O mês de abril que se inicia, historicamente, costuma apresentar madrugadas amenas e algumas até frias como segundo mês do outono climático (trimestre março a maio) e, conforme o ano, dependendo das condições presentes no Oceano Pacífico Equatorial costuma apresentar mais ou menos frio.

ARTE SOBRE FOTOS DE NILSON WOLFF E ADÃO SAMIR EGER
Dados históricos mostram que os meses de abril sob influência de La Niña costumam ter mais dias de frio e em alguns até intenso no quarto mês do ano, mas episódios gelados podem ocorrer mesmo sob o Pacífico aquecido.
Em 1999, nevou no Planalto Sul Catarinense entre os dias 16 e 17 de abril, no episódio de neve mais cedo no ano já observado no Brasil. O Pacífico estava mais frio do que a média naquele ano com La Niña. Em 2016, nevou na mesma região no dia 27 de abril. O Pacífico estava quente, no final de evento de El Niño intenso. Em 19 de abril de 2023, a neve surpreendeu à noite no Planalto Sul e aquele ano marcaria o começo de um intenso episódio de El Niño a partir de junho.
Abril em anos de início de El Niño forte, como ser prevê será 2026, revela um comportamento marcado por grande variabilidade térmica no Sul do Brasil com uma alternância entre dias amenos, alguns quentes e outros frios, típico comportamento de uma estação de transição como é o outono.
Apesar da tendência de aquecimento associada ao fenômeno El Niño no decorrer do ano, os dados históricos mostram que o começo de uma fase quente no Pacífico não impede a ocorrência de madrugadas frias no outono. A média mínima histórica de abril na capital gaúcha é de 16,8°C, mas os registros indicam desvios importantes para baixo em muitos anos que tiveram o começo de um El Niño depois, inclusive intensos, casos de 1982, 1997, 2015 e 2023.
A MetSul Meteorologia fez um levantamento do número de dias com frio em abril nestes quatro anos que depois tiveram o começo de um El Niño intenso, valendo-se de dados da estação convencional de bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre.
Em 1982, um dos primeiros grandes eventos modernos fartamente documentados de El Niño, houve uma sequência de dias de frio na o meio do mês na capital gaúcha, com 10,6°C em 16/04/1982, 11,2°C em 17/04/1982 e 13,6°C em 18/04/1982. O mês teve ainda apenas uma mínima acima de 20°C, evidenciando predomínio de noites amenas.
O ano de 1997, marcado por um dos mais intensos episódios de El Niño do século passado, apresentou ainda mais extremos. Logo no começo do mês, foram registrados 10,0°C em 05/04/1997, 9,8°C em 06/04/1997 e 10,2°C em 07/04/1997. Na última semana, o frio voltou com força: 11,8°C em 26/04/1997, 8,6°C em 27/04/1997, 12,8°C em 28/04/1997, 11,4°C em 29/04/1997 e 9,8°C em 30/04/1997. Ainda assim, abril daquele ano teve cinco dias com mínimas acima de 20°C.
Em 2015, outro ano de El Niño muito forte, também houve registro de mínimas abaixo da média em vários dias, mas abril esteve longe de ser frio. As temperaturas caíram a 13,1°C em 19/04/2015 e 13,7°C em 26/04/2015. Por outro lado, quatro dias tiveram mínimas acima de 20°C, mantendo o padrão de alternância.
Já em 2023, ano do começo do último El Niño muito forte, o comportamento de 1997 voltou a se repetir com sequência de madrugadas frias: 13,3°C em 19/04/2023, 10,4°C em 20/04/2023, 11,6°C em 21/04/2023, 13,8°C em 22/04/2023 e 11,2°C em 23/04/2023. No fim do mês, a temperatura voltou a cair para 13,2°C em 29/04/2023. Houve apenas uma mínima acima de 20°C em todo o mês.
Os dados de Porto Alegre evidenciam que abril, mesmo em anos que marcam o início de episódios fortes de El Niño, pode ter incursões de ar frio relevantes, com mínimas próximas ou abaixo de 10°C.
O padrão reforça que os efeitos do El Niño não se manifestam de forma imediata no Sul do Brasil. No outono, a atmosfera ainda responde a transições sazonais, permitindo a alternância entre episódios de frio e períodos mais quentes antes da consolidação de um padrão mais típico do fenômeno nos meses seguintes.