A MetSul Meteorologia alerta que o Lago Guaíba enfrentará no decorrer dos próximos dias uma cheia de grande proporções e potencialmente histórica. Todas as condições hidrológicas e meteorológicas apontam para subida ainda mais significativa do nível do Guaíba que já está elevado.

Atlas Ambiental de Porto Alegre

Todos os rios que são contribuintes do Guaíba passam por cheias e a maioria deles com grande porte. O Jacuí, o principal contribuinte, está muito alto no Centro do Estado e já produziu inundações entre Restinga Seca e Agudo após precipitações de 150 mm a 200 mm em suas nascentes. O Taquari, que tem relevante impacto no Guaíba, enfrenta sua terceira maior cheia em um século, apenas atrás dos registrados na catastrófica enchente de maio de 1941 (29,92 metros no porto de Estrela) e de uma enorme cheia em abril de 1956 (28,86 metros). O rio alcançou seu pico no porto de Estrela de 27,55 metros no meio da madrugada de hoje.

Já os demais contribuintes do Guaíba também registram cheias. A do Caí é de grande proporção. O nível ficou perto de 15 metros, o maior em uma década, em São Sebastião do Caí e agora Montenegro sofre os efeitos da enchente, que atingirá na sequência Nova Santa Rita antes de as águas desembocarem no Guaíba. O Sinos também registra uma grande cheia, mas que ainda não se manifestou no vale pelo tempo que decorre para que a vazão das nascentes alcance Campo Bom, Novo Hamburgo e São Leopoldo, para que depois avance para Sapucaia do Sul, Esteio e Canoas antes de chegar no Guaíba. Por sua vez o Gravataí igualmente apresenta cheia depois de mais de 100 mm no Litoral, mas, assim, como no caso do Sinos, a vazão do episódio extremo de chuva ainda não alcançou a Grande Porto Alegre.

O nível do Guaíba às 18h de hoje já estava em 2,15 metros no Cais Mauá. A partir de 2,10 metros começam os primeiros alagamentos nas ilhas da Capital, no delta do Jacuí. O nível, contudo, ainda vai subir muito mais. E os motivos são vazão (hidrológico) e de condições do tempo (meteorológico).

Foram três episódios de chuva em uma semana. O primeiro, do ciclone bomba de 30 de junho e 1 de julho, de grande dimensão com volumes de 100 mm a 150 mm na Metade Norte. O segundo, da chuva do domingo (5/7) que foi de menor porte com 40 mm a 70 mm na Metade Norte. E, o terceiro, o do ciclone de 7 e 8 de julho, que foi de grande dimensão com volumes excepcionalmente altos de 200 mm a 250 mm em pontos da Metade Norte.

O nível do Guaíba está alto no momento pela vazão que chegou durante as últimas horas do ciclone da semana passada e por efeito do vento Sul, além da chuva volumosa que ocorreu no entorno da Capital. A terceira e principal “onda”, esta da chuva excepcional de ontem e anteontem, ainda está por chegar e isso vai determinar que o nível do Guaíba suba ainda mais e muito. É uma terceira “onda” e significativa que vai encontrar o lago de Porto Alegre com seu nível já alto e em cota de cheia.

Se não bastasse a crítica situação hidrológica, há agravantes meteorológicos. A região de Porto Alegre deve voltar a ter chuva no sábado e no domingo que deve ser moderada a forte em alguns momentos com acumulados altos, mas não extremos como anotados entre terça e quarta-feira.

A chuva que cai sobre Porto Alegre, a despeito de aumentar o nível do Guaíba, não tem um impacto tão significativo. Vento do quadrante Sul forte é o maior risco em situação de cheia e os modelos projetam forte massa de ar polar na primeira metade da semana que vem que coincidirá com o pico de cheia do Guaíba.

Como vento Sul tem potencial de aumentar o nível do Guaíba de 20 cm a 40 cm, em média, com base nas observações de anos da MetSul, um episódio de vento da direção Sul coincidindo justamente com o período de pico da cheia pode agravar sobremaneira a situação hidrológica e provocar marcas históricas.

O maior nível já observado no Guaíba foi em maio de 1941 na grande enchente com 4,76 metros, marca que obviamente não será alcançada agora. Na sequência, em 1967 o nível chegou a 3,13 metros. Há estudos apontando 2,83 metros, mas que não levamos em conta porque as águas alcançaram locais do Centro de Porto Alegre em que a cheia somente alcançaria com cotas acima de 3,00 metros como a Rua Júlio de Castilhos.

Em outubro de 2015, o Guaíba foi a 2,94 metros, a terceira pior cheia em um século. O ano era de Super El Niño e trouxe muitíssima chuva. No ano seguinte, em outubro de 2016, o Guaíba voltaria a ter uma cheia de grandes proporções com marca de 2,65 metros no dia 22. Em julho de 2015, o nível atingiu 2,56 metros no que era então a maior cheia desde a de 1984, quando o pico foi de 2,60 metros. Em 1965 e 1966, o Guaíba bateu nos mesmos 2,56 metros. Em 2002, alcançou 2,52 metros.

Os maiores níveis observados do Guaíba e documentados são, assim, os seguintes:

1.      4,76 metros (1941)

2.      3,13 metros (1967)

3.      2,97 metros (2015)

4.      2,65 metros (2016)

5.      2,60 metros (1984)

6.      2,56 metros (2015, 1965 e 1966)

7.      2,52 metros (2002)

O Guaíba não é um rio em que fazer previsão de nível máximo é mais facilitado. É o encontro de diversas bacias antes do escoamento para a Lagoa dos Patos. Ademais, tem no vento na parte Norte da Lagoa dos Patos, seja pela direção ou intensidade, variável determinante para o nível. Prever um nível máximo exato, assim, é muito difícil com grande antecedência. Com base nos cenários hidrológico e meteorológico, entretanto, é possível prever uma grande cheia e potencialmente histórica que pode figurar entre as maiores até hoje e rivalizando com as do Super El Niño de 2015/2016.

Sempre se questiona qual o nível de transbordamento no Cais Mauá. Trata-se de 3,00 metros. O nível da Avenida Mauá, depois do muro, é um pouco mais alto: 3,20 metros. O portão do sistema contra cheias da cidade no Cais Central somente foi fechado em duas oportunidades: na cheia de 1984 (capa) e na de outubro de 2015.

Andre Kruse/Arquivo Pessoal

Na da primavera de 2015, a segunda maior cheia desde 1941, a cota de transbordamento não foi atingida no Cais Central, mas as águas tomaram o piso dos cais porque as ondas geradas pelo vento e passagem de navios e lanchas fizeram com que a água alcançasse o pico do cais.

Arquivo MetSul

Mesmo que o nível não atinja a cota de 3,00 metros, a cidade de Porto Alegre pode ter problemas em suas área não insular pelo alto nível do Guaíba. Nas grandes enchentes de 2015 e 2016, a MetSul documentou como o nível alto faz com que haja um refluxo das águas pela rede pluvial com alagamentos em pontos próximos do lago. Houve episódios junto ao Tribunal de Justiça na Borges de Medeiros e, principalmente, na Voluntários da Pátria, na área da Rodoviária e em especial em travessas da Voluntários nas regiões das avenidas Polônia e Ernesto Fontoura, onde foram muitos alagamentos (fotos do arquivo da MetSul).

Na zona Norte da cidade, há dois riscos em caso de nível excessivamente alto do Guaíba e também as grandes cheias  de 2015 e 2016 comprovaram. Um, é o represamento das águas do Rio Gravataí com alagamentos no entrocamento da Avenida Assis Brasil com a Freeway (BR-290) na entrada de Cachoeirinha, e o outro é o represamento das águas do Arroio Feijó pelo nível alto do Gravataí represado pelo Guaíba com alagamentos no bairro Sarandi.