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Cidade de Nova York com paisagem marciana no dia 8 de junho de 2023 ao ser coberta por densa fumaça de incêndios florestais recordes no Canadá | JASHIM SALAM/NURPHOTO/AFP/METSUL METEOROLOGIA

O sistema climático europeu Copernicus anunciou ontem que 2023 foi o ano mais quente no planeta desde o começo da era observacional, confirmando o que toda a comunidade de clima já esperava. “A temperatura na Terra de 2023 provavelmente excede a de qualquer período ao menos nos últimos 100 mil anos”, disse Samantha Burgess, vice-diretora do Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas.

As temperaturas globais sem precedentes a partir de junho fizeram com que 2023 se tornasse o ano mais quente de que há registo, ultrapassando por uma larga margem 2016, o ano anterior mais quente. O ano teve uma temperatura média global de 14,98°C, 0,17°C superior ao valor anual mais elevado anterior em 2016. 2023 foi 0,60°C mais quente do que a média de 1991-2020 e 1,48°C mais quente do que o nível pré-industrial de 1850-1900.


O ano de 2023 marcou a primeira vez desde que houve registo que todos os dias num ano tiveram temperatura média global diária ultrapassando 1°C acima do nível pré-industrial de 1850-1900. Perto de 50% dos dias do ano foram mais de 1,5°C mais quentes do que o nível de 1850-1900, e dois dias em novembro foram, pela primeira vez, mais de 2°C mais quentes.

Cada mês, de junho a dezembro de 2023, foi mais quente do que o mês correspondente em qualquer ano anterior. Julho e agosto de 2023 foram os dois meses mais quentes já registrados na série histórica global. O verão boreal (junho-agosto) também foi a estação mais quente já registrada no mundo.


Setembro de 2023 foi o mês com um desvio de temperatura acima da média de 1991–2020 maior do que qualquer mês no conjunto de dados do modelo de reanálise ERA5. Dezembro de 2023 foi o dezembro mais quente já registrado a nível mundial, com uma temperatura média de 13,51°C, 0,85°C acima da média de 1991-2020 e 1,78°C acima do nível de 1850-1900 para o mês.

As temperaturas médias globais da superfície do mar permaneceram persistentemente e anormalmente altas, atingindo níveis recordes para a época do ano, de abril a dezembro, com o começo do El Niño declarado em junho.

Que 2023 figuraria entre os mais quentes anos da história já se sabia no final de 2022, mas o ritmo de aquecimento acelerado é que espantou e não foi previsto. Um ano quente era visto como inevitável pela combinação do aquecimento global e El Niño, mas foi mais quente do que as piores projeções.

Mas o que aconteceu para ser um ano tão quente e anormal no planeta? Parte da reposta é conhecida, mas não integralmente. “Nós não entendemos completamente o que ocorreu no ano passado”, disse Reto Knutti, professor de física climática na Suíça.

O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, já antecipava em previsões decenais que havia uma chance de 48% de a temperatura global exceder 1,5°C acima do nível pré-industrial em pelo menos um ano entre 2022 e 2026. Essa chance aumentou para 66% no período de 2023-2027 em um relatório atualizado publicado em 2023.

Previsões de dez centros de previsão climática indicavam no final de 2022 que havia uma probabilidade muito baixa de que a temperatura anual de 2023 fosse tão alta como foi. As temperaturas observadas nos últimos meses de 2023 não foram apenas recordes em relação à média de 1991-2020, mas também em relação à média climatológica ajustada para os dias atuais, considerando a taxa média de aumento de temperatura de cerca de 0,2°C/década registrada desde 1979.

A variação na temperatura anual de 2022 para 2023 foi maior do que qualquer mudança de um ano para o outro no registro de dados do modelo ERA5. 2023 foi também incomum pelo fato de sua temperatura recorde ter se dado no ano em que o El Niño estava se intensificando.

Normalmente, o maior aquecimento da Terra se dá no ano do seu declínio, pelo efeito retardado em três a quatro meses do pico de aquecimento dos oceanos na atmosfera. Além disso, o El Niño em 2023 foi mais fraco do que nas fases de intensificação dos eventos fortes de 1997-1998 e 2015-2016.

“Tudo isso mostra que as temperaturas recordes em 2023 não foram apenas devidas ao El Niño e ao aquecimento global. Uma atribuição abrangente para o ano como um todo ainda não está disponível, mas o aquecimento recorde da superfície do mar em todo o mundo, a baixa recorde da extensão do gelo marinho na Antártida e os extremos no tempo são fatores evidentes, mesmo que as contribuições relativas da variabilidade natural e das mudanças climáticas sejam menos óbvias”, destacou o Sistema Copernicus.

Também foram identificadas mudanças em fatores que são contribuintes climáticos menores: aumento do vapor d’água estratosférico devido à erupção em janeiro de 2022 do vulcão Hunga Tonga-Hunga Haʻapai, redução de aerossóis devido a menores emissões de dióxido de enxofre pelo transporte marítimo e a aproximação do ciclo solar atual do seu pico de onze anos.

Quais são as expectativas para 2024? Uma previsão recentemente divulgada para o ano sugere que poderá ser ainda mais quente do que 2023, com uma probabilidade razoável de que o ano civil termine com uma temperatura média superior a 1,5°C acima do nível pré-industrial, de acordo com vários conjuntos de dados. Isso, porém, não é um consenso. Alguns cientistas acreditam que a possibilidade de La Niña mais tarde em 2024 pode fazer o ano ser pouco menos quente que 2023.

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