A intensificação dos ataques russos contra a infraestrutura de energia da Ucrânia transformou o inverno em mais uma frente de guerra. Em meio a temperaturas que chegam a –20 °C, milhões de ucranianos enfrentam apagões prolongados, falta de aquecimento e interrupções no abastecimento de água, aprofundando uma crise humanitária já extrema.

Campanha na República Checa para comprar gerados para a Ucrânia | REPRODUÇÃO
Nas últimas semanas, grandes áreas urbanas passaram a operar em regime de emergência. Em Kyiv, cerca de 60% dos prédios ficaram sem eletricidade e uma proporção semelhante perdeu o acesso ao aquecimento central. Com o frio intenso, sistemas de água e calefação entram em colapso, tubulações se rompem e edifícios rapidamente se tornam inseguros para ocupação.
Diante desse cenário, o UNICEF anunciou a ampliação de sua resposta de inverno no país. Desde novembro de 2025, a agência entregou 106 geradores de médio e grande porte para apoiar companhias de água e sistemas de aquecimento urbano em diferentes regiões da Ucrânia. Outros 149 equipamentos devem ser distribuídos nas próximas semanas para reforçar soluções de energia de emergência onde a situação é mais crítica.
Os geradores ajudam a reduzir interrupções, acelerar reparos e manter serviços essenciais em funcionamento durante apagões. Hospitais, escolas, abrigos e residências passam a contar com maior estabilidade no fornecimento de energia, mesmo sob novos ataques à rede elétrica.
“Crianças e suas famílias estão em constante modo de sobrevivência”, afirmou o representante do UNICEF na Ucrânia, Munir Mammadzade. Segundo ele, pais lutam diariamente para manter os filhos aquecidos, preparar alimentos quentes e garantir acesso à água, enquanto técnicos trabalham sob condições perigosas para manter os sistemas ativos.
O frio extremo representa um risco direto à vida. Em temperaturas negativas, casas sem aquecimento deixam de ser apenas desconfortáveis e se tornam perigosas. Para as crianças, a exposição prolongada pode causar hipotermia e agravar doenças respiratórias, além de intensificar o medo e o estresse causados pela escuridão e pela instabilidade constante.
Até agora, a resposta de inverno do UNICEF já apoiou cerca de 1,2 milhão de pessoas por meio de energia emergencial e reparos em infraestruturas de água e aquecimento. A agência também concedeu assistência financeira de inverno a quase 187 mil pessoas, incluindo 88 mil crianças.
A União Europeia também intensificou o apoio à Ucrânia. A Comissão Europeia anunciou o envio de 447 geradores de emergência, avaliados em €3,7 milhões, a partir das reservas estratégicas do mecanismo rescEU. Desde o início da invasão em larga escala, o bloco já enviou cerca de 10 mil geradores ao país e coordenou a transferência de uma usina termelétrica completa doada pela Lituânia.
A Polônia tem papel central nessa mobilização. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk autorizou o envio de 379 geradores e 18 unidades de aquecimento das reservas estratégicas nacionais, além de iniciativas locais e campanhas públicas para financiar novos equipamentos.
Na República Checa, a resposta veio da sociedade civil. A campanha “Um Presente para Putin”, organizada pela iniciativa darekproputina.cz, arrecadou mais de US$ 6 milhões em apenas cinco dias para a compra de geradores, aquecedores e baterias para a Ucrânia. Cerca de 75 mil pessoas participaram da mobilização, lançada em janeiro, que se soma a outros esforços checos de apoio desde o início da guerra.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, anunciou que Portugal vai reforçar o apoio energético à Ucrânia, incluindo a compra de geradores, sublinhando que o país enfrenta um dos invernos mais rigorosos de sempre após ataques russos às infraestruturas civis de energia.
O empresário angolano Bento Adriano Mendes prestou ajuda humanitária à Ucrânia no setor de energia ao doar 75 geradores elétricos para civis de Kyiv e da região de Kyiv, além de militares das Forças Armadas ucranianas. A informação foi divulgada pela Embaixada da Ucrânia em Angola, que destacou que a assistência foi viabilizada em janeiro de 2026 e tem valor estimado em cerca de 37 mil euros.
Com a rede elétrica sob ataque contínuo, autoridades ucranianas alertam que a crise pode se prolongar. Organizações humanitárias e governos europeus afirmam que o objetivo é impedir que o inverno seja usado como arma, garantindo calor, água e energia mínima para a população civil em meio ao conflito.
