Nos últimos dias têm circulado reportagens apontando para a possibilidade de um inverno rigoroso em 2026 com potencial de ser mais frio inclusive que do ano passado. As matérias replicadas em portais e redes sociais não aponta a assinatura de um Instituto ou meteorologista que teria elaborado esse prognóstico. A autoria é generalista e atribui tal previsão aos “meteorologistas”.
Como resultado a caixa de mensagens da nosso equipe de meteorologistas que tem nome, sobrenome e registro no CREA-RS recebeu uma “enxurrada” de questionamentos que tornou impossível responder um a um.
É preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o padrão geral de circulação na atmosfera hoje no mundo é um e no nosso inverno tende a ser diferente. Hoje, a atmosfera está sob influência remanescente da La Niña dos últimos meses, que impacta tanto o Brasil como o Hemisfério Norte.
Já no inverno nosso, entre junho e agosto de 2026, o cenário mais provável hoje apresentado pelos dados dos modelos de clima indica o Oceano Pacífico Equatorial em fase quente com um El Niño instalado e em intensificação.
Nesse sentido, a maioria dos modelos de clima com projeções para meses à frente indica neste momento que o inverno no Centro-Sul do Brasil em 2026 deve ter temperatura acima da média na maior parte das áreas do Sul, Centro-Oeste e a Região Sudeste do território brasileiro.
É claro, que incursões curtas de frio que poderá ser intenso e potente poderão ocorrer dentro de um padrão esperado para o inverno. Por outro lado, o adjetivo “rigoroso” remete a longos períodos de frio, com os fenômenos geada e neve sendo presentes. Diante da expectativa de um El Niño as chances de um inverno com tais características são pequenas a remotas. Além do mais comparar ao ano passado com o Pacífico mais frio também indica um padrão mais quente. Portanto, é um equívoco afirmar que o inverno desse ano poderá ser mais frio.
Confira abaixo a análise mais técnica dos que os modelos indicam neste momento:
Modelo climático NMME indica inverno mais quente que a média no Brasil | NOAAModelo de clima europeu também indica um trimestre de inverno de temperatura acima da média no Centro-Sul do Brasil | ECMWF
Nos últimos dois eventos de El Niño de maior intensidade, no inverno que marcou o começo do fenômeno, em 2015 e 2023, a estação não foi muito fria. Ao contrário, apresentou temperatura acima a muito acima da média no Centro-Sul do país. Em 2015, agosto foi extremamente quente. Em 2023, julho e agosto apresentaram temperatura muito acima da climatologia histórica em vários estados.
Trimestre de inverno (junho a agosto) foi de temperatura acima a muito acima da média no Brasil em 2015 e 2023 | INMET
Médias, no entanto, “mascaram” eventos isolados. O que pode ocorrer é um inverno com eventos pontuais de frio intenso, um ou outro de maior duração. No geral, porém, pelos dados de hoje, não se observa uma probabilidade alta de uma estação fria com temperatura baixa persistente como no Hemisfério Norte e sim a ocorrência de eventos episódicos de temperatura muito baixa com geada ampla e talvez neve.
Sobre neve, como o El Niño costuma trazer temperaturas médias acima do normal e menor frequência de frio intenso, porque a circulação atmosférica associada ao Pacífico equatorial aquecido favorece um padrão mais ameno no Sul do Brasil, as chances de neve tendem a ser reduzidas comparadas a anos neutros ou sob La Niña.
Mesmo assim, há casos históricos de grandes nevadas durante eventos de El Niño, o que reforça que o fenômeno climático não impede automaticamente a ocorrência de neve. Os invernos de 1957 e 1965, ambos sob forte El Niño, são lembrados na climatologia regional por episódios de neve de grande relevância histórica no Sul do Brasil. Isso ocorre porque, sob El Niño, há mais umidade e instabilidade que, quando combinadas com uma incursão de ar polar intensa, podem gerar eventos de precipitação invernal, sobretudo nos meses de agosto e setembro.
Fator-chave para os extremos do inverno de 2026 no Hemisfério Norte foi a ondulação do jato polar e do vórtice polar para latitudes médias. Esse tipo de comportamento só pode ser previsto para o Hemisfério Sul pelo Modo Anular Sul ou Oscilação Antártica em curto prazo. Assim, em caso de um evento de aquecimento súbito estratosférico (mais comum no Ártico que na Antártida) pode haver surpresas no inverno, mas se o sinal a prevalecer for apenas do El Niño a tendência é de um inverno mais quente que o normal.


