Em um janeiro de 2026 marcado por recordes históricos de temperatura, o Rio Hudson na cidade de Nova York voltou a oferecer um espetáculo que remete ao passado distante dos invernos mais rigorosos: a formação de extensas placas de gelo que cortam as águas entre Manhattan e Nova Jersey.

LOKMAN VURAL ELIBOL/ANADOLU/AFP/METSUL
O fenômeno, proporcionado por uma massa de ar ártico congelante persistente, transformou o estuário em um mosaico de gelo flutuante, exigindo que a Guarda Costeira dos EUA intensificasse o monitoramento.
O Hudson é um braço de mar sujeito a marés, o que faz com que o gelo se apresente como enormes “panquecas” e blocos irregulares que colidem silenciosamente sob as balsas da cidade.
O rio Hudson deixou de congelar de forma contínua a ponto de permitir a travessia a pé entre Manhattan e Nova Jersey principalmente por causa da ação humana. Embora ainda ocorram períodos de frio intenso suficientes para formar gelo em partes do estuário do Hudson, a navegação comercial passou a exigir a manutenção de canais abertos. Para isso, embarcações quebra-gelo atuam regularmente no rio, impedindo que a superfície congele de maneira extensa e duradoura.
Segundo o meteorologista Sam Perugina, da Universidade Estadual da Pensilvânia, há registros recentes de invernos rigorosos em que, sem interferência, o Hudson poderia ter congelado totalmente.
Em janeiro de 1970, a temperatura média no Central Park foi de cerca de −3,8 °C; em janeiro de 1977, a média caiu para aproximadamente −5,5 °C. Fevereiro de 1979 teve média em torno de −3,6 °C, enquanto janeiro de 1994 registrou cerca de −3,6 °C, valores suficientemente baixos para favorecer a formação de gelo no rio todo.
O climatologista Jerome Thaler, do Hudson Valley Weather Service, lembra que o Hudson congelou várias vezes ao longo da história registrada, especialmente antes do início das operações sistemáticas de quebra-gelo.
Naquele período, sem a necessidade de manter rotas de navegação ativas durante o inverno, o gelo podia se formar de modo natural e persistente. Hoje, a combinação entre uso econômico do rio e intervenções constantes torna esse tipo de congelamento amplo cada vez mais raro.

SPENCER PLATT/GETTY IMAGES/AFP/METSUL

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Segundo a Beacon Historical Society, em fevereiro de 1934, cerca de 500 pessoas cruzaram o rio entre Beacon e Newburgh. No entanto, o evento mais notável ocorreu no inverno de 1917-1918, quando uma “ponte de gelo” entre Tarrytown e Nyack sustentou o tráfego de carros e pedestres por 43 dias.
Na época, voluntários em Nova York organizavam faixas exclusivas para veículos, que faziam o trajeto rapidamente, enquanto pedestres levavam cerca de uma hora. Apesar da praticidade, a prática envolvia riscos, como o caso de um Buick que afundou na década de 1920.
Este cenário gélido nas águas é acompanhado por números impressionantes em terra firme. No coração de Manhattan, o Central Park registrou impressionantes 29 centímetros (11,4 polegadas) de neve em apenas 24 horas no domingo, 25 de janeiro, quebrando um recorde diário que permanecia invicto desde 1905.
A nevasca, classificada como uma das mais severas das últimas décadas, cobriu os cinco distritos com camadas que variaram entre 20 cm e 38 cm, paralisando a infraestrutura urbana e transformando parques como o Little Island em pontos de observação de uma paisagem puramente ártica.
O impacto nos céus foi igualmente drástico, resultando em um colapso operacional nos aeroportos JFK, LaGuardia e Newark. Devido à visibilidade nula e ao acúmulo de gelo nas pistas, mais de 11.000 voos foram cancelados apenas no domingo, somando mais de 20.000 interrupções ao longo do fim de semana nos Estados Unidos.
Com o estado de emergência decretado e temperaturas atingindo níveis recordes abaixo de zero, a metrópole enfrenta um momento de pausa forçada, onde o branco do gelo no Hudson e a neve recorde nas ruas redesenham a identidade de Nova York para este inverno de 2026.
