O final de agosto do ano de 2005 certamente foi um dos períodos de eventos mais extremos que já testemunhamos na MetSul Meteorologia. Em poucos dias, diferentes pontos do continente americano assistiram a uma sucessão de fenômenos extremos que marcaram a memória coletiva.
Imagem de satélite do então furacão categoria 5 Katrina sobre as águas do Golfo do México em 28 de agosto de 2005 | NASA
No Uruguai, um ciclone extratropical de grande intensidade trouxe ventos destrutivos com mortes. No interior gaúcho, um tornado raro e violento deixou rastros de destruição em Muitos Capões, nos Campos de Cima da Serra. E, mais ao Norte do continente, os Estados Unidos enfrentaram o furacão Katrina, uma das maiores catástrofes naturais da história do país.
Não era um período de grandes eventos climáticos no planeta, como El Niño ou La Niña. Naquele momento, no fim de agosto de 2025, o Oceano Pacífico estava em neutralidade com anomalias de temperatura da superfície do mar próximas do que se observa neste momento em 2025.
Tampouco era um ano de superaquecimento do planeta, como foram os anos de 2023 e 2024, e apesar de o planeta já estar aquecendo naquele momento, a temperatura do globo não subia tão rapidamente como nos últimos anos.
Foi uma sequência impressionante de eventos extremos naquela última semana do mês de agosto de 2005 e que dominou os noticiários da época, dos locais aos internacionais com imagens de desastres provocados pelos extremos do clima.
Um devastador ciclone extratropical no Uruguai
Na noite de 23 para 24 de agosto de 2005, o Uruguai foi atingido por um ciclone extratropical excepcionalmente intenso. O sistema se aprofundou com rapidez sobre o Atlântico, muito próximo da costa, e trouxe ventos que chegaram a 200 km/h em Montevidéu e outras cidades litorâneas.
A situação foi descrita pela imprensa uruguaia como um verdadeiro “vendaval histórico”, com danos estruturais em residências, prédios e no setor elétrico. Os prédios na avenida beira-mar da capital uruguaia, a Rambla, chegaram a balançar. Ainda na memória coletiva uruguaia, o ciclone de 2025 segue como a pior tempestade da história do país.
Enorme antena de rádio veio abaixo na região da Avenida Itália, em Montevidéu, com a força do vento | DANIEL CASELLI/AFP/ARQUIVO METSUL
A capital uruguaia amanheceu com cenas de destruição. Árvores centenárias foram arrancadas pela raiz, telhados se desprenderam e postes caíram em sequência. Antenas de emissoras de rádios em altos de prédios vieram abaixo. O fenômeno, que os uruguaios chamaram de “ciclón”, entrou para o registro como um dos mais fortes a afetar o país desde a década de 1970.
O impacto humano também foi significativo. Pelo menos dez pessoas perderam a vida, muitas delas atingidas por destroços. A interrupção de energia elétrica foi massiva e demorou dias para ser restabelecida em algumas localidades.
Meteorologistas destacaram que a trajetória do ciclone foi crucial para a gravidade do episódio. Ao avançar rente à costa uruguaia, a tempestade potencializou a velocidade do vento em áreas densamente povoadas, um cenário que remete a tempestades tropicais, embora o sistema fosse extratropical.
O tornado em Muitos Capões
Poucos dias depois do ciclone no Uruguai, outro evento surpreendeu e desta vez no Sul do Brasil. Em 25 de agosto de 2005, o município de Muitos Capões, nos Campos de Cima da Serra, viveu um episódio extremo: um tornado de grande intensidade.
O fenômeno destruiu dezenas de casas, arrancou árvores inteiras e deixou um cenário de caos. Segundo relatos de moradores, o barulho era ensurdecedor, comparado ao de “um avião rasgando o céu”. O tornado, classificado por especialistas como de categoria F3 na escala Fujita, demonstrou a vulnerabilidade da região a fenômenos severos.
Veículo destruído pela força do tornado em Muitos Capões | DEFESA CIVIL/ARQUIVO METSUL
Tornados não são frequentes no Rio Grande do Sul, embora ocorram esporadicamente. O caso de Muitos Capões ficou marcado pelo impacto humano e pela intensidade. Muitas famílias ficaram desabrigadas, e a pequena comunidade precisou contar com ajuda emergencial do governo estadual e da Defesa Civil.
A coincidência temporal com o ciclone uruguaio chamou atenção. Enquanto o país vizinho ainda contabilizava prejuízos, o interior gaúcho experimentava outro tipo de força atmosférica, mas igualmente devastadora e também por vento.
Nos Estados Unidos, o famigerado furacão Katrina
Enquanto o Cone Sul enfrentava seus temporais, o Hemisfério Norte era assolado por um desastre ainda maior. No dia 29 de agosto de 2005, o furacão Katrina atingiu a Louisiana e o Mississippi, nos Estados Unidos, com ventos de até 280 km/h em sua fase mais intensa.
O Katrina é lembrado não apenas pela força da natureza, mas também pela dimensão humana da tragédia. O colapso dos diques que protegiam Nova Orleans resultou em uma das maiores catástrofes urbanas da história americana. Bairros inteiros ficaram submersos, e milhares de pessoas precisaram ser resgatadas em condições dramáticas.
Inundação pelo Katrina deixou 1800 mortos em Nova Orleans | JAMES NIELSEN/AFP/ARQUIVO METSUL
Pessoas refugiadas em telhados em Nova Orleans | DAVID J. PHILLIP/POOL/AFP/ARQUIVO METSUL
Nova Orleans testemunhou resgates dramáticos no Katrina | ROBERT GALBRAITH/POOL/AFP/ARQUIVO METSUL
O número de mortos superou 1.800, e mais de um milhão de pessoas ficaram desalojadas. O impacto econômico foi gigantesco, estimado em mais de 100 bilhões de dólares, tornando o Katrina o desastre natural mais caro da história dos Estados Unidos até então.
O furacão também escancarou desigualdades sociais. A população mais pobre, sem condições de evacuar, foi a que mais sofreu. Imagens de pessoas ilhadas em telhados, pedindo socorro, correram o mundo e evidenciaram falhas graves na resposta governamental.
Um final de agosto marcado pelos extremos
O que chama atenção é a coincidência temporal desses episódios. Em um espaço de menos de uma semana, ciclone, tornado e furacão mostraram como a atmosfera pode se manifestar de forma brutal em diferentes latitudes.
No Cone Sul, a transição entre massas de ar frio e quente, típica do fim do inverno, criou ambiente favorável para tempestades severas. Já no Atlântico Norte, agosto é pleno auge da temporada de furacões, com águas oceânicas quentes que alimentam sistemas tropicais devastadores.
Essa combinação fez do fim de agosto de 2005 um período emblemático na climatologia. Para os meteorologistas, foi uma demonstração clara de como diferentes mecanismos — extratropicais e tropicais — podem, em simultâneo, atingir populações de forma extrema.
Lições e memórias
Passados 20 anos, os episódios ainda ecoam. O ciclone no Uruguai levou à modernização de sistemas de alerta no país vizinho. O tornado em Muitos Capões permanece na memória dos moradores como um dia em que a tranquilidade do campo deu lugar a um cenário de guerra. E o Katrina se consolidou como símbolo global de vulnerabilidade frente a desastres naturais e da necessidade de planejamento urbano diante da crise climática.
Desastre do Katrina escancarou desigualdade social | ROBYN BECK/AFP/ARQUIVO METSUL
Hoje, quando eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, revisitar agosto de 2005 ajuda a compreender riscos e preparar sociedades. A atmosfera é dinâmica e, em momentos específicos, pode liberar energia com intensidade devastadora.
Conexão entre extremos
Embora os três episódios não tenham relação direta entre si, há uma linha comum que os conecta: a vulnerabilidade humana. Seja no Uruguai, no interior do Rio Grande do Sul ou nos Estados Unidos, o que define o impacto não é apenas a força da natureza, mas também a capacidade de resposta, infraestrutura e políticas públicas de prevenção.
A ciência meteorológica avançou muito desde 2005. Hoje, modelos numéricos são mais precisos, a comunicação de risco é mais ampla e as defesas civis estão melhor estruturadas. No entanto, ainda persiste o desafio de transformar previsão em ação efetiva, especialmente em comunidades vulneráveis.
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