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A Rússia transformou o inverno mais frio dos últimos anos em uma arma silenciosa de guerra na Ucrânia. Ao atingir sistematicamente usinas, subestações e redes de distribuição de energia, os ataques passaram a congelar cidades inteiras, mergulhando milhões de pessoas na escuridão e no frio extremo.

Frio na guerra da Ucrãnia

DIEGO HERRERA CARCEDO/ANADOLU/AFP/METSUL

Em várias regiões do país, a temperatura despenca muito abaixo de zero enquanto prédios residenciais permanecem dias sem aquecimento. Dentro de casa, famílias vestem casacos, luvas e gorros como se estivessem na rua.

O frio deixou de ser apenas desconforto e passou a ser ameaça real à sobrevivência. Kiev, a capital ucraniana, simboliza esse cenário. Milhares de edifícios dependem de sistemas centralizados de calefação que foram interrompidos após bombardeios na infraestrutura elétrica.

Elevadores pararam, idosos ficaram isolados em andares altos e crianças passaram noites inteiras enroladas em cobertores improvisados. Hospitais enfrentam desafios dramáticos.

Geradores mantêm equipamentos vitais funcionando, mas nem sempre há combustível suficiente. Médicos relatam aumento de casos de hipotermia, agravamento de doenças cardíacas e respiratórias, além de pacientes que chegam exaustos após dias sem aquecimento adequado.

Dentro das residências na Ucrânia, a criatividade virou mecanismo de defesa. Tijolos aquecidos em fogões a gás são colocados sob cobertores para gerar calor. Barracas de camping são montadas dentro das salas para concentrar a temperatura corporal da família.

O cotidiano ganhou contornos de sobrevivência. Nas ruas, voluntários distribuem sopa quente, chá e roupas térmicas. Praças se transformaram em pontos de ajuda humanitária, onde pessoas carregam celulares, aquecem as mãos e buscam alguns minutos de conforto. Supermercados permitem até a entrada de animais de rua para escapar do gelo.

Frio na guerra da Ucrãnia

ROMAN PILIPEY/AFP/METSUL

Os chamados “trens da invencibilidade” viraram símbolo de resistência. Vagões estacionados funcionam como abrigos móveis com eletricidade, aquecimento e acesso à internet. Mães levam filhos para brincar, trabalhadores recarregam equipamentos e idosos descansam longe do frio intenso das casas.

A estratégia de atacar energia no inverno é vista por analistas como uma tentativa de desgaste psicológico coletivo. Não se trata apenas de destruir estruturas físicas, mas de atingir o moral da população ao privá-la de serviços básicos em um período de temperaturas extremas.

A Organização das Nações Unidas classificou os ataques contra infraestrutura civil como graves violações do direito humanitário. Especialistas alertam que interromper eletricidade em pleno inverno amplia riscos de morte indireta, principalmente entre idosos, doentes crônicos e crianças pequenas.

Além do impacto imediato, cresce a preocupação com instalações nucleares que dependem de fornecimento constante de energia para resfriamento e monitoramento de segurança. Qualquer falha prolongada pode gerar riscos técnicos sérios, ampliando o temor da população e da comunidade internacional. O temor é de uma nova Chernobyl.

Bairros inteiros passaram a compartilhar geradores coletivos, mas o combustível é caro e escasso. Restaurantes cozinham apenas o essencial e comerciantes operam no limite. A eletricidade virou um recurso valioso, administrado quase minuto a minuto quando retorna temporariamente.

Nas varandas congeladas, alimentos são armazenados como em geladeiras naturais. O exterior muitas vezes está tão frio quanto o interior dos apartamentos. Moradores relatam que cozinhar se tornou tarefa rara e que refeições quentes viraram luxo em dias de apagão prolongado.

Frio na guerra da Ucrãnia

MAXYM MARUSENKO/NURPHOTO/AFP/METSUL

MAXYM MARUSENKO/NURPHOTO/AFP/METSUL

Apesar de tudo, a solidariedade cresce. Vizinhos dividem cobertores, lanternas e fogões portáteis. Jovens ajudam idosos a subir escadas intermináveis sem elevador. Garagens e pátios se transformam em cozinhas comunitárias improvisadas, reforçando laços em meio à adversidade.

Mesmo diante do cenário duro, há momentos de humanidade. Pessoas se reúnem para cantar, jogar cartas ou simplesmente conversar em centros de aquecimento na capital da Ucrânia, Kiev. Pequenos gestos ajudam a manter a sanidade coletiva enquanto o inverno avança com noites longas e dias curtos.

Equipes de energia trabalham sob frio extremo para reparar cabos congelados e subestações danificadas. O gelo dificulta escavações e novos ataques atrasam os consertos. Técnicos atuam ao ar livre por horas, enfrentando temperaturas negativas e risco constante de novos bombardeios.

Quando a luz retorna, autoridades pedem consumo mínimo para evitar sobrecarga. Moradores da Ucrânia desligam aquecedores e priorizam carregar celulares ou aquecer água rapidamente. Cada minuto com eletricidade é aproveitado como se fosse raro e imprevisível.

Frio na guerra da Ucrãnia

MAXYM MARUSENKO/NURPHOTO/AFP/METSUL

A rotina diária foi completamente alterada. Banhos são rápidos ou inexistentes, estudos acontecem à luz de lanternas e o trabalho remoto depende de conexões instáveis. Atividades simples exigem planejamento e adaptação constante para lidar com o frio e os apagões.

Ainda assim, a resistência civil permanece visível na Ucrânia. Para muitos ucranianos, suportar o inverno tornou-se símbolo de perseverança nacional. O frio intenso, usado como ferramenta indireta de guerra, deixa marcas profundas físicas e emocionais em toda uma geração.

O impacto psicológico é comparável ao físico. Psicólogos relatam aumento de ansiedade, distúrbios do sono e crises de estresse entre adultos e crianças. O medo do escuro prolongado e das sirenes noturnas passa a integrar o cotidiano, criando uma sensação permanente de alerta.

A economia doméstica também sofre com o inverno em meio ao conflito. O custo do gás, da lenha e do combustível para geradores pesa no orçamento familiar. Muitas famílias precisam escolher entre aquecer a casa ou cozinhar, transformando decisões simples em dilemas diários.

Frio na guerra da Ucrãnia

DANYLO ANTONIUK/NURPHOTO/AFP/METSUL

SERGEI GAPON/AFP/METSUL

Escolas e universidades tentam manter aulas híbridas, mas a instabilidade elétrica prejudica a continuidade do ensino. Estudantes aproveitam qualquer período de energia para carregar computadores e enviar trabalhos, adaptando a educação à imprevisibilidade constante do fornecimento.

No campo, agricultores enfrentam dificuldades adicionais. A falta de eletricidade afeta armazenamento de alimentos, sistemas de irrigação e transporte de produção. O frio intenso provoca perdas e reduz colheitas, ampliando o risco de encarecimento de produtos básicos para a população urbana.

A logística de ajuda humanitária na Ucrânia torna-se mais complexa durante o inverno rigoroso. Estradas congeladas, neve acumulada e temperaturas extremas dificultam o transporte de mantimentos e medicamentos. Mesmo assim, comboios continuam chegando, sustentados por redes de apoio internacional e voluntários locais.

Centros comunitários, igrejas e ginásios esportivos passaram a funcionar como pontos permanentes de aquecimento. Além de calor e eletricidade, esses locais oferecem orientação e apoio emocional. Tornaram-se refúgios coletivos onde moradores encontram não apenas abrigo, mas também escuta e solidariedade.

Especialistas em energia alertam que os danos à infraestrutura não são rapidamente reversíveis. Reparos exigem equipamentos específicos, peças importadas e mão de obra qualificada. Cada nova interrupção prolonga o processo de recuperação e amplia o impacto social e econômico do inverno.

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