O inverno de 2025-2026 tem deixado grandes cidades dos Estados Unidos sob um frio intenso que muitos moradores não viam há décadas com sucessivas incursões de ar polar do Ártico extremamente fortes como consequência da disrupção do vórtice polar e a ondulação da corrente de jato sobre a América do Norte.

JOSEPH PREZIOSO/AFP/METSUL
Em Boston, na região da Nova Inglaterra, no Nordeste norte-americano, a sensação predominante é a de um inverno que simplesmente não passa. A cidade registrou uma sequência prolongada de temperaturas abaixo de 0°C, ultrapassando 200 horas consecutivas sem superar o ponto de congelamento. Esse período de frio extremo foi o maior em oito anos e segue reforçando a impressão de que este inverno é diferente do que se viu nos últimos tempos.
Os números de Boston mostram que dezembro e janeiro foram bem abaixo da média histórica. Dezembro terminou com temperatura média de −0,4°C, mais de 2ºC abaixo do normal. Em janeiro, a média ficou em torno de −2,2°C), ou 1ºC abaixo do esperado.
Considerando os registros de mais de 150 anos, esses dois meses juntos foram os mais frios desde 2004. Mas, olhando apenas para as estatísticas de cem anos ou mais, esse inverno não entrou entre os mais rigorosos da história. Agora, quando comparado com os últimos 25 anos, o frio de Boston neste inverno se destaca como um dos piores da vida de muitos moradores.
Para quem cresceu na cidade nas últimas décadas, este é, de fato, um dos invernos mais frios que já se viveu. Um dos aspectos que mais surpreendeu os moradores foi a duração do frio, não apenas os valores absolutos de temperatura.
A sequência de dias gelados recriou memórias de antigos invernos dos quais poucos mais se lembravam, com histórias de escolas fechadas e trajetos difíceis em meio à neve e ao vento cortante.
Já no Meio-Oeste, Chicago vive situação semelhante. A “Windy City” está registrando seu inverno mais rigoroso em doze anos. A média de temperaturas ficou bem abaixo do normal tanto em dezembro quanto em janeiro. A média de dezembro foi cerca de 1,8ºC abaixo do padrão histórico, enquanto janeiro ficou 1,6ºC abaixo da média.
Em Chicago, as temperaturas máximas não passaram do ponto de congelamento por muitos dias consecutivos. A persistência de dias inteiros seguidos com marcas negativas contribuiu para a sensação de um inverno implacável neste ano.
Além disso, a cidade experimentou mais neve do que o normal em dezembro, algo não visto ali há quase uma década. As camadas de neve acumuladas e as temperaturas geladas transformaram a vida cotidiana. Carros ficaram enterrados, calçadas tornaram-se perigosas e muitas pessoas relataram dificuldades de deslocamento e um consumo elevado de energia para aquecimento.
A região da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C., viveu um dos períodos mais longos com temperaturas abaixo de 0°C em mais de três décadas. Foram mais de 230 horas consecutivas com o termômetro abaixo do ponto de congelamento, algo que não acontecia desde o fim dos anos 1980.
Essa sequência prolongada de frio em Washington foi acompanhada de uma combinação difícil: tempestades de inverno com neve e gelo, seguidas por dias intermináveis de ar congelante. Em muitos bairros, o que restou após as nevascas foi uma camada compacta de neve e gelo — apelidada de “snowcrete” — que permaneceu por dias, dificultando a circulação.
Cidades no Nordeste e no Meio-Atlântico relataram impactos similares. Locais como Filadélfia e Nova York viram temperaturas demorarem a subir acima de zero, com várias manhãs de gelo e noites de frio intenso que castigaram moradores, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade.
Especialistas explicam que esse inverno rigoroso no Leste dos Estados Unidos está ligado a um padrão atmosférico que empurrou o ar ártico para o Sul, mantendo o frio preso por semanas. Ao mesmo tempo, no Ártico, as temperaturas ficaram acima da média, um contraste que sinaliza a complexidade dos padrões climáticos atuais.
