O Oceano Pacífico Equatorial atinge pela primeira vez neste ano anomalia de temperatura da superfície do mar em patamar de El Niño, exatamente no limite entre as faixas de neutralidade e de fase quente do oceano, mostram dados da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) divulgados nesta segunda-feira (20).

NASA
Hoje, de acordo com o boletim semanal da NOAA, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central-Leste (região Niño 3.4) está em +0,5ºC. Esta é a região oficialmente designada para avaliar se há La Niña, neutralidade ou El Niño.
O valor de +0,5ºC está no mínimo do patamar de El Niño (+0,5ºC ou superior) e no limite da faixa de neutralidade de neutralidade (-0,4ºC a +0,4ºC). É a primeira vez neste ano que a anomalia de temperatura da superfície do mar nesta parte do Pacifico Equatorial alcança +0,5ºC que é o valor mínimo para designação de El Niño.
É a primeira vez que esta zona do Pacífico Equatorial alcança anomalia de El Niño, ou seja, ao menos +0,5ºC, desde a semana de 1º de maio de 2024, momento em que o Rio Grande do Sul sofria o desastre das enchentes por efeito do superaquecimento do Pacífico nos meses anteriores.
No evento de El Niño de 2023-2024, o pico de anomalia no Pacífico Equatorial Central-Leste chegou a +2,1ºC, na semana de 22 de novembro de 2023. No episódio de 2015-2016, o máximo foi uma anomalia de +3,0ºC, na semana de 18 de novembro de 2015.
Já no evento de 1997-1998, o pico de anomalia na chamada região Niño 3.4 foi de 2,3ºC, na semana de 17 de dezembro de 1997. No episódio de 1982-1983, a maior anomalia semanal no Pacífico Central foi de 2,6ºC, na semana de 29 de dezembro de 1982.
Significa que o El Niño começou?
O fato de o Pacifico Equatorial ter atingido anomalia de El Niño pela primeira vez neste ano decorre da chegada de águas mais quentes que avançaram das profundezas para a superfície, transportadas de Oeste para Leste pelo que se denomina de uma Onda Kelvin. Como há muita água quente ainda abaixo da superfície, a tendência é de o Pacífico Equatorial Central esquentar ainda mais na superfície nas próximas semanas.
A primeira anomalia positiva em patamar de fase quente, entretanto, não significa que um evento do fenômeno El Niño tenha começado. A MetSul Meteorologia enfatiza que para que um evento de El Niño seja declarado são necessárias várias semanas em que a anomalia da temperatura do Pacífico Centro-Leste apresente valores de +0,5ºC ou superiores.
No momento, só se tem uma até agora, ou seja, não há El Niño ainda em sua forma clássica atuando no Pacifico. A tendência é de que o fenômeno esteja plenamente configurado, com acoplamento entre oceano e atmosfera, no final deste outono e no começo do inverno, possivelmente em meados de maio ou no mais tardar em junho.
Entenda o fenômeno
Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.
El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.
Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.
A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.
Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.
