Por que um El Niño hoje é mais perigoso que décadas atrás? A resposta é simples: o clima do nosso planeta mudou. Um evento de El Niño hoje ocorre em um planeta muito diferente daquele de 30 ou 40 anos atrás. A principal mudança está no aquecimento global: a atmosfera e os oceanos estão mais quentes, o que amplia o potencial de extremos.
Na prática, isso significa que os impactos típicos do El Niño, como chuvas intensas no Sul do Brasil, podem ser mais severos do que no passado. Basta ver o que ocorreu entre 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul.
Foram vários eventos de El Niño intensos entre 1940 e 2025, mas nenhum causou tantas enchentes como o de 20230-24. Tome-se o caso de Porto Alegre. O Guaíba superou os 3 metros (cota de transbordamento no Cais Central de Porto Alegre) em maio de 1941 com 4,76 metros; voltou a superar os 3 metros depois apenas em setembro de 1967 (26 anos depois); excederia os 3 metros novamente tão-somente em setembro de 2023 (46 anos depois); em novembro de 2023 (50 dias após); e em maio de 2024 com 5,15 metros (a maior cheia da história e tão-somente meio ano após a última que superou 3 metros).
Dados de instituições como o Copernicus Climate Change Service, o Berkeley Earth, a NOAA e a NASA mostram com clareza essa transformação no clima. Os anos de 2023 e 2024 foram os mais quentes já registrados no planeta. E não por coincidência, esse período ocorreu sob influência de um episódio de El Niño, que adicionou calor extra à atmosfera global.
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, especialmente na sua porção central e leste. Esse aquecimento altera a circulação de ventos e desloca áreas de chuva pelo planeta.
No Sul do Brasil, historicamente, o fenômeno está associado a períodos mais chuvosos e maior frequência de temporais. O que mudou nas últimas décadas é o “pano de fundo” do clima. Os oceanos estão mais quentes e acumulam energia ao longo do tempo.
Quando um El Niño se forma, ele passa a atuar sobre esse cenário já aquecido. É como se o fenômeno começasse com mais combustível disponível, potencializando seus efeitos. Em outras palavras, a atmosfera mais quente com oceanos mais aquecidos que no passado acaba por “turbinar” os efeitos do El Niño.
Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor d’água. Esse comportamento é descrito pela equação na Física de Clausius-Clapeyron, um princípio que mostra que o ar quente tem maior capacidade de armazenar umidade.
Em termos simples, o ar funciona como uma esponja: quanto mais quente, mais água consegue “segurar”. Isso é fundamental para entender por que as chuvas podem ser mais intensas hoje.
Com mais vapor disponível na atmosfera, as nuvens têm maior capacidade de produzir precipitações volumosas em curtos períodos. O resultado é um aumento significativo do risco de eventos extremos. Tempestades podem descarregar volumes muito maiores de chuva, elevando o perigo de enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. E quando esses episódios se repetem ou persistem por vários dias, os impactos se tornam ainda mais graves.
Esse cenário ficou evidente no recente desastre no Rio Grande do Sul, o maior da história do estado. Durante o episódio, uma combinação de El Niño, atmosfera aquecida e sistemas de chuva persistentes levou a acumulados excepcionais.
Eventos assim ajudam a entender como o mesmo fenômeno climático pode ter consequências diferentes em um planeta mais quente. Décadas atrás, um El Niño também traria chuva acima da média. Hoje, porém, a intensidade dessas precipitações pode ser muito maior.
Outro fator importante é a temperatura dos oceanos. Medições recentes indicam que a superfície dos mares atingiu níveis recordes em diversas regiões do mundo. Esse calor adicional favorece a evaporação, ou seja, mais água passa do oceano para a atmosfera, alimentando sistemas de chuva.

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar em 1/4/1997 antes do Super El Niño de 1997-1998 | NOAA

Mapa de anomalia de temperatura da superfície do mar em 1/4/2026 mostra oceanos muito mais quentes que em 1997 | NOAA
A NOAA e a NASA destacam que o aquecimento dos oceanos tem sido contínuo nas últimas décadas. Já o Copernicus Climate Change Service aponta que vários meses recentes bateram recordes globais de temperatura da superfície do mar. Com mais calor e mais umidade disponíveis, os sistemas meteorológicos se tornam mais intensos. Isso pode se traduzir em chuvas mais fortes, tempestades mais organizadas e episódios prolongados de instabilidade.
Mas, atenção, o El Niño não é causado pelas mudanças climáticas. Ele é um fenômeno natural, que sempre existiu. Por milhões de anos. O que mudou foi o ambiente em que ele ocorre. Em um planeta mais quente, seus efeitos tendem a ser amplificados.
Em síntese, o mundo em que o El Niño impacta o clima hoje não é o mesmo de décadas atrás. O fenômeno atua numa atmosfera mais quente e oceanos mais aquecidos, o que aumenta significativamente o potencial de extremos, como de chuva, seca e calor.