Chuva de quase 500 mm inundou o Sul da Bahia | Defesa Civil

O Nordeste de Minas Gerais e o Sul da Bahia enfrentam desde a metade da semana situação de desastre por chuva excessiva a excepcional e que em alguns pontos se aproximou de 500 mm. No Sul baiano, aos menos 25 municípios decretaram situação de emergência. Cidades inteiras ficaram submersas, pontes caíram e estradas foram interrompidas por desmoronamentos. Foi tanta água que algumas comunidades ficaram isoladas e necessitaram resgates aéreos.

Em Minas Gerais, ao menos 31 municípios tinham decretado situação de emergência até sábado em consequência da chuva, a maioria no Vale do Jequitinhonha. Mais de dez mil pessoas tiveram de deixar suas casas no Nordeste e no Leste de Minas. Uma barragem se rompeu em razão do excesso de água. Doentes são transportados de helicóptero por suas comunidades estarem ilhadas. Algumas cidades enfrentam falta de água potável e são abastecidas por caminhões-pipa.

A chuva na Bahia entre quarta (8) e sábado (11) somou 486 em Itamaraju, 264 mm em Ilhéus, 248 mm em Porto Seguro, 217 mm em Guaratinga, 133 mm em Igrapiúna, 124 mm em Itabuna, 111 mm em Lajeadinho, e 110 mm em Belmonte. No mesmo período, em Minas Gerais, os volumes foram de 331 mm em Monte Formoso, 177 mm em Almenara, 142 mm em Padre Paraíso, 135 mm em Itaobim, 108 mm em Araçuai, e 104 mm em Montes Claros. Os dados são do Centro Nacional de Previsão de Desastres (Cemaden) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).


O que causou a chuva extrema no Nordeste de Minas Gerais e no Sul da Bahia nos últimos dias foi a combinação incomum entre um evento da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um corredor de umidade, e uma tempestade subtropical no Atlântico Sul. Normalmente, os episódios de ZCAS são desencadeados por frentes frias que estão associadas na maioria das vezes a um ciclone extratropical na costa da Argentina. Desta vez, a ZCAS se originou a partir do canal de umidade cujo gatilho foi um ciclone subtropical, portanto atípico e incomum na costa brasileira.

Zoom Earth

Observe na imagem de satélite como a faixa de nuvens sobre o Nordeste de Minas Gerais e o Sul da Bahia está ligada diretamente ao ciclone subtropical muito ao Sul da região. O fato de o sistema estar distante do Nordeste do Brasil não significa que deixe de ter efeito. Foi o ciclone que organizou o canal de umidade sobre a região que despejou uma enorme quantidade de chuva.

Inmet

As cartas sinóticas acima do Instituto Nacional de Meteorologia deixam evidente como o ciclone no Atlântico organizou inicialmente uma frente e na sequência um episódio de ZCAS que desencadeou a chuva extrema na Bahia e no Nordeste mineiro.


Um exemplo recente no mundo de canal de umidade gerado por sistemas meteorológicos a grande distância foi o rio atmosférico que trouxe chuva excessiva e inundações para o Oeste dos Estados Unidos. Normalmente, os rios atmosféricos que atingem a região começam a partir do Havaí, o que rendeu a expressão Pineapple Express ou Expresso do Abacaxi. Ocorre que no último grande evento de canal de umidade que atingiu a Califórnia o rio atmosférico tinha origem perto das Filipinas, no outro lado do Pacífico.

O ciclone subtropical começou a se formar na metade da semana na costa do Rio de Janeiro e no final da quarta adquiria características de depressão subtropical, que manteve durante a quinta-feira. Ao se deslocar para o Sul, o sistema se aprofundou e sua pressão atmosférica central caiu a valores abaixo de 1.000 hPa, convertendo-se em uma tempestade tropical. Como tempestades subtropicais ou tropicais são nomeadas em águas territoriais do Brasil, por serem atípicas, o sistema foi designado seguindo a lista de nomes da Marinha como tempestade subtropical Ubá.