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Uma enorme onda associada a um tsunami meteorológico atingiu praias da costa da província de Buenos Aires, na região de Mar del Plata, na tarde de segunda-feira (12), causando uma morte e deixando dezenas de feridos. O fenômeno surpreendeu turistas, moradores e equipes de resgate em um momento de grande movimento nas praias.

REPRODUÇÃO

Segundo as autoridades, uma pessoa morreu após ser arrastada pela força do mar e lançada contra rochas na orla de Santa Clara del Mar. Além disso, outra vítima sofreu um infarto durante o episódio e permanece internada. Pelo menos 35 pessoas tiveram ferimentos leves, principalmente escoriações e contusões provocadas pelo impacto da água e de objetos arrastados pela onda.

Relatos indicam que o mar recuou de forma repentina por alguns minutos antes de avançar violentamente sobre a faixa de areia, pegando banhistas de surpresa. Guarda-sóis, cadeiras e outros objetos foram levados pela água, enquanto guarda-vidas relataram dificuldades para atender simultaneamente os muitos pedidos de socorro.

No porto de Mar del Plata, medições registraram uma queda súbita de cerca de 45 centímetros no nível do mar, seguida por uma elevação próxima de 90 centímetros.

O fenômeno foi classificado como um meteotsunami, causado por rápidas mudanças atmosféricas associadas à passagem de uma frente fria, após um dia de calor intenso de quase 39ºC. Eventos semelhantes já foram registrados historicamente na região, como em 1954, quando ondas de grande intensidade avançaram inesperadamente sobre a costa.

Há risco de o tsunami meteorológico da Argentina atingir o litoral do Brasil? Não. Trata-se de um fenômeno de curta duração e localizado, tanto que foi muito rápido e afetou apenas algumas praias da costa atlântica da província de Buenos Aires, na região de Mar del Plata.

É diferente de um tsunami gerado por um movimento sísmico, um terremoto, em que as ondas geradas pelo abalo no leito do oceano podem viajar por longas distâncias. Em casos extremos, de terremotos violentos, o nível do mar pode subir em quase todo o mundo, inclusive na costa brasileira, como se viu nos terremotos de Sumatra na Indonésia (2004) e do Japão (2011).

Isso não significa que tsunamis meteorológicos não possam ocorrer no Brasil. Ocorre que os meteotsunamis são quase imprevisíveis porque dependem de uma combinação muito específica e de curta duração de fatores atmosféricos e oceanográficos, que nem sempre é bem captada pelos modelos de previsão do tempo.

O principal gatilho é uma variação rápida da pressão atmosférica, geralmente associada a frentes frias, linhas de instabilidade, tempestades intensas ou rajadas muito fortes de vento sobre o mar. Essas perturbações se deslocam rapidamente e, muitas vezes, têm escala espacial pequena, ocorrendo em minutos ou poucas dezenas de minutos.

Para que um meteotsunami se forme, a velocidade do distúrbio atmosférico precisa coincidir com a velocidade natural de propagação das ondas no mar, um processo conhecido como ressonância. Essa “sincronia” é difícil de antecipar, pois pequenas mudanças na intensidade do vento, na pressão ou na trajetória do sistema já impedem o fenômeno de se desenvolver.

Os registros de meteotsunamis no Brasil são escassos e, por muito tempo, esses eventos foram pouco compreendidos ou atribuídos genericamente a “ressacas” ou variações anômalas da maré. Os primeiros relatos compatíveis com meteotsunamis aparecem em registros históricos e jornais do século XX, especialmente no Sul e no Sudeste.

Levantamento da FURG mostra que entre 2009 e 2021, pelo menos, sete eventos foram registrados nos litorais Sul e Médio do Rio Grande do Sul e no litoral de Santa Catarina: Pântano do Sul (SC), em 2009; Cassino (RS), em 2014; trecho Araranguá – Rincão (SC), em 2016; Tavares e Mostardas (RS), em 2018; trecho Rincão – Camboriú (SC); em 2019; e, novamente, no Cassino (RS), em 2020 e 2021. Em praticamente todos, houve estragos em veículos que estavam sobre a areia e em habitações vizinhas à praia.

Os anos de 2022 a 2025 tiveram novos episódios de tsunami meteorológico na costa do Sul do Brasil, especialmente em Santa Catarina.

Em 11 de novembro de 2023, tsunami meteorológico atingiu a praia do Cardoso, em Laguna, litoral Sul de Santa Catarina, com quatro ondas de longa duração que arrastaram carros e surpreenderam frequentadores. Jaguaruna, também no litoral Sul catarinense, teve em 2 de dezembro de 2024 um tsunami meteorológico, com avanço súbito do mar e elevação de cerca de um metro no nível do mar em poucos minutos.

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