacional de Meteorologia registrou uma única ocorrência, em 17 de junho, no Planalto Sul Catarinense.

Os meses de junho, julho e agosto em 1964 apresentaram temperatura abaixo da média na maior parte do Centro-Sul do Brasil. Julho, em especial, chamou a atenção por ter sido um mês extremamente frio com marcas muito abaixo da média nos termômetros no que se pode definir como um inverno bastante rigoroso.

Em 1976, a história se repetiu, porém sem o rigor do inverno de 1964. Os três meses da estação apresentaram temperatura abaixo da média na maioria das áreas do Centro-Sul do país. Julho e agosto, em particular, tiveram grandes desvios negativos de temperatura com destaque para São Paulo, o Centro-Oeste e parte do Sul do Brasil. Novamente, não foi um inverno de neve abrangente e o maior evento ocorreu em 9 de julho com neve forte em São Joaquim.

Em 1990, mais uma vez o inverno foi muito frio. E, novamente, julho foi o mês mais marcante em termos de temperatura baixa com anomalias fortemente negativas. Foi muito mais frio do que o normal especialmente no Oeste da Região Sul, no Mato Grosso do Sul e em parte do Mato Grosso, indicando a atuação de ar polar de trajetória continental de grande intensidade. Foi um ano de muita neve com registros em maio, junho, julho, agosto e setembro. O fenômeno foi observado em muitas cidades e foi mais forte no mês de julho com temperatura abaixo de zero o dia todo em alguns municípios de maior altitude.

Em 2000, muitos têm na memória uma poderosa onda de frio em julho que trouxe mínimas excepcionalmente baixas no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste. Junho e agosto não chegaram a ter grandes desvios negativos de temperatura, mas julho foi extremo. Uma massa de ar polar de enorme potência foi reforçada logo em seguida por outra de forte intensidade, gerando um período por demais gelado no mês.

Nevou nos dias 11, 12 e 13 de julho, a última vez em que havia nevado por três dias seguidos no Sul do Brasil antes de 2021. A neve, contudo, não parou por aí. Após um breve período com tempo aberto que trouxe mínimas excepcionalmente baixas no amanhecer de 14 de julho de 2000, um reforço de ar polar voltou a provocar neve entre os dias 16 e 17. Em agosto, no dia 11, nevou no Nordeste do Rio Grande do Sul e no Planalto Sul de Santa Catarina. Mais tarde no mês, a neve voltou a cair misturada à chuva na cidade de São Joaquim no dia 29.

A surpresa, porém, estava reservada para o mês seguinte. No dia 25 de setembro, já em plena primavera, nevou em Bom Jesus, Cambará do Sul e em São Joaquim. A última neve de primavera tinha ocorrido no ano anterior, no dia 3 de outubro. Os anos de 1999 e 2000 foram influenciados por um intenso episódio do fenômeno La Niña e que favoreceu fortes ondas de frio e eventos de neve relevantes no Sul do país.

Em 2012, último ano em que o inverno chegou forte em março, diferentemente dos demais análogos, o inverno esteve longe de ser rigoroso. Julho foi frio, mas junho não teve grandes desvios de temperatura média mensal, embora tenha ocorrido uma onda de frio extremo, e agosto foi um mês absurdamente quente com anomalias de temperatura positivas mensais que jamais se tinha observado antes a ponto de metade dos dias do mês ter tido máximas na casa de 30ºC ou mais na Grande Porto Alegre.

No final da primeira semana de junho de 2012, uma massa de ar polar poderosa trouxe marcas abaixo de zero em quase todo o Rio Grande do Sul e até em Torres, no Litoral Norte. Campo Bom, na Grande Porto Alegre, teve então o seu recorde de mínima com -1,8ºC desde o começo das medições em 1984. Muitas cidades gaúchas registraram suas menores mínimas para junho em décadas e algumas desde 1916.

Considerando no cálculo todos os anos que tiveram frio mais forte cedo em março, a temperatura no inverno ficou abaixo a muito abaixo da média no Sul do Brasil com o mês mais frio sendo julho. As grandes anomalias negativas no Paraguai sugerem um padrão de forte incursões continentais de ar polar.

É importante enfatizar que este não é o prognóstico da MetSul Meteorologia para o inverno que levará em conta, quando da sua divulgação, outras variáveis além da analogia histórica. Trata-se de mero exercício de recuperação de precedentes históricos de frio cedo e sua correlação com os meses de inverno (junho, julho e agosto na climatologia).

Muitas vezes o passado oferece pistas sobre como vai se comportar o tempo no futuro a partir da observação de determinados padrões, de variáveis como La Niña ou El Niño a episódios de calor, chuva ou frio. O ano de 2012 é uma amostra de como a analogia não pode ser fonte única de um prognóstico climático de longo prazo, considerando as diferenças enormes para os demais precedentes de frio intenso cedo.

A analogia se torna ainda mais complexa se considerarmos que o aquecimento global acelerou depois de 1990 e principalmente na última década, o que tem reflexos no clima por estarmos em um planeta diferente de 1964, 1976 ou 1990. O que se pode antecipar é que a manutenção da La Niña pode trazer novos episódios de frio intenso mais cedo neste outono e, persistindo o fenômeno no inverno, poderá favorecer algumas incursões de ar gelado de grande intensidade.

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