A tempestade Marta atinge Portugal neste sábado com chuva intensa, vento forte, mar muito agitado e neve nas regiões de maior altitude, agravando de forma significativa um cenário já crítico de cheias em várias partes do país. A nova depressão chega poucos dias depois das tempestades Kristin e Leonardo, que deixaram rios cheios, solos saturados e dezenas de localidades em situação de alerta máximo.

Imagem aérea da Ribeira de Santarém parcialmente submersa após o transbordamento do rio Tejo, na sequência da tempestade Leonardo, que provocou cheias significativas na região de Portugal | STRINGER/ANADOLU/AFP/METSUL
Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), treze distritos de Portugal continental estão sob aviso laranja, o segundo nível mais grave da escala meteorológica, devido à combinação de precipitação persistente, rajadas fortes de vento, agitação marítima severa e queda de neve. O risco hidrológico é elevado, sobretudo nas bacias do Tejo e do Sado, onde os níveis dos rios já estavam acima do normal antes mesmo da chegada de Marta.
A chuva começou a se intensificar nas primeiras horas da manhã, com acumulados elevados em curto intervalo de tempo, aumentando a probabilidade de transbordamentos, inundações urbanas e deslizamentos de terra. Em áreas ribeirinhas, a situação é acompanhada minuto a minuto pelas autoridades de proteção civil, diante da possibilidade de novas evacuações.
De acordo com o IPMA, os distritos de Leiria, Santarém, Lisboa, Setúbal, Beja, Portalegre e Évora estão sob aviso laranja devido à chuva persistente e por vezes forte, especialmente entre o início da manhã e o começo da tarde. Trata-se exatamente do período considerado mais crítico pelos meteorologistas, quando a depressão atua com maior intensidade.
Além da chuva, o vento representa um fator adicional de risco. Lisboa, Setúbal, Beja e Faro também estão sob aviso laranja para rajadas de sudoeste que podem alcançar 100 km/h, chegando a 120 km/h nas áreas de serra. A combinação de vento forte com solos encharcados aumenta o risco de queda de árvores, danos em estruturas e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
No litoral Norte, os distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto enfrentam forte agitação marítima. As ondas podem atingir entre 12 e 13 metros de altura máxima, criando condições extremamente perigosas para a navegação e para as zonas costeiras mais expostas.
Nas regiões montanhosas do Centro do país, Guarda e Castelo Branco estão sob aviso laranja devido à neve. A precipitação sólida pode ocorrer acima dos 1.600 metros de altitude, com acumulações superiores a 25 centímetros em áreas acima de 1.400 metros, o que pode provocar cortes de estradas, formação de gelo e isolamento temporário de localidades.
A depressão Marta entra em Portugal pelo sul da área metropolitana de Lisboa, contrariando previsões iniciais que indicavam uma entrada pela região Oeste. A confirmação foi feita pelo IPMA, que destacou a maior vulnerabilidade das áreas que já sofreram impactos severos nos últimos dias.
Cheias já históricas causam desastre e vão se agravar com Marta
A sucessão de tempestades provocou uma resposta hidrológica extrema em vários rios portugueses. O Tejo, o Sado, o Mondego e outros cursos d’água apresentam caudais elevados, alimentados tanto pela chuva persistente quanto pelas descargas controladas das barragens, necessárias para garantir a segurança das estruturas.

Morador observa uma rua inundada pela enchente em Alcácer do Sal, no Sul de Portugal, após a passagem da tempestade Leonardo que agravou as cheias extensas que já afetavam a região | PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/METSUL
Em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, o rio Sado transbordou e invadiu áreas urbanas, permanecendo dentro da cidade há vários dias. Cerca de 200 pessoas foram retiradas de suas casas por precaução, enquanto equipes da proteção civil monitoram a evolução do nível da água.
Ao longo do rio Tejo, a situação é considerada especialmente preocupante. Aldeias nos concelhos do Cartaxo e de Santarém enfrentam inundações extensas, com estradas submersas, campos agrícolas alagados e dezenas de moradores desalojados. Em algumas áreas, o acesso só é possível com embarcações.

Moradores e equipes de emergência atuam no resgate de pessoas e animais presos em suas casas após o transbordamento do rio Sado, na sequência da tempestade Leonardo, que provocou fortes cheias na região de Alcácer do Sal | ALEX JUAREZ/ANADOLU/AFP/METSUL

Enchente toma conta de vários pontos de Alcácer do Sal e cheia é considerada histórica na região | ALEX JUAREZ/ANADOLU/AFP/METSUL
As imagens de rios galgando margens, pontes submersas e populações deslocadas reacenderam o debate sobre as chamadas “cheias de 100 anos”, expressão usada para definir eventos estatisticamente raros. No entanto, especialistas ouvidos pela imprensa portuguesa alertam que é tecnicamente arriscado fazer essa classificação enquanto o evento ainda está em curso.
A definição de uma cheia como “centenária” exige análises hidrológicas detalhadas, baseadas em séries históricas longas e na avaliação completa do episódio. Embora o impacto já seja considerado histórico em várias regiões, os técnicos ressaltam que apenas estudos posteriores poderão determinar a real magnitude estatística do evento.
Manhã e início da tarde concentram maior risco neste sábado
O período entre a manhã e o início da tarde deste sábado é o mais preocupante. É quando a depressão Marta atua com maior organização e intensidade, concentrando volumes elevados de chuva em áreas que já estão saturadas.
Lisboa, Setúbal, Beja e Faro devem sentir os efeitos mais fortes da tempestade, sobretudo no litoral. A chuva intensa pode provocar rápidas subidas do nível da água em ribeiras e linhas de drenagem urbana, aumentando o risco de inundações repentinas.
Na região Centro, distritos como Leiria, Coimbra e Santarém, que já contabilizam grande parte dos prejuízos das tempestades anteriores, voltam a enfrentar uma situação delicada. A persistência da chuva dificulta o escoamento da água e prolonga o impacto das cheias.
Apesar da intensidade do vento ser menor do que a registrada durante a tempestade Kristin, quando rajadas extremas perto de 250 km/h chegaram a ser medida, as rajadas previstas agora, em torno de 100 km/h, ainda são suficientes para causar danos, especialmente em áreas fragilizadas. Isoladamente, o vento pode ser mais intenso.

Mapa com a projeção de chuva para sete dias na Península Ibérica mostra a tendência de chover muito no Norte de Portugal e na região do Porto | METSUL
As autoridades reforçam o apelo para que a população evite deslocamentos desnecessários, não atravesse zonas inundadas e respeite as interdições. Em Lisboa, a prefeitura anunciou o fechamento preventivo de diversos espaços públicos e áreas verdes, como medida de segurança.
A expectativa é de que, após o período mais crítico, a situação comece a melhorar gradualmente ao longo da tarde e da noite. Entre o fim de sábado e a manhã de domingo, deve ocorrer uma trégua, com redução significativa da chuva e do vento, embora ainda sejam possíveis episódios isolados.
Mesmo com a melhora prevista, o risco não desaparece imediatamente. Os rios devem continuar com níveis elevados por vários dias, e novas subidas não estão descartadas caso ocorram chuvas adicionais. A proteção civil mantém o estado de vigilância, ciente de que o impacto acumulado das sucessivas tempestades torna o país mais vulnerável a qualquer novo episódio de chuva intensa.
