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Frio extremo e muita neve no inverno de 2026 em vários países do Hemisfério Norte são um prenúncio para o nosso inverno no Brasil daqui a alguns meses? Grande parte dos Estados Unidos, muitos países europeus e parte da Ásia enfrentaram uma estação fria neste ano como há muito não se via.

Foto mostra inverno rigoroso no Canadá

Inverno de 2026 teve extremos de neve nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia. Cidade canadense de Toronto (foto) registrou o maior acumulado de neve em 24 horas de sua história. | MERT ALPER DERVIS/ANADOLU/AFP/METSUL

No Leste dos Estados Unidos, sucessivas incursões de ar gelado do Ártico, associadas à disrupção do vórtice polar e a uma forte ondulação da corrente de jato, mantiveram o frio preso por semanas. Para milhões de moradores, a sensação é de que o inverno simplesmente não termina.

Em Boston, na região da Nova Inglaterra, o frio prolongado impressiona mais pela duração do que pelos extremos absolutos. A cidade enfrentou mais de 200 horas consecutivas com temperatura abaixo de 0°C, a sequência mais longa em oito anos.

Foram dias seguidos sem degelo, com ruas cobertas por neve compactada e vento cortante. Dezembro terminou com média de −0,4°C, mais de 2°C abaixo do normal histórico. Janeiro registrou média de −2,2°C, cerca de 1°C abaixo da climatologia. Considerando mais de 150 anos de medições, foi o período mais frio desde 2004. Embora não esteja entre os invernos mais rigorosos de toda a série histórica, destaca-se como um dos mais frios dos últimos 25 anos.

No Meio-Oeste, a situação semelhante. Em Chicago, a chamada “Windy City” vive o inverno mais rigoroso em doze anos. Dezembro ficou cerca de 1,8°C abaixo da média, enquanto janeiro teve desvio negativo de 1,6°C. Houve vários períodos em que as temperaturas máximas não passaram de 0°C.

Além do frio persistente, Chicago registrou neve acima do normal em dezembro, algo que não ocorria há quase uma década. Carros ficaram soterrados, calçadas se transformaram em pistas escorregadias e o consumo de energia para aquecimento disparou. O impacto no cotidiano foi visível, com dificuldades de deslocamento e escolas enfrentando cancelamentos pontuais.

Na capital do país, Washington, D.C., o inverno também quebrou padrões recentes. Foram mais de 230 horas consecutivas com temperaturas abaixo de 0°C, algo que não acontecia desde o fim dos anos 1980, no inverno mais frio desde a temporada 2010–2011.

Mais ao Norte, em Nova York, o inverno veio com força não vista desde 1994–1995. O rio Hudson apresentou extensa cobertura de gelo, cenário raro nas últimas décadas. Manhãs sucessivas com temperaturas negativas e sensação térmica muito baixa castigaram especialmente populações vulneráveis.

Grandes nevascas atingiram o Meio-Oeste e a Costa Leste dos Estados Unidos | CHARLY TRIBALLEAU/AFP/METSUL

Ciclone bomba trouxe uma das dez piores nevascas da história em fevereiro em Nova York | VANESSA CARVALHO/BRAZIL PHOTO PRESS/AFP/METSUL

Nev paralisou o Nordeste dos Estados Unidos | CHARLY TRIBALLEAU/AFP/METSUL

Frio extremo congelou o Rio Hudson em Nova York como há muito não se via | LOKMAN VURAL ELIBOL/ANADOLU/AFP/METSUL

Os efeitos do frio foram além das grandes cidades. O Lago Erie chegou a cerca de 96% de cobertura de gelo no início de fevereiro, o maior índice em dez anos. Rios no Nordeste e no Meio-Atlântico também registraram congelamento significativo, afetando navegação e atividades locais.

O frio avançou até latitudes incomuns. Houve registro de flocos de neve no Sul da Flórida e frio raro em áreas próximas ao Caribe. Em Cuba, a estação de Indio Hatuey marcou 0,0°C, atingindo pela primeira vez o ponto de congelamento no país e estabelecendo um novo recorde nacional de temperatura mínima, superando a marca de 0,6°C registrada em 1996.

Janeiro de 2026 foi marcado por extremos na Europa. O continente enfrentou seu mês de janeiro mais frio desde 2010, segundo dados do Copernicus Climate Change Service. A temperatura média terrestre europeia ficou em −2,34°C, 1,63°C abaixo da média de 1991–2020.

Ondas de frio sucessivas atingiram o continente na segunda metade do mês, impulsionadas pelo avanço de ar polar e alterações na circulação atmosférica. Na Escandinávia, os termômetros despencaram a níveis extremos.

A Suécia registrou −43,6°C em Kvikkjokk-Årrenjarka, o menor valor em janeiro em 25 anos. Na Lituânia, fez −34,3°C, a menor marca desde 1996. O frio extremo trouxe o inverno mais frio em décadas na Ucrânia, agravando o drama das vítimas da guerra pela falta de aquecimento.

Moscou teve inverno de muita neve | YURI KADOBNOV/AFP/METSUL

Moscou viveu em 2026 um dos invernos mais brancos e rigorosos de sua história recente, com sucessivas frentes árticas e ciclones que trouxeram neve recorde. Em janeiro, mais de 30 cm caíram em 24 horas, superando marcas desde 1941, e a camada acumulada passou de 70 cm. Em fevereiro, o chamado “apocalipse de neve” cancelou voos em Aeroporto de Sheremetyevo e Aeroporto de Domodedovo, com temperaturas entre −28°C e −30°C.

No Mediterrâneo, o frio também surpreendeu. A Grécia anotou temperaturas de até −23°C e acumulou mais de três metros de neve em áreas montanhosas. A Itália teve registro de neve ao nível do mar.

Neve bateu recordes na região perto do Mar do Japão | JIJI PRESS/AFP/METSUL

O inverno de 2026 no Japão foi marcado pela atuação da Zona de Convergência de Massa de Ar Polar do Mar do Japão (JPCZ), fenômeno que ocorre quando o ar extremamente frio da Sibéria cruza o Mar do Japão, ganha umidade e provoca nevascas volumosas no país.

Os acumulados atingiram níveis impressionantes. Em Sukayu, na província de Aomori, a neve chegou a 5,1 metros em fevereiro, aproximando-se de recordes históricos. Em Hokkaido, a cidade de Asahikawa registrou o maior volume em 24 horas em três décadas. Cidades costeiras como Tottori e Matsue, no Sudoeste, tiveram volumes 250% acima da média sazonal, com bloqueios de rodovias e interrupções no transporte. Mesmo áreas pouco acostumadas a grandes nevadas foram afetadas.

Por que tantos extremos de frio?

O inverno deste ano tem sido tudo menos comum em partes dos Estados Unidos e outros países do Hemisfério Norte. No Nordeste e no Meio-Atlântico norte-americano, trata-se do inverno mais frio em mais de duas décadas, com sucessivas tempestades de neve e uma nevasca recente descrita como “histórica” pelos ventos com força de furacão e pelo volume impressionante de neve.

Em muitas áreas, a paisagem permanece completamente branca desde dezembro, sem sinal de grama à vista. Para quem estava acostumado a invernos mais amenos nos últimos anos, a estação voltou a ter cara e sensação e inverno de verdade.

A explicação para o frio persistente no Leste passa pelo vórtice polar, que normalmente circula sobre o Polo Norte, mantendo o ar gelado confinado ao Ártico. Em determinadas situações, porém, essa circulação pode se distorcer e se alongar, permitindo que o ar Ártico avance para latitudes mais baixas.

Neste ano, o comportamento foi incomum porque essa perturbação começou cedo, ainda em novembro, desencadeando uma sequência de ondulações da corrente de jato (vento em altitude) e recuos do vórtice ao longo da estação. Esse padrão favoreceu ondas de frio intensas e também episódios de neve volumosa, já que pesquisas recentes indicam que esses alongamentos costumam coincidir com as maiores tempestades de neve.

Inverno extremo no Hemisfério Norte antecipa inverno rigoroso no Brasil?

Então, fica a pergunta: o inverno extremo em muitos países do Hemisfério Norte é de alguma forma um sinal para o nosso inverno de 2026 no Brasil? Teremos eventos extremos (para os nossos padrões climatológicos) também?

A MetSul Meteorologia observa há muito tendência de repetição de padrões do inverno da América do Norte meses depois no inverno do Sul do Brasil. Anos de eventos muito extremos de frio em janeiro e fevereiro, de caráter histórico, acabaram tendo depois nos meses do nosso inverno também eventos de grande intensidade e marcantes no Sul do Brasil.

Casos do ano de 1918, ano de inverno incrivelmente rigoroso nos Estados Unidos e que depois teve entre junho e julho neve na cidade de Buenos Aires e o recorde de mínima de toda a série histórica de Porto Alegre com -4ºC. Ou 1962 que foi outro ano congelante no Hemisfério Norte e após teve um inverno rigoroso no Sul do Brasil.

Enfatizamos, contudo, que o clima não é linear e os extremos de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026 no Hemisfério Norte não significam que haverá repetição do padrão aqui.

É preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o padrão geral de circulação na atmosfera hoje no mundo é um e no nosso inverno tende a ser diferente. Hoje, a atmosfera está sob influência remanescente da La Niña dos últimos meses, que impacta tanto o Brasil como o Hemisfério Norte.

Já no inverno nosso, entre junho e agosto de 2026, o cenário mais provável hoje apresentado pelos dados dos modelos de clima indica o Oceano Pacífico Equatorial em fase quente com um El Niño instalado e em intensificação.

Nesse sentido, a maioria dos modelos de clima com projeções para meses à frente indica neste momento que o inverno no Centro-Sul do Brasil em 2026 deve ter temperatura acima da média na maior parte das áreas do Sul, Centro-Oeste e a Região Sudeste do território brasileiro.

Modelo climático NMME indica inverno mais quente que a média no Brasil | NOAA

Modelo de clima europeu também indica um trimestre de inverno de temperatura acima da media no Centro-Sul do Brasil | ECMWF

Nos últimos dois eventos de El Niño de maior intensidade, no inverno que marcou o começo do fenômeno, em 2015 e 2023, a estação não foi muito fria. Ao contrário, apresentou temperatura acima a muito acima da média no Centro-Sul do país. Em 2015, agosto foi extremamente quente. Em 2023, julho e agosto apresentaram temperatura muito acima da climatologia histórica em vários estados.

Trimestre de inverno (junho a agosto) foi de temperatura acima a muito acima da média no Brasil em 2015 e 2023 | INMET

Médias, no entanto, “mascaram” eventos isolados. O que pode ocorrer é um inverno com eventos pontuais de frio intenso, um ou outro de maior duração. No geral, porém, pelos dados de hoje, não se observa uma probabilidade alta de uma estação fria com temperatura baixa persistente como no Hemisfério Norte e sim a ocorrência de eventos episódicos de temperatura muito baixa com geada ampla e talvez neve.

Sobre neve, como o El Niño costuma trazer temperaturas médias acima do normal e menor frequência de frio intenso, porque a circulação atmosférica associada ao Pacífico equatorial aquecido favorece um padrão mais ameno no Sul do Brasil, as chances de neve tendem a ser reduzidas comparadas a anos neutros ou sob La Niña.

Mesmo assim, há casos históricos de grandes nevadas durante eventos de El Niño, o que reforça que o fenômeno climático não impede automaticamente a ocorrência de neve. Os invernos de 1957 e 1965, ambos sob forte El Niño, são lembrados na climatologia regional por episódios de neve de grande relevância histórica no Sul do Brasil. Isso ocorre porque, sob El Niño, há mais umidade e instabilidade que, quando combinadas com uma incursão de ar polar intensa, podem gerar eventos de precipitação invernal, sobretudo nos meses de agosto e setembro.

Um padrão do inverno de 2026 no Hemisfério Norte e que pode se repetir na América do Sul é uma maior frequência de ciclones pela tradicional diferença de temperatura entre frio mais intenso na Patagônia e ar quente no Brasil em anos de El Niño, agravando o risco de episódios de tempo severo e vento muito intenso, em particular no Sul do Brasil e nos países do Prata.

Fator-chave para os extremos do inverno de 2026 no Hemisfério Norte foi a ondulação do jato polar e do vórtice polar para latitudes médias. Esse tipo de comportamento só pode ser previsto para o Hemisfério Sul pelo Modo Anular Sul ou Oscilação Antártica em curto prazo. Assim, em caso de um evento de aquecimento súbito estratosférico (mais comum no Ártico que na Antártida) pode haver surpresas no inverno, mas se o sinal a prevalecer for apenas do El Niño a tendência é de um inverno mais quente que o normal.

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