Um forte terremoto de magnitude 7,5 atingiu o Norte da Venezuela na noite de quarta-feira (24), provocando grande destruição e um número ainda desconhecido de vítimas com muitas pessoas sob escombros de prédios e casas que desabaram.

MANAURE QUINTERO/AFP/METSUL
O abalo ocorreu a Oeste de Caracas e foi sentido em uma ampla área do país, além de regiões vizinhas do Caribe e do Norte da América do Sul, inclusive no Brasil. O terremoto aconteceu apenas 39 segundos depois de outro forte sismo, de magnitude 7,2, formando uma rara sequência conhecida como “sismo duplo”.
Esse tipo de evento ocorre quando dois terremotos de grande intensidade acontecem praticamente no mesmo local e em um intervalo muito curto de tempo, indicando um processo de ruptura extremamente complexo.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o terremoto de magnitude 7,5 foi o principal evento da sequência. A agência classificou a situação como potencialmente muito grave e avaliou que há alta probabilidade de vítimas fatais e danos estruturais significativos em uma área extensa.
A estimativa preliminar do USGS aponta que o desastre poderá ter consequências severas devido à intensidade do tremor, à profundidade rasa e à proximidade de áreas densamente povoadas.
O terremoto ocorreu a apenas 10 quilômetros de profundidade, característica que aumenta significativamente o potencial destrutivo. Tremores rasos costumam produzir vibrações muito mais intensas na superfície do que sismos profundos de magnitude semelhante.
O epicentro foi localizado no Norte da Venezuela, próximo ao litoral caribenho, em uma região marcada por intensa atividade tectônica. A energia liberada foi suficiente para ser percebida em diferentes estados venezuelanos e também em países vizinhos.
Moradores relataram momentos de desespero durante os abalos. Muitas pessoas deixaram edifícios às pressas, enquanto outras buscaram áreas abertas por medo de desabamentos. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram objetos caindo, prédios balançando e pessoas correndo pelas ruas.
Após o terremoto principal, novos tremores continuaram sendo registrados. O USGS alerta que réplicas poderão persistir por dias ou até semanas, algumas delas suficientemente fortes para provocar novos danos em estruturas já comprometidas com colapsos parciais ou totais de prédios previamente danificados.
Do ponto de vista geológico, o terremoto ocorreu na complexa fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul. Nessa região, a placa do Caribe desloca-se para leste em relação à placa sul-americana a uma velocidade aproximada de 20 milímetros por ano.
Grande parte desse movimento é absorvida por um extenso sistema de falhas transcorrentes que atravessa o Norte venezuelano. O mecanismo focal do terremoto indica um deslocamento horizontal compatível com o sistema de falhas de San Sebastián.
A Falha de San Sebastián acompanha boa parte da costa Norte da Venezuela e constitui uma das estruturas tectônicas mais importantes do país. Ela é responsável por grande parte da deformação entre as duas placas e já produziu diversos terremotos destrutivos ao longo da história.
O mecanismo identificado pelos sismólogos corresponde a uma ruptura lateral direita, também chamada de falha transcorrente dextral. Nesse tipo de terremoto, os blocos rochosos deslizam horizontalmente um em relação ao outro, liberando enormes quantidades de energia.
Embora os terremotos sejam representados como pontos nos mapas, a ruptura real ocorre ao longo de uma extensa área da crosta terrestre. Para um evento dessa magnitude, estima-se que a falha tenha rompido uma região de aproximadamente 150 quilômetros de comprimento por 20 quilômetros de largura.
O fato de o terremoto de magnitude 7,5 ter ocorrido apenas 39 segundos depois do sismo de magnitude 7,2 desperta especial interesse entre os sismólogos. Sequências desse tipo são relativamente raras e sugerem que uma ruptura inicial desencadeou rapidamente outra ainda maior.
Essa interação entre segmentos de falhas pode ocorrer quando o primeiro terremoto altera rapidamente o campo de tensões na crosta terrestre, favorecendo a ruptura de um trecho vizinho que já se encontrava próximo do limite de resistência.
O Norte da Venezuela possui um longo histórico de terremotos destrutivos. Apesar disso, grandes eventos acima de magnitude 6 não são frequentes na área imediatamente próxima ao epicentro registrado nesta quarta-feira.
Nos últimos cem anos, apenas sete terremotos de magnitude igual ou superior a 6 ocorreram em um raio de aproximadamente 250 quilômetros do local deste evento, mostrando que grandes sismos são relativamente raros, embora façam parte da realidade tectônica regional. Desde o início do século XX, pelo menos cinco terremotos com magnitude igual ou superior a 7 atingiram o Norte da Venezuela ou áreas próximas da costa caribenha.
Em setembro de 2025, uma sequência sísmica formada por terremotos de magnitudes 6,2 e 6,3 atingiu uma área situada a Oeste-Sudoeste do terremoto atual. Na ocasião, houve pelo menos uma morte, mais de 110 feridos e extensos danos estruturais.
Outro terremoto importante ocorreu em setembro de 2009, quando um sismo de magnitude 6,4 deixou dezenas de feridos e provocou danos em edifícios próximos de Morón. Em 1989, um terremoto de magnitude 6,0 causou danos leves na região de Valencia. Já em 1975, outro sismo de magnitude 6,1 atingiu uma área mais a Oeste.
O episódio mais devastador da história recente venezuelana continua sendo o terremoto de Caracas de julho de 1967. Com magnitude 6,6, o tremor provocou cerca de 240 mortes, centenas de feridos, o colapso de edifícios residenciais e destruição generalizada.
