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A chuva que atingiu o município fluminense de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, entre domingo à tarde e ontem foi absurda em alguns pontos e teve volumes que podem ser descritos como colossais. Houve locais de Petrópolis em que caíram “apenas” 100 mm, o que traria importantes transtornos para qualquer grande cidade como Porto Alegre ou São Paulo, mas em alguns pontos do município a chuva ficou perto de 500 mm em um intervalo de apenas 30 horas. Estação do Inea (Instituto Ambiental do Rio de Janeiro, em Quitandinha, em Petrópolis, indicou 459 mm em 24 horas até 15h ontem e seguia chovendo. Até o mesmo horário ontem, os acumulados em 24 horas foram de 408 mm em Coronel Veiga, 405 mm no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e 403 mm em Morin. Numa área de releve como a de Petrópolis, volumes tão extraordinários somente poderiam trazer deslizamentos de terra em encostas e inundações nas áreas baixas.



Os enormes extremos e a grande variabilidade da chuva no município da Região Serrana do Rio de Janeiro se explicam pelo relevo (orografia) de montanhas em que o ar úmido do mar avança para terra, encontra a barreira da Serra do Mar, resfria-se e se converte em dilúvio. Havia uma frente fria passando pela região e fluxo de ar frio do mar para o continente por conta de um centro de alta pressão oceânico associado a uma massa de ar frio que avançava do Sul para o Sudeste do Brasil e sobre o Oceano Atlântico, explicam os meteorologistas da MetSul Meteorologia. Isso produziu a chuva de natureza orográfica em que são registrados volumes de chuva não raro excepcionais e de mais difícil verificação em regiões planas e sem montanhas.

Para se ter ideia do que representam os 459 mm registrados em 24 horas numa estação de Petrópolis buscamos alguns números históricos como referenciais e que escancaram o caráter absurdo de volume tão alto em tão curto período. Os 459 mm anotados em 24 horas na estação de Quitandinha representam um terço da média de chuva do ano todo em Porto Alegre (1347 mm), na série 1961-1990, e também da medial anual de precipitação da estação do IAG-USP da cidade de São Paulo (1393,9 mm) na série 1933-2010. Equivalem ainda a 74% dos 619,4 mm registrados em Porto Alegre entre 10 de abril e 14 de maio de 1941, o que levou à grande enchente daquele ano. É mais que o maior registro de chuva feito (em mais de 24h) na passagem do furacão Katrina nos Estados Unidos de 414,7 mm em Perrine (Florida), em agosto de 2005. E equivale ainda a um quarto do recorde mundial de chuva em 24 horas de 1825 mm em Foc-Foc (2290 m de altitude), ma Ilha Reunião, no Oceano Índico, entre 7 e 8 de janeiro de 1966, durante o ciclone Denise.


O jornal Extra do Rio de Janeiro de hoje tem em sua capa a manchete: “Sirene alerta, mas não salva vida”. A premissa do título é falsa. Sirene não evita desastre natural, mas sim tem o poder de salvar vidas. O saldo oficial de mortos, no momento, na tragédia de Petrópolis é de 16 pessoas. Quantas mais poderiam ter morrido não houvesse sistema de alerta à população por sirenes integrado à rede local de monitoramento de rios e chuva na região ? A resposta é quase impossível, mas parece muito óbvio e lógico que se em uma situação de risco existe um canal de advertência público imediato, a possibilidade de mitigação de desastre é muito maior.

Devido à ameaça de ataque nuclear durante o período da Guerra Fria, os Estados Unidos instalaram sirenes de alerta em muitas cidades do país, até mesmo as de pequeno porte. Hoje, tais sirenes são um dos principais meios de alerta à população em caso de tornados e tempestades severas. Apesar das sirenes e de um sistema de advertência impensável no Brasil (rede de radares, storm chasers, centros de previsão de última geração, sistema de comunicação de emergência por rádio e televisão, etc), nada menos que 553 norte-americanos morreram vítimas de tornados em 2011 nos Estados Unidos, o segundo ano com mais fatalidades pelo fenômeno na história do país. Lá o problema é quando as sirenes não tocam, não o meio de advertência (leia). O grande debate em torno das sirenes nos Estados Unidos hoje é o critério para que sejam acionadas, que varia muito de cidade para cidade, umas usando o recurso apenas em casos de tornados, e outras em situações de forte tempestade como granizo ou vendaval. Sirenes salvam vidas, sim senhor !!! (Fotos de Tânia Rêgo da Agência Brasil)   

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