Uma das mais intensas tempestades de inverno da última década mergulhou o Nordeste dos Estados Unidos no caos, soterrando cidades sob quase um metro de neve em alguns pontos e interrompendo completamente a rotina de mais de 40 milhões de pessoas.

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A nevasca histórica provocou milhares de cancelamentos de voos, fechamento de rodovias, suspensão de trens suburbanos e decretos de emergência em sete estados.
O sistema, um ciclone, intensificou-se rapidamente ao largo de Cape Cod e atingiu características de ciclone bomba ao registrar queda de 39 milibares na pressão atmosférica em apenas 24 horas, muito acima do limiar de 24 milibares que define o fenômeno.
Com pressão mínima estimada em 966 milibares, a tempestade alcançou intensidade comparável a um furacão de categoria 2, embora com natureza extratropical. Meteorologistas classificaram o evento como um dos mais impressionantes da história recente.
A combinação de ar extremamente frio sobre o continente com umidade abundante do oceano criou o cenário ideal para volumes extremos de neve. O sistema percorreu a chamada trajetória perfeita: próximo o suficiente da costa para extrair energia do mar, mas não tão distante a ponto de deslocar as áreas de maior precipitação para o oceano.
Na cidade de Nova York, moradores acordaram sob pelo menos 30 centímetros de neve, com acumulados superiores a 48 centímetros no Central Park até o início da tarde. Ruas ficaram praticamente desertas. Restaurantes e mercados fecharam as portas. Escolas suspenderam aulas.
Durante a madrugada, relâmpagos cortaram o céu da cidade, e um raio atingiu o One World Trade Center em meio à nevasca intensa. O fenômeno conhecido como trovoada com neve ocorreu em vários pontos da região, algo raro e associado apenas às tempestades de inverno mais fortes.
O prefeito Zohran Mamdani suspendeu a proibição formal de circulação ao meio-dia, mas pediu que a população permanecesse em casa. Segundo ele, 2.600 trabalhadores atuavam na remoção de neve e aplicação de sal nas vias, enquanto 1.400 trabalhadores emergenciais limpavam pontos de ônibus e calçadas. Apesar do avanço das equipes, o trabalho de limpeza deve levar dias.
Em Staten Island, acumulados ultrapassaram 60 centímetros. Cerca de 300 árvores caíram durante o temporal, bloqueando ruas e danificando redes elétricas. Em Newark, os 68,8 centímetros registrados configuraram o segundo maior volume da história local, atrás apenas da histórica nevasca de 1996.
Em Long Island, acumulados superaram 75 centímetros em alguns pontos, com ventos fortes reduzindo a visibilidade a quase zero por horas consecutivas. A situação foi ainda mais extrema em Providence, onde o acumulado atingiu 85,1 centímetros, estabelecendo recorde absoluto desde o início das medições no começo do século XX. O maior total do país foi observado em Warwick, com impressionantes 92 centímetros.
Em Boston e no sudeste de Massachusetts, ventos chegaram a 133 km/h, com rajadas superiores a 150 km/h em áreas costeiras como Nantucket. A força do vento derrubou árvores, postes e deixou centenas de milhares sem energia elétrica.

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No auge da tempestade, cerca de 650 mil consumidores estavam sem luz nos Estados Unidos, quase meio milhão apenas em Massachusetts, Nova Jersey e Delaware. Autoridades alertaram que a restauração do serviço pode levar vários dias devido à combinação de neve pesada e ventos intensos.
A neve foi descrita como particularmente úmida e densa, resultado de uma faixa de temperatura considerada ideal para grandes acumulados. Se estivesse um pouco mais quente, a precipitação seria chuva. Se estivesse mais fria, haveria menos umidade disponível na atmosfera. Esse equilíbrio criou volumes excepcionais.

VANESSA CARVALHO/BRAZIL PHOTO PRESS/AFP/METSUL

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Especialistas destacaram que o fenômeno também foi favorecido por um vórtice polar alongado, que permitiu que ar extremamente frio avançasse mais ao sul do que o normal.
A tempestade provocou mais de dois mil cancelamentos de voos nos aeroportos de Nova York, Boston, Newark e Filadélfia. No aeroporto LaGuardia, praticamente todos os voos foram cancelados durante o auge da nevasca.
Grandes pontes foram fechadas e o tráfego de caminhões restrito em rodovias interestaduais. Em Nova Jersey e Connecticut, autoridades impuseram restrições severas à circulação de veículos não essenciais para garantir espaço às equipes de emergência e limpeza.

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Acidentes foram registrados às dezenas nas primeiras horas do dia. No leste de Maryland, acumulados ultrapassaram 56 centímetros em áreas costeiras, enquanto regiões mais ao interior receberam pouca neve, evidenciando a natureza irregular das bandas intensas que giravam ao redor do centro da tempestade.
Essas bandas estreitas produziram contraste impressionante. Em algumas cidades, a neve caiu por mais de 13 horas seguidas com visibilidade inferior a 200 metros. Em localidades vizinhas, a precipitação foi muito menor.
Meteorologistas afirmaram que o sistema foi um exemplo clássico de nor’easter, um ciclone na costa Nordeste norte-americana, com organização quase perfeita vista por satélite.
Alguns chegaram a compará-lo a grandes tempestades históricas, como a famosa nevasca de 1978 na Nova Inglaterra. A lembrança desse evento trágico, que deixou quase 100 mortos, ressurgiu entre moradores mais antigos.
Embora os sistemas de previsão atuais sejam muito mais avançados, a força da natureza mostrou novamente seu potencial de impacto extremo. Mesmo após a diminuição da neve, o perigo não terminou. Ventos persistentes continuaram a levantar a neve recém-caída, formando montes e cobrindo vias já limpas. O frio intenso manteve o risco de gelo nas estradas.
