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A MetSul Meteorologia adverte para potencial situação de alto risco meteorológico no Rio Grande do Sul e Santa Catarina entre a terça (17) e a quarta-feira (18) por uma inusitada situação em que ciclone de trajetória e características atípicas avança do mar em direção ao continente com ameaça de vento muito forte com rajadas intensas por várias horas, oferecendo perigo de danos estruturais e transtornos em serviços públicos.

Existem muitas incertezas ainda quanto à evolução deste ciclone, mas o conjunto de dados já permite se antecipar a possibilidade de vento forte a intenso no Sul e no Leste do Rio Grande do Sul. Se as projeções menos agressivas dos modelos se confirmarem já é alta a probabilidade que venham a ocorrer alguns transtornos para a população. Nos piores cenários indicados pelos modelos, o risco de impactos é grave.


O cenário meteorológico projetado por modelos gerados por supercomputadores é bastante incomum e foge ao que normalmente se observa na atuação de ciclones nas latitudes médias da América do Sul. O comportamento do ciclone indicado pelas simulações computadorizadas é significativamente anômalo, seja pela trajetória que vai percorrer como pela intensidade que os dados apontam deve adquirir, sem mencionar a característica do sistema meteorológico que não é a tradicional da região.

Ciclones são comuns durante os meses de outono, inverno e primavera no Atlântico Sul pelo encontro de massas de ar quente e frio de diferentes pressões atmosféricos. Normalmente, os sistemas se formam na altura do Rio da Prata ou mais ao Sul do Atlântico, como na costa de Buenos Aires ou junto à Patagônia. São estes ciclones que impulsionam massas de ar frio com o conhecido vento “Minuano” no Rio Grande do Sul e que ao interagirem com o ar polar acabam em algumas vezes provocando neve.


Este ciclone também vai acompanhar uma massa de ar frio e impulsionará, pela sua formação e posicionamento mais ao Norte que o habitual, o ar frio pelo interior do continente com forte queda da temperatura em ao menos metade dos estados brasileiros, havendo a expectativa de mínimas muito baixas e formação de geada em muitos estados, notadamente do Sul, Centro-Oeste e do Sudeste do território brasileiro.

Ciclone de trajetória incomum e rara

O cenário meteorológico que se apresenta deve ser visto com grande preocupação pelos riscos envolvendo este ciclone. Um dos elementos atípicos deste sistema será a sua trajetória. Todos os principais modelos globais, usados pela Meteorologia no mundo inteiro, apontam o mesmo cenário em que uma baixa pressão retrógrada avança do mar para o continente, o que é por demais incomum.

Normalmente, os ciclones que se formam na costa do Sul do Brasil ou na altura do Uruguai ou do litoral de Buenos Aires avançam para Sudeste e o Leste, distanciando-se do continente. Este, ao contrário, no que é absolutamente incomum, vai observar uma trajetória oposta. Os dados indicam que vai se deslocar do mar para o continente.

O que os modelos projetam? A área de baixa pressão que cruza o Sul do Brasil com chuva neste fim de semana avançará para o oceano no domingo (15) e se distanciará rapidamente do continente, afastando-se cerca de quase mil quilômetros da costa gaúcha. Então, subitamente, a área de baixa pressão daria uma guinada a começaria a avançar de volta para o continente, observando uma trajetória retrógrada e se intensificando muito rapidamente como um ciclone.

Inicialmente, conforme as saídas dos modelos de ontem, o ciclone atingiria a costa do Uruguai, especialmente o departamento uruguaio de Rocha, e depois o Chuí e Santa Vitória do Palmar, no extremo Sul gaúcho, ingressando no continente ou margeando o litoral. Na sequência, o potente ciclone extratropical se deslocaria para Norte pelo Leste do Rio Grande do Sul, até atingir o Sul de Santa Catarina e depois retornar ao oceano.

Ocorre que nas rodadas do começo deste sábado, em cenário distinto do que sinalizavam na sexta, a maioria dos modelos numéricos indica uma passagem do sistema sobre o mar e a uma maior distância da costa, o que diminuiria muito o risco de vento muito intenso no continente, em cenário muito menos perigoso que o demonstrado na sexta.

Justamente um dos pontos de incerteza ainda sobre este sistema está na sua trajetória ao passar pelo Sul do Brasil. Dependendo do caminho que percorrer este sistema, os impactos podem ser menores ou graves. Há uma grande divergência ainda entre os modelos numéricos, o que faz do prognóstico por ora muito difícil e que vai exigir do público e das autoridades muita atenção às atualizações de prognóstico. Estas mudanças de trajetórias, que acrescentam elevado grau de incerteza às projeções, são comuns mesmo nos Estados Unidos em se tratando de ciclones, o que faz com que as rotas dos ciclones sejam a todo momento atualizadas e não raro com grandes mudanças.

Observe o quão diferentes são as projeções dos modelos globais com base nas rodadas da 0Z deste sábado. O modelo norte-americano GFS projeta o centro do ciclone todo o tempo sobre o mar, sem atingir o continente, e passando 200 a 300 quilômetros a da costa. A solução do modelo canadense é muito semelhante ao do norte-americano. O modelo Icon, da Alemanha, sinaliza o ciclone margeando o litoral gaúcho de Sul a Norte, sobre o oceano, mas muito perto da costa. O modelo europeu, por sua vez, indica que o ciclone ingressa no continente na altura do Chuí e depois rapidamente enfraquece.

Um mesmo modelo tem apresentado mudanças consideráveis de projeção entre uma saída e outra. Observe como a trajetória do ciclone projetada pelo modelo norte-americano GFS se alterou radicalmente entre as saídas das 12Z de sexta e da 0Z deste sábado. Numa, o ciclone ingressa no continente e seu centro chega à região de Santa Maria e na outra permanece todo o tempo sobre o oceano com seu centro a 300 ou 400 quilômetros a Leste da costa gaúcha.

Ciclones que desempenham trajetória retrógrada, como os modelos projetam para este sistema, são extremamente incomuns e pouquíssimas vezes visto. O episódio mais conhecido é de março de 2004, quando uma baixa segregada (cut-off low) se desprendeu de um sistema frontal e começou a avançar para o Sul do Brasil a partir do Atlântico, adquirindo características tropicais e se intensificando enormemente até atingir o status de furacão e tocar terra no Sul do estado de Santa Catarina. Tratou-se do furacão Catarina.

Outro sistema que apresentou uma trajetória retrógrada, também um ciclone tropical como o furacão de 2004, foi a tempestade tropical Anita, de março de 2010. À época, uma baixa pressão que se formou na costa do Sudeste avançou do mar para o continente em direção ao Litoral Norte do Rio Grande do Sul, mas ao se aproximar da costa subitamente passou a apresentar um movimento de Oeste para Leste sem chegar a tocar terra no continente. Por isso, os efeitos da tempestade Anita foram pequenos.

Ciclone muito mais intenso que o habitual em latitudes médias

Comumente se crê que a intensidade de um ciclone é baseada apenas na força do vento que provoca, mas um parâmetro internacionalmente utilizado para mensurar a força de um sistema ciclônico é a pressão atmosférica. Quanto mais baixa a pressão no centro da tempestade, maior será a sua intensidade.

À medida que esta área de baixa pressão se aproximar do continente, conforme os modelos de previsão por computador, a tendência é que ela se aprofunde muito como um sistema com características concêntricas e um gradiente de pressão atmosférica significativamente alto em torno do seu centro, o que favorece vento muito intenso.

Os modelos meteorológicos estão indicando pressão atmosférica mínima central de até 980 a 985 hPa para o ciclone quando ele estiver junto ao Leste do Rio Grande do Sul e o Sul catarinense. Para se ter ideia, considerando a escala da técnica de Dvorak, de estimativa de ciclones tropicais a partir de imagens de satélites, ciclones tropicais no Atlântico Norte com pressão em torno de 987 hPa são típicas de um furacão categoria 1 e de 975 a 980 hPa na categoria 2 na escala Saffir-Simpson de furacões. Na saída da 0Z de hoje, o modelo norte-americano GFS mostrava o ciclone a Leste do Rio Grande do Sul, sobre o Atlântico, com pressão de apenas 978 hPa.

Modelo norte-americano GFS indicava na saída da 0z deste sábado ciclone com 976 hPa a Leste do Rio Grande do Sul na quarta-feira | METSUL

Modelo europeu indicava na saída da 0z deste sábado ciclone com 995 hPa sobre o Chuí na quarta-feira | METSUL

Normalmente, ciclones que se formam na costa do Sul do Brasil – a esmagadora maioria com natureza extratropical – não apresentam valores de pressão atmosférica tão baixos quanto o pacote de modelagem numérica sinaliza para este evento. Valores de pressão de 970 hPa a 980 hPa costumam acompanhar ciclones muito intensos que se originam e se aprofundam mais ao Sul, na altura do Rio da Prata em poucos casos, e com maior frequência no litoral da Patagônia.

Sistema de natureza atípica não é furacão

Todo ciclone é uma área de baixa pressão e é o perfil vertical do centro de baixa pressão que vai definir o seu status: extratropical, tropical ou subtropical. O movimento do vento em seu centro e na periferia se dá no sentido horário no Hemisfério Sul. Os ciclones muito comuns que têm efeitos no Sul do Brasil são os extratropicais, que ocorrem em todas as estações climáticas, ao passo que sistemas subtropicais por serem atípicos são menos comuns e os tropicais ainda mais incomuns.

A característica definidora de um ciclone tropical é que ele deriva sua energia puramente da liberação de calor latente que acontece em tempestades quando o vapor de água se condensa em gotas de chuva sobre o oceano. Este é um processo diferente dos ciclones extratropicais que têm sua energia do encontro de massas de ar quentes e frias. Os sistemas subtropicais misturam estas duas fontes de energia, o que significa que não se encaixam em nenhuma das categorias. Os extratropicais possuem centro frio em todo o seu perfil vertical e nos tropicais a baixa pressão é quente de cima a baixo. Nos sistemas subtropicais, o centro é frio em altitude e quente em superfície.

No caso deste ciclone, os dados indicam características tipicamente subtropicais à medida que um ciclone extratropical faria uma transição para um sistema de centro quente em baixos níveis da atmosfera, o que lhe conferiria o status de um ciclone subtropical. Os diagramas de fase da Universidade da Flórida mostram o sistema adquirindo um centro quente em superfície, o que reforça a tendência de ser um fenômeno de natureza subtropical.

Assim, embora a tendência de ser intenso ciclone e apresentar uma trajetória retrógrada como a do Catarina de 2004, o sistema entre terça e quarta-feira não será um furacão que é sistema de natureza tropical com vento sustentado acima de 120 km/h.  Furacões, ademais, não se formam sobre águas mais frias e em meio a um período de frio mais intenso como vai se estar experimentando.

Uma vez que deve ser um ciclone subtropical, a tempestade deve receber um nome. Segundo Norma da Autoridade Marítima para Meteorologia Marítima (NORMAM-19), ciclones atípicos (subtropicais e tropicais) que se formam no mar territorial brasileiro são nomeados. Conforme a lista, o nome seria Yakecan ou “o som do céu” na língua tupi-garani. O último ciclone a ter sido nomeado na costa brasileira foi a tempestade subtropical Ubá, em dezembro de 2021.

A quanto pode chegar o vento

A intensidade do vento no Rio Grande do Sul e Santa Catarina neste ciclone vai depender totalmente da trajetória que o sistema percorrer. Quanto mais distante da costa, menor será o risco de vento muito intenso. O pior cenário definitivamente é o sistema avançar de Sul para Norte margeando o litoral, muito perto da costa, o que a maioria dos modelos indicava na sexta.

Se ingressar em terra o centro da tempestade, como alguns dados ontem e hoje chegaram a sugerir, vento muito forte ocorrerá no estado gaúcho, especialmente no Sul e no Leste do Estado, mas menos intenso que no cenário de o ciclone margear o território gaúcho, sobre o oceano, muito perto da costa. Isso porque, em se tratando de sistema subtropical, enfraqueceria rapidamente ao avançar sobre terra e perder a fonte de energia do calor latente das águas do Atlântico.

Modelos que indicavam o ciclone margeando a costa gaúcha indicavam ontem vento no litoral tão intenso quanto 120 km/h a 140 km/h ao passo que as projeções apontando o ingresso do sistema no continente sinalizavam 80 km/h a 100 km/h, em média. Uma vez que a trajetória deste sistema é uma questão ainda em aberto, também a velocidade do vento está cercada no momento de incertezas e não se tem um prognóstico definitivo.

Neste momento, com base no conjunto médio dos dados, com ciclone intenso permanecendo sobre o oceano e passando perto da costa, a melhor estimativa é a possibilidade vento forte a por vezes intenso com rajadas por várias horas seguidas e que no litoral gaúcho podem alcançar ou passar de 100 km/h.  Em Porto Alegre, entre 60 km/h e 80 km/h. Na Serra, em áreas mais perto do Litoral Norte, o vento igualmente poderia ficar perto ou passar de 100 km/h em vários pontos, como na região de Cambará do Sul e São José dos Ausentes. Na maior parte do interior gaúcho, o vento não seria muito intenso, apesar de rajadas fortes a muito fortes no Sul gaúcho.

Estas são velocidades de vento capazes de gerar transtornos e riscos para a população. Podem ocorrer quedas de árvores, postes, destelhamentos e colapsos de estruturas. O vento ainda pode afetar muito o serviço de energia elétrica, o que repercute também no abastecimento de água, cujas estações são dependentes do fornecimento de energia elétrica. A maior ou menor extensão dos possíveis impactos ficará mais clara à medida que ingressarem novos dados nas próximas 48 horas até a véspera da atuação do ciclone.

Enfatizamos, por fim, a necessidade de se acompanhar as atualizações que serão feitas deste boletim ao longo deste fim de semana e na segunda-feira antes a probabilidade de mudanças nas tendências em relação ao sistema. Mínimas mudanças de trajetória mais para Oeste ou Leste, aproximando ou distanciando o ciclone da costa, repercutirá nas projeções de vento e nos riscos meteorológicos.

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