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Fumaça das queimadas toma conta da floresta como se fosse nevoeiro na região de Lábrea, estado do Amazonas, na sexta-feira. A Amazônia brasileira registra seu pior começo de mês de setembro de fogo em muitos anos com números equivalentes ao pior período de queimadas entre 2002 e 2007. | DOUGLAS MAGNO/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Todo dia agora é “Dia do Fogo” na Amazônia que tem seu dia nesta segunda-feira, 5 de setembro. O número de queimadas no principal bioma do Brasil foi extraordinariamente alto nos primeiros três dias de setembro. Três dos últimos 15 dias tiveram números diários de focos de calor que superaram a marca de 3 mil, de acordo com os dados de monitoramento de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os dados mostram que no dia 1º a Amazônia registrou 2.076 focos de calor. No dia 2, na sexta-feira, 3.333. E, ontem, sábado, mais 3.331 focos de calor. Dias com mais de 3 mil focos são por demais raros na estatística histórica. Com isso, setembro já soma 8.740 focos de calor somente em três dias de dados. A média histórica (1998-2021) do mês inteiro no bioma é de 32.110 focos.


Só no último dia 22 de agosto foram 3.458 focos de calor captados por satélites na Amazônia.  Os 3.458 focos de calor representaram o maior número diário para agosto na Amazônia desde 2002, conforme a estatística do Inpe. Em 23 de agosto de 2002, os satélites captaram 3.548 focos de calor. No dia 25 de agosto de 2002, outras 3.300 queimadas foram identificadas.

Nenhum outro dia de agosto desde então tinha superado os 3 mil focos de calor, até o 22 de agosto. Nem no infame “Dia do Fogo”, em 10 de agosto de 2019, em que vários incêndios foram iniciados de forma proposital no Pará, o que acabou gerando investigação da Polícia Federal para identificar os responsáveis, concentrados na região de Novo Progresso.


Setembro começou com muito fogo na Amazônia, mostram os registros feitos por satélites. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), somente nos dois primeiros dias do mês os satélites registraram 5.409 focos de calor.

No Amazonas, os três primeiros dias de setembro tiveram 1.578 focos de calor. A média histórica do mês inteiro (1998-2021) é de 2.768 focos. Ou seja, em três dias já superou a metade da média histórica de setembro inteiro. No Acre, 1.384 focos nas primeiras 72 horas do mês, quando a média histórica mensal é de 3.224. Outro estado que já supera a metade da média do mês em apenas três dias.

No Pará, que tem média em setembro de 9.103 focos de calor, apenas os três primeiros dias do mês já anotaram 3.022 focos de calor, ou um terço da média mensal. E em Rondônia, 1.030 focos de calor, sendo que a média histórica de setembro inteiro é de 6.974 focos de calor.

“Realizamos um sobrevoo de monitoramento de queimadas e desmatamento na região onde convergem os estados do Amazonas, Acre e Rondônia (Amacro), e flagramos o maior desmatamento da Amazônia no último ano: cerca de 8 mil hectares, equivalente a 11 mil campos de futebol queimando. Participo desses monitoramentos há mais de dez anos, e nunca tinha visto um desmatamento tão grande e também com tanta fumaça”, relata Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Do total de focos de calor do ano registrados de 1º de janeiro a 31 de agosto no bioma de 46.022, houve um aumento de 16,7% em relação ao ano passado, maior número acumulado para o período desde 2019. Desse total, 43% ocorreram apenas em dez municípios da Amazônia, sendo cinco deles localizados na região da Amacro, considerada a nova fronteira de expansão da economia da destruição na Amazônia e que vem acelerando as taxas de desmatamento e queimadas.

Pior agosto de fogo na Amazônia desde 2010

Conforme dados do Inpe, agosto terminou com 33.116 focos de calor na Amazônia. A estatística desde 1998 mostra que se tratou do maior número de focos de calor em agosto desde 2010, quando os satélites captaram 45.018 focos de calor.

Agosto foi ainda o mês, considerando todos os meses do calendário, com mais registro de fogo no principal bioma do Brasil desde setembro de 2017. Naquele mês, a estatística histórica traz 36.569 focos de calor. Em agosto de 2017, o bioma registrou 21.344 focos de calor. É o quarto ano seguido com mais fogo na Amazônia em agosto do que a média.

Com os 33.116 focos registrados, agosto superou a média histórica (1998-2021) de 26.299 focos de calor no oitavo mês do ano. Os números de 2022 superam os de 2019, quando houve grande comoção mundial pelas queimadas na Amazônia. Em agosto de 2019, o bioma registrou 30.900 focos de calor. O agosto de muito fogo se deve em grande parte do que ocorreu na segunda metade do mês, quando o número de queimadas cresceu enormemente na região.

Já houve anos muito piores

Os piores anos de fogo na Amazônia em agosto se deram de 2002 a 2007. Em 2002, agosto terminou com 43.484 focos. Em 2003, 34.765. Já em 2004, 43.320. Em 2005, o recorde da série histórica do mês com 63.764. Em 2006, 34.208. E, por fim, 2007 com 46.385 focos de calor em agosto. Em 2011, o menor número em agosto com 8.002 focos.

Já em setembro, os piores anos de fogo também se deram entre os anos de 2002 e 2007. Em 2002, setembro terminou 48.549 focos de calor. Em 2003, 47.789. Já em 2004, o mês acabou com 71.522 focos de calor. Em 2005, 68.560. Em 2006, setembro teve 51.028 focos de calor. E em 2007, o pior setembro já visto, com 73.141 focos de calor.

Temporada de fogo

Os meses de agosto a outubro marcam o pico das queimadas a cada ano no bioma amazônico. Diferentemente de outros biomas, quase todos os episódios de fogo na região amazônica são iniciados propositalmente pela natureza tropical e úmida da floresta, diferentemente do Cerrado em que o fogo pode se iniciar sem intervenção humana.

Florestas, como da Europa e dos Estados Unidos, não são de natureza tropical e pela característica de vegetação, possuem maior combustibilidade, o que torna comparações com a Amazônia indevidas. A Europa registra a maior área queimada desde o começo das medições por satélite em meio a sucessivas ondas de calor e a pior seca em meio milênio.

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