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Fenômeno no Pacífico associado às correntes de vento previsto para os próximos dias deve acelerar a chegada do El Niño a aumentar a probabilidade de um episódio de El Niño muito forte a intenso, talvez um Super El Niño, mais tarde neste ano.

Mapa mostra Super El Niño de 2023-2024

Último Super El Niño ocorreu em 2023-2024 e teve enorme impacto no Sul do Brasil com grandes enchentes no Rio Grande do Sul | NASA/ARQUIVO

O que vai acontecer? Modelos numéricos projetam o que se denominada de Estouro de Vento de Oeste e com enorme intensidade no Pacífico Central, que meteorologistas dos Estados Unidos especialistas em El Niño descrevem como “notável” e “um dos mais fortes já vistos”.

O chamado estouro de vento de oeste, conhecido pela sigla WWB (do inglês Westerly Wind Burst), é um dos fenômenos atmosféricos mais importantes na dinâmica do Pacífico equatorial e pode ter papel decisivo na formação e intensificação de episódios de El Niño.

Esses eventos consistem em rajadas ou períodos de ventos anormalmente fortes soprando de Oeste para Leste na faixa tropical do oceano, rompendo o padrão habitual dos ventos alísios.

Em condições normais, os ventos alísios sopram de Leste para o Oeste ao longo do Pacífico equatorial, empurrando as águas quentes em direção à Ásia e mantendo águas mais frias na costa da América do Sul.

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Quando ocorre um evento de WWB, esse padrão se enfraquece ou até se inverte temporariamente. O resultado é um deslocamento significativo de águas quentes para o Centro e o Leste do Pacífico, criando as condições iniciais para o desenvolvimento do El Niño.

O impacto de um Estouro de Vento de Oeste vai além da superfície. Esses eventos geram ondas oceânicas conhecidas como ondas Kelvin, que se propagam rapidamente em direção à América do Sul, aprofundando a termoclina, a camada que separa águas quentes superficiais das águas frias mais profundas. Com a termoclina mais profunda, a ressurgência de águas frias diminui, favorecendo ainda mais o aquecimento da superfície do mar.

Quando ocorrem vários episódios de WWB em sequência, o efeito pode ser cumulativo e extremamente relevante. É justamente essa repetição que pode acelerar a transição de condições neutras para um El Niño e, em casos mais intensos, contribuir para eventos classificados como fortes ou até extremos. Grandes episódios históricos de El Niño, como os de 1982-83, 1997-98 e 2023-2024, tiveram relação direta com sucessivos Estouros de Vento de Oeste ao longo de sua evolução.

Além disso, os eventos costumam estar associados a áreas de intensa convecção tropical, muitas vezes ligadas à atividade da Oscilação Madden-Julian (OMJ), que organiza grandes regiões de tempestades nos trópicos. Essa interação entre atmosfera e oceano cria um efeito de retroalimentação: quanto mais o oceano aquece, mais favorece novos episódios de convecção e, consequentemente, novos estouros de vento de oeste.

Assim, o Estouro de Vento de Oeste funciona como um “gatilho atmosférico” capaz de acelerar processos que, de outra forma, ocorreriam de maneira mais lenta. Em anos em que os eventos são frequentes e intensos, o risco de El Niño forte cresce demais, o que se desenha ocorrerá agora em 2026.

El Niño pode começar ainda neste outono

O El Niño, na sua forma clássica ou canônica de efeito em todo o planeta, que é favorecido por estes episódios de Estouro de Vento de Oeste, deve se instalar entre o final deste outono e o começo do inverno, mas neste momento já atua na costa da América do Sul um El Niño Costeiro, que não é o clássico e tem impacto mais regional.

De acordo com o último boletim da NOAA, a agência de tempo e clima do governo dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 1+2 é de +1,6ºC.

Esta região mede a temperatura do mar nos litorais do Peru e do Equador, onde se produz o chamado El Niño Costeiro. Diferentemente da região Niño 3,4, que mede as águas do Pacífico Centro-Leste, onde ocorre o chamado clássico ou canônico, que ainda não começou.

A anomalia positiva de temperatura do mar nesta área mais a Leste do Pacífico Equatorial deu um salto de uma semana para a outra, entre a primeira e a segunda semanas de março, subindo de +0,9ºC para 1,5ºC. Agora, as águas aqueceram ainda mais com anomalia de +1,6ºC

Já a chamada região Niño 3.4, que é usada para designar se há El Niño ou La Niña na sua forma clássica no Pacífico Centro-Leste, está com anomalia atualmente de 0,0ºC, ou seja, neutralidade absoluta. Nas próximas semanas, no entanto, a tendência é de substancial aquecimento desta parte do Pacífico, o que vai levar à instalação de um episódio do denominado El Niño global ou canônico nos próximos meses.

Entenda o que ocorre no Pacífico

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, mas pode se manifestar de formas distintas. A principal diferença entre o El Niño clássico, também chamado de canônico, e o El Niño costeiro está onde ocorre o aquecimento das águas e nos impactos associados.

O El Niño clássico ocorre quando há um aquecimento persistente e de grande escala nas águas do Pacífico central e leste, ao longo da faixa equatorial. Esse aquecimento altera de forma significativa a circulação atmosférica tropical, enfraquece os ventos alísios e desloca áreas de chuva para regiões onde normalmente o tempo seria mais seco.

Trata-se de um fenômeno de alcance global, que pode durar vários meses e influenciar o clima em diferentes continentes. No Brasil, por exemplo, o padrão mais comum durante um El Niño clássico é o aumento da chuva no Sul e períodos mais secos em partes do Norte e do Nordeste, além de temperaturas médias mais elevadas.

Infográfico explica diferença de El Niño e La Niña

AFP

Já o Costeiro, que começa agora, é um evento mais restrito geograficamente. O aquecimento das águas se concentra principalmente junto à costa do Peru e do Equador, sem necessariamente envolver o Pacífico central de forma significativa. Por isso, seus efeitos atmosféricos tendem a ser mais regionais e menos abrangentes globalmente.

Então, de forma simples e para entender, enquanto o canônico é um fenômeno oceânico-atmosférico de grande escala com repercussões globais, o Costeiro é mais localizado, com efeitos concentrados na costa Oeste da América do Sul e menor influência sobre o clima mundial.