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O fenômeno La Niña prossegue no Oceano Pacífico Equatorial e, inclusive, ganha força com valores de anomalias de temperatura do mar tão negativos que nesta época do ano não eram observados há pelo menos duas décadas.


O outono inteiro será com La Niña, a probabilidade de que o fenômeno persista no inverno é muito alta e são crescentes os indicativos pelos modelos que este evento frio no Pacífico será atipicamente prolongado e se estenderá ainda por vários meses.

De acordo com o último boletim da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), a agência climática do governo dos Estados Unidos, divulgado na segunda-feira, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central, a denominada região Niño 3.4, foi de -1,2ºC.


Esta é a região utilizada para classificar se há El Niño ou La Niña e, portanto, a mais observada na climatologia. O valor de -1,2ºC observado na última semana está compreendido na faixa de intensidade moderada para La Niña que vai de -1,0ºC a -1,4ºC.

Já a anomalia da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste, na região que é conhecida como Niño 1+2, perto dos litorais do Peru e do Equador, foi de -1,5ºC na última semana. O valor está dentro da faixa de forte intensidade que vai de -1,5ºC a -1,9ºC.

Esta região mais a Leste do Pacífico, conforme estudos de correlação de teleconexão, possui forte influência na chuva do Sul do Brasil, particularmente no Rio Grande do Sul, durante os meses do verão.

No inverno, ao contrário, mesmo estando muito fria podem ocorrer eventos de chuva volumosa, como se viu dias atrás no Sul do país. A sua influência no inverno se dá mais na temperatura, favorecendo fortes incursões de ar frio quando as anomalias são muito negativas.

La Niña mais forte em décadas no outono

O comportamento do atual evento de La Niña foge ao que costuma se observar. O episódio que se iniciou em agosto do ano passado normalmente atinge seu pico de intensidade entre o fim do ano e o começo do ano seguinte. Na sequência, começa a perder intensidade e, via de regra, há uma transição para neutralidade no outono do ano seguinte.

Não é o que ocorre em 2022. A La Niña voltou a ganhar força agora no outono e fazia muito tempo que o Pacífico não se encontrava tão frio na região equatorial nesta época do ano, de acordo com os dados da série histórica mantidos pela NOAA.

A última anomalia semanal divulgada no mês de abril de -1,1ºC para a região Niño 3.4 foi a mais fria em uma semana para o mês desde 1999. Já a anomalia do Pacífico Equatorial Central divulgada nesta semana de -1,2ºC é a menor em uma semana de maio desde o ano 2000, portanto há 22 anos.

Valores tão baixos de temperatura para o Pacífico Equatorial nesta época do ano ocorreram poucas vezes na série histórica das últimas décadas. Conforme a base de dados da NOAA, o Pacifico esteve muito frio entre abril e maio, como agora, com anomalias no limite de moderada a forte intensidade em 1985, 1988, 1999, 2000, 2008 e 2011.

La Niña seguirá por meses

O atual episódio de La Niña está longe de terminar. O fenômeno seguirá atuando no que resta do outono e vai prosseguir durante o inverno. Os mais recentes dados dos modelos aumentaram as probabilidades de La Niña durante a primavera.

Modelos indicam Pacífico com La Niña tanto no trimestre de inverno (esquerda) como da primavera (direita) | NOAA

Já para o verão de 2023, embora não se descarte que persista, é muito cedo para fazer prognósticos, especialmente considerando que o período de março a junho todos os anos é chamado de “barreira de previsibilidade” em que as projeções de longo prazo para o Pacífico se tornam menos confiáveis.

Conforme a última projeção da Universidade de Colúmbia, em parceria com a NOAA, para o trimestre de maio a julho há 61% de La Niña e 39% de neutralidade com 0% de El Niño. Para o trimestre de inverno no Hemisfério Sul de julho a agosto a probabilidade calculada é de 49% de La Niña e 49% de neutralidade.

IRI

Para julho a setembro, 47% de La Niña e 48% neutro. Entre agosto e outubro, 49% de La Niña e 44% de neutralidade. De setembro a novembro, o trimestre da primavera, 54% de La Niña e 38% de probabilidade de neutralidade. Entre outubro a dezembro, 54% de La Niña e 36% de neutro. E entre novembro e janeiro, no período crítico para o milho, 48% de La Niña e 38% de neutralidade.

O que é La Niña

A La Niña se caracteriza pelo resfriamento das águas superficiais da faixa equatorial do Oceano Pacífico com a alteração do regime de vento na região que impacta o padrão de circulação geral da atmosfera em escala global, inclusive no Brasil. Quando há um evento de La Niña há uma tendência de a Terra esfriar ou na fase atual de apresentar aquecimento menor que haveria estivesse sob El Niño.

No caso do Rio Grande do Sul, há estudos mostrando efeitos em produtividade agrícola pelas diferentes fases do Pacífico. Estes trabalhos levam em conta décadas de dados. Quando sob neutralidade a produtividade ficou acima da média em um terço dos anos, abaixo da média em outro terço e acima no terço restante. Sob El Niño, a tendência maior foi de aumento de produtividade e com La Niña verificou-se uma probabilidade maior de perdas na produção.

Há uma propensão a se fazer uma correlação entre El Niño e mais chuva no Sul do Brasil e La Niña a um maior risco de estiagem, mas esta é uma fórmula distante de correta e existem muitas ressalvas a serem feitas do ponto de vista histórico. Nenhum evento de La Niña é igual ao outro.

Apesar de a grande maioria das estiagens no Sul do país ter ocorrido sob neutralidade ou La Niña, a maior seca do Rio Grande do Sul neste século, em 2005, se deu com o Pacífico Equatorial oficialmente numa condição de El Niño. Da mesma forma já houve muitos meses bastante chuvosos e até enchentes durante episódios de La Niña, como se está vendo neste outono no Sul do Brasil.

No caso do último verão, por exemplo, a MetSul enfatizava a alertava enfaticamente muito meses antes que o evento de La Niña poderia trazer estiagem forte a severa, como ocorreu com perdas no milho e na soja durante o último verão com quebra significativa da safra em algumas regiões.

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