A MetSul Meteorologia alerta que não se pode descartar a possibilidade de formação de tornados no Rio Grande do Sul, mas a avaliação é de que o risco não é tão elevado quanto no episódio da terça-feira da semana passada, quando a atmosfera estava muito mais aquecida, instável e propícia à formação de supercélula de tempestade com mesociclone, como se viu no tornado do Noroeste gaúcho.

Tornado no Noroeste gaúcho no final da tarde de 28 de julho | REPRODUÇÃO

Tornado no Noroeste gaúcho no final da tarde de 28 de julho | REPRODUÇÃO

O risco de tornados nas próximas horas no Rio Grande do Sul decorre da combinação de diferentes variáveis atmosféricas que favorecem a formação de tempestades severas e com potencial de apresentar rotação. Embora tornados sejam fenômenos localizados e não ocorram em todas as áreas sob alerta, o ambiente meteorológico previsto é considerado propício para sua ocorrência isolada.

O primeiro ingrediente é uma intensa corrente de jato em baixos níveis, um corredor de ventos muito fortes a cerca de um a dois quilômetros de altitude. Este jato transporta ar muito quente e úmido do Norte da Argentina, Paraguai e Centro-Oeste do Brasil para o Rio Grande do Sul, aumentando a energia disponível para o desenvolvimento de tempestades severas.

Leia tambémVendavais vão provocar falta de luz em muitas cidades gaúchas

O segundo fator é o avanço de uma linha de instabilidade na dianteira de uma frente fria associada à formação de um ciclone extratropical. A chegada do ar mais frio força o ar quente e úmido a subir rapidamente, favorecendo a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical e de uma extensa linha de instabilidade que deve avançar rapidamente pelo Rio Grande do Sul.

O ingrediente mais importante para o risco de tornados, entretanto, é o elevado cisalhamento do vento. Isso significa que a velocidade e a direção dos ventos mudam significativamente entre a superfície e os níveis mais altos da atmosfera. Essa variação faz com que as correntes ascendentes das tempestades adquiram rotação, o que se antecipa com o avanço de ar mais frio e a atuação da corrente de jato em baixos níveis.

Quando um núcleo de tempestade consegue se desenvolver mais e com rotação surge uma supercélula, o tipo de tempestade mais frequentemente associado à formação de tornados. Mesmo quando as tempestades se organizam em uma linha de instabilidade, podem ocorrer pequenas áreas de intensa rotação embutidas na linha, capazes de gerar tornados rápidos, conhecidos como tornados de QLCS (Sistema Convectivo Quase-Linear).

Além disso, a rápida intensificação da área de baixa pressão e a formação do ciclone aumentam ainda mais os ventos em toda a atmosfera, elevando os valores de helicidade, uma medida do potencial de rotação do ar. Quanto maior a helicidade em um ambiente com tempestades intensas, maior é a possibilidade de que algumas células consigam desenvolver um mesociclone, estrutura rotativa que pode dar origem a um tornado.

Mapa do jato de baixos níveis que agrava o risco de tornados

Corrente de jato em baixos níveis avançando de Noroeste com ar quente e e uma frente fria se deslocando de Sudoeste com ar frio vão trazer grande divergência (cisalhamento) de vento que cria condições para tornados | METSUL

Isso não significa que haverá tornados em grande número ou que todas as tempestades produzirão o fenômeno. O que a previsão indica é que o ambiente atmosférico reúne ingredientes semelhantes aos observados em outros episódios de tempo severo no Sul do Brasil em que tornados isolados foram registrados, mas isso não significa que vão necessariamente ocorrer.

Leia tambémCiclone poderoso trará vendavais violentos, estragos e falta de luz

Mapa de risco de tornados

Índice de Parâmetro de Tornado Significativo tem elevados valores no final da tarde e começo da noite nas Metades Oeste e Sul do estado | METSUL

Índices de instabilidade indicam elevado risco de tempo severo no Oeste e no Sul gaúcho no fim da tarde e começo da noite

Índices de instabilidade indicam elevado risco de tempo severo no Oeste e no Sul gaúcho no fim da tarde e começo da noite | METSUL

Embora a palavra tornado sempre chame a atenção, destacamos com ênfase que em cenário meteorológico como o previsto para as próximas horas, o principal perigo continua sendo a linha de instabilidade com rajadas fortes a muito intensas de vento, e em alguns locais até com força destrutiva.

Uma vez mais reiteramos que todas as regiões do Rio Grande do Sul têm risco de tempestades na passagem da linha de instabilidade, mas os dados apontam um risco maior de vendavais intensos a localmente destrutivos no Oeste, Centro e o Sul do estado, além do Uruguai. A Metade Sul gaúcha, em particular, deve ser particularmente afetada por vendavais intensos.

As rajadas de vento pelos vendavais na passagem da linha de instabilidade podem atingir 70 km/h a 100 km/h na maioria das cidades gaúchas e em vários departamentos do Uruguai, mas em alguns pontos as tempestades devem ser severas com vendavais até violentos em que as rajadas podem ficar entre 100 km/h e 150 km/h com alto poder de destruição localizado, especialmente no Uruguai e na Metade Sul gaúcha.