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Episódios extremos de chuva durante o verão fazem parte da história do clima de Minas Gerais com uma longa e antiga história de tragédias provocadas por eventos graves de precipitação excessiva e com acumulados, em alguns casos, extraordinários.

Enchente de 1979 em Minas Gerais

Enchente de 1979 foi uma catástrofe em Minas Gerais | JORNAL ALMENARA

Entre outubro e março, sob a influência frequente de ar tropical quente e úmido e ainda sob impacto de eventos da chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), o estado mineiro enfrenta episódios prolongados de chuva intensa que, combinados ao relevo montanhoso e à ocupação de áreas vulneráveis, produzem enchentes e deslizamentos recorrentes.

Ao longo das décadas, esses eventos deixaram centenas de mortos, dezenas de milhares de desabrigados e prejuízos bilionários. Para compreender a dimensão do risco, é preciso retornar a 1979.

A chamada “grande enchente” permanece como o maior desastre hidrológico da história mineira. Após mais de 35 dias praticamente ininterruptos de chuva entre janeiro e fevereiro, rios transbordaram em diversas bacias.

O saldo foi devastador: 246 mortes confirmadas e 37 cidades completamente ilhadas. Em Aimorés, o Rio Doce submergiu grande parte do município. O episódio consolidou a percepção de que, no verão mineiro, a combinação de solo saturado e vales estreitos pode se tornar uma armadilha fatal.

As décadas seguintes registraram novos picos de violência climática. Em janeiro de 1997, um dos meses mais letais para a região Central e a Zona da Mata, 83 pessoas morreram em apenas 30 dias. Mais de 600 mil ficaram sem acesso à água potável, e oito municípios decretaram estado de calamidade pública após quedas de barreiras isolarem rodovias estratégicas.

Em janeiro de 2003, foi a vez da Região Metropolitana de Belo Horizonte viver um cenário dramático. O volume de chuva superou as médias históricas da época em curto intervalo de tempo, resultando em 25 mortes na capital e arredores. O desastre impulsionou debates sobre canalização de córregos, drenagem urbana e ocupação de encostas na Grande BH.

O verão de 2020 foi muito pior. Janeiro daquele ano foi o mês mais chuvoso da história de Belo Horizonte desde o início das medições, em 1910. A capital registrou 935,2 mm de chuva — quase o triplo da média climatológica mensal. No estado, 56 pessoas morreram e mais de 90 mil ficaram desalojadas. O prejuízo estimado chegou a R$ 1,3 bilhão, somando perdas públicas e privadas.

Nos verões de 2021 e 2022, novas ondas de chuva intensa atingiram especialmente o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, com ao menos 25 mortes no período e centenas de municípios em situação de emergência. Pontes e estradas foram destruídas, agravando o isolamento de comunidades e ampliando impactos sociais.

Agora, em 2026, um novo desastre e na Zona da Mata. Em Juiz de Fora e Ubá, volumes excepcionais de chuva provocaram enchentes, deslizamentos e dezenas de mortes, segundo dados ainda em atualização pela Defesa Civil estadual.

Estudos científicos indicam que a probabilidade de eventos extremos de precipitação em Minas Gerais aumentou cerca de 70% em razão das mudanças climáticas. A geografia do perigo ajuda a explicar os desastres: vales, encostas íngremes e expansão urbana desordenada potencializam os efeitos da chuva concentrada em poucos dias.

Além das perdas humanas, o impacto socioeconômico é profundo. No Vale do Jequitinhonha e no Vale do Rio Doce, a destruição recorrente de pontes e rodovias cria um ciclo de reconstruções emergenciais que consome orçamentos municipais já limitados. Recursos que poderiam ser destinados a infraestrutura preventiva acabam direcionados a reparos urgentes.

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