A MetSul Meteorologia avalia que uma microexplosão atmosférica ou um downburst, uma corrente violenta de vento descendente que se estende se forma radial ao atingir a superfície, pode ter sido causa dos extensos e graves danos observados no temporal do final da madrugada de hoje (11) em Eldorado do Sul, na Grande Porto Alegre.

Vento deixou destruição em Eldorado do Sul | FABIANO DO AMARAL/CORREIO DO POVO
A tempestades severa no município da área metropolitana da capital gaúcha provocou destelhamentos e colapso de prédios e casas, derrubou árvores, interrompeu o fornecimento de energia elétrica e deixou centenas de pessoas fora de casa.
De acordo com o balanço da Defesa Civil, cerca de 130 residências foram destelhadas. Mais de 400 moradores ficaram desalojados e dez famílias estão desabrigadas. O levantamento dos prejuízos continua e o número de imóveis atingidos ainda pode aumentar.
O temporal ocorreu por volta das 6h e inicialmente veio com intensas rajadas de vento, que foram seguidas por uma intensa chuva de granizo que durou entre oito e nove minutos, agravando os danos provocados pelo vendaval.
Os bairros Parque Eldorado e Apolônio de Carvalho concentraram a maior parte dos estragos. Em muitas ruas, telhados foram arrancados completamente e árvores caíram sobre vias e imóveis.
Também houve interrupção no fornecimento de energia elétrica em diferentes pontos do município devido aos danos provocados na rede de distribuição. Equipes da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e da Prefeitura foram mobilizadas logo após a tempestade.
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O trabalho inclui a distribuição de lonas, atendimento às famílias afetadas e levantamento dos prejuízos. A prefeitura iniciou tratativas com o governo do estado para decretar situação de emergência. A medida permitirá acelerar a liberação de recursos para assistência às famílias e reconstrução das áreas atingidas.
Danos graves consistentes com uma microexplosão
Os danos estruturais observados em Eldorado do Sul com colapso parcial ou total de estruturas e danos até em silos de armazenagem de grãos são consistentes com rajadas de vento extremamente fortes e com caráter destrutivo.
O fato de os danos não terem se limitado a uma parte apenas da cidade não exclui a ocorrência de uma microexplosão porque o fenômeno pode se dar embebido em uma tempestade. O que determina é a severidade e as características dos danos. Em janeiro de 2016, um temporal causou estragos em grande parte de Porto Alegre, mas, como a MetSul antecipou e estudos acadêmicos depois reafirmaram, houve uma microexplosão nos bairros Praia de Belas e Meninos Deus com danos severos.
Os danos característicos de uma microexplosão ou downburst apresentam um padrão bastante distinto. Como os ventos divergem a partir do ponto de impacto da corrente descendente, árvores, postes e estruturas tendem a cair em direções diferentes, apontando para fora da área central do fenômeno.
O padrão de divergência é um dos principais elementos utilizados por meteorologistas para diferenciar uma microexplosão de um tornado, no qual os destroços normalmente convergem em direção ao eixo do vórtice.

Vento causou graves danos em Eldorado do Sul | FABIANO DO AMARAL/CORREIO DO POVO
Entre os danos mais frequentes estão o destelhamento total ou parcial de residências, a queda de árvores de grande porte, postes de energia e torres de comunicação, além de interrupções no fornecimento de eletricidade. Galpões, pavilhões e outras construções leves podem sofrer colapso estrutural devido à violência das rajadas, como se viu neste sábado em Eldorado do Sul.

Danos estruturais em Eldorado do Sul | FABIANO DO AMARAL/CORREIO DO POVO

Vento chegou a quebrar postes de concreto e causou muitos destelhamentos | FABIANO DO AMARAL/CORREIO DO POVO
A intensidade dos danos depende da força das rajadas. Microexplosões mais intensas podem gerar ventos superiores a 150 km/h e, em casos extremos, acima de 200 km/h. Embora normalmente afetem uma área inferior a quatro quilômetros de diâmetro, os prejuízos podem ser muito severos dentro da faixa de vento destrutivo.
Outro aspecto marcante é a natureza localizada da destruição. Enquanto um bairro pode apresentar danos extensos, áreas situadas a poucos quilômetros podem registrar apenas chuva ou ventos mais fracos, tal como se viu no final da madrugada em Eldorado do Sul, onde apenas uma parte do município sofreu danos severos.
Entenda o que aconteceu
Uma microexplosão, uma corrente de vento descendente violenta que se espalha de forma radial ao atingir a superfície, é a muito provável causa dos estragos no município de Eldorado do Sul no final da madrugada, de acordo com a avaliação da MetSul Meteorologia.
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Uma frente fria com deslocamento pelo Rio Grande do Sul formou nuvens carregadas durante a madrugada e a imagem de satélite do momento do temporal em Eldorado do Sul mostrava nuvens enormes com topos de até -70ºC sobre a cidade.
A instabilidade foi reforçada pela atuação de uma corrente de jato em baixos níveis da atmosfera sobre a Metade Norte gaúcha, trazendo ar quente em altitude, favorecendo a formação de nuvens de desenvolvimento vertical.

METSUL
O que é um dowburst ou microexplosão atmosférica? Este tipo de fenômeno ocorre principalmente no verão porque é a época em que os dias são muito quentes e, sob a presença de umidade alta, formam-se nuvens de grande desenvolvimento vertical do tipo Cumulonimbus (Cb) que podem atingir até 15 a 20 quilômetros de altura e são capazes de gerar vento destrutivo.
Em sua página na internet, o National Weather Service dos Estados Unidos explica o que é um downburst – uma corrente descendente de vento violenta – que é capaz de produzir estragos e danos tão graves quanto o de um tornado pela enorme velocidade que o vento pode atingir durante os episódios deste tipo de fenômeno.
“Um downburst é uma forte e relativamente pequena área de ar rapidamente descendente debaixo de uma tempestade que pode resultar de vento muito forte em altitude sendo transportado para a superfície. Ou pode ser efeito do resfriamento muito rápido do ar com a chuva que evapora em uma atmosfera inicialmente seca. O ar mais frio e denso desce rapidamente para a superfície.
Um downburst se diferencia do vento uma tempestade comum pelo seu potencial de causar danos próximos à superfície, onde se espalham ou divergem consideravelmente. Ao contrário, em tornados convergem para uma faixa estreita do terreno.
Downbursts intensos podem ser fenomenais. Velocidades do vento podem atingir marcas tão altas quanto as observadas de 281 km/h em Morehead City (Carolina do Norte) e 254 km/h na base aérea de Andrews (Maryland). Fortes episódios de downburst podem causar sons e ruídos que as pessoas frequentemente mencionam como sendo de um trem de carga, termo tipicamente associado a tornados.
Embora downbursts não sejam tornados, podem causar danos equivalentes a de um tornado pequeno ou médio, afinal vento é vento. Downbursts são classificados como macrobursts ou microbursts, dependendo da extensão da área afetada pelo vento. Os danos de macrobursts se estendem horizontalmente por mais de quatro quilômetros enquanto nos microbusts os ventos destrutivos ocorrem em área inferior a quatro quilômetros”.
Uma nuvem Cumulonimbus, pelas suas correntes ascendentes e descendentes violentas, dentro e junto à nuvem gera turbulência forte a severa, granizo, formação de gelo, raios e por vezes tornados, o que é um risco para as aeronaves principalmente no pouso e decolagem ante o perigo de cortantes de vento e correntes descendentes violentas (microburst).
Depois de vários acidentes aéreos causados por correntes descendentes (downbursts) nos Estados Unidos, aeroportos passaram a contar com radares meteorológicos e foram realizados vários estudos no país. O caso mais famoso é do desastre do voo Delta 191 em que morreram 137 pessoas. A aeronave se preparava para pousar no aeroporto de Dallas quando foi atingida por um microburst, uma corrente de vento descendente intensa em uma nuvem de tempestade, e o avião foi levado a se chocar contra o solo a um quilômetro da pista.