Expressão popular na língua inglesa diz: “if it looks like a duck, quacks like a duck and walks like a duck, it’s a duck“, ou “se parece um pato, grasna como um pato, e anda como um pato, é um pato”. Há exatos 10 anos, nesta data, em 26 de março de 2004, um ciclone atípico e de trajetória incomum formou um olho à medida que avançava do meio do oceano em direção ao litoral do Sul do Brasil. A evolução, simetria e características do sistema eram nitidamente de um furacão em formação e intensificação. Ciclones extratropicais eventualmente formam olho (warm seclusion), mas este sistema era segregado de um sistema frontal e sua natureza era tropical. Parecia, grasnava e andava como pato. Era um pato ! Mas como bancar o pato ?

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O drama. Como, responsavelmente, poderia se ir a público para anunciar um furacão se a literatura técnica dominante à época dizia não ser possível que se formasse um no Atlântico Sul ? Confrontados com algo que para nós era inédito e não tínhamos qualquer experiência de prognóstico, nossos técnicos da MetSul (então Rede de Climatologia Urbana de São Leopoldo) não caíram na tentação da soberba e buscaram o parecer dos maiores especialistas do mundo. Se não estávamos seguros, e o sentimento era até de medo pelo que se vislumbrava, telefonamos para quem sabe. Para os maiores experts do planeta. O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos. E a resposta que ouvimos foi enfática: “é sim um furacão”.


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Naquela tarde de 26 de março de 2004, de tensão singular, às 17h, cerca de 30 horas antes do furacão Catarina começar a trazer destruição no Sul de Santa Catarina e no Litoral Norte gaúcho, o meteorologista recém chegado à MetSul Luiz Fernando Nachtigall assinava nosso primeiro alerta de furacão (ver nota oficial acima publicada pelo governo gaúcho à época). Foi o maior desafio de previsão de sua carreira. Hoje, com a experiência do Catarina, muita coisa seria diferente em termos de linguagem de previsão e como seria gerenciada a informação ao público, afinal muitas lições foram colhidas do grave evento.