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O inverno na América do Norte tem mostrado, nas últimas semanas, que os extremos climáticos estão cada vez mais interligados. Enquanto regiões dos Estados Unidos enfrentaram ondas de frio históricas com gelo e neve, com temperaturas muito abaixo da média como não se via há décadas e impactos severos na rotina de milhões de pessoas, Portugal lida com enchentes, ventos fortes e episódios de chuva persistente que provocam prejuízos e colocam populações em risco.

Fevereiro de enchentes em Portugal enquanto grande parte dos Estados Unidos enfrenta dias de frio congelante | PATRICIA MELO MOREIRA/AFP/METSUL

À primeira vista, o frio intenso na América do Norte e as cheias na Europa parecem eventos isolados. No entanto, estudos científicos indicam que esses fenômenos podem estar conectados por grandes padrões atmosféricos que atravessam o Oceano Atlântico.

Uma pesquisa publicada na revista Weather and Climate Extremes mostra que episódios de frio severo nos Estados Unidos costumam coincidir com períodos de chuva intensa e ventos fortes na Europa Ocidental, incluindo Portugal. O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Richard Leeding, Jacopo Riboldi e Gabriele Messori e analisou dados atmosféricos de longo prazo.

Segundo os autores, esses eventos fazem parte de extremos climáticos compostos que ocorrem simultaneamente em regiões distantes, mas ligadas pela circulação atmosférica do Atlântico Norte.

Em termos simples, quando uma parte do sistema entra em colapso, outra tende a reagir de forma intensa. Nos Estados Unidos, o fenômeno se manifesta por meio de irrupções de ar polar, quando massas de ar extremamente frio avançam do Ártico para o centro e o leste do país. Esses episódios derrubam temperaturas a níveis históricos, congelam redes de energia, interrompem transportes e afetam diretamente a vida cotidiana da população.

Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, a atmosfera se reorganiza. A Europa Ocidental passa a ser atingida por sistemas de baixa pressão mais intensos, trazendo chuvas persistentes e ventos fortes. Portugal aparece com destaque nesse padrão identificado pelos pesquisadores.

De acordo com o estudo, durante episódios de frio extremo nos Estados Unidos, a probabilidade de ocorrência de chuvas muito intensas na Península Ibérica aumenta de forma significativa. Em alguns casos, o risco de precipitação extrema chega a dobrar em relação aos valores médios do inverno.

A explicação está no comportamento do jato de altos níveis, conhecido como jet stream. Trata-se de uma corrente de ventos muito fortes em grande altitude que orienta o deslocamento de frentes frias e tempestades no Hemisfério Norte.

Quando o ar polar avança com força sobre os Estados Unidos, o contraste entre massas de ar frio e quente se intensifica. Esse contraste fortalece o jet stream sobre o Atlântico Norte, criando um corredor favorável para a formação e o deslocamento de tempestades em direção à Europa.

Ao alcançarem Portugal, esses sistemas encontram uma atmosfera mais quente e carregada de umidade, condição ideal para chuvas prolongadas e volumosas. O resultado são rios que transbordam, solos saturados, deslizamentos de terra e enchentes em áreas urbanas e rurais.

O estudo destaca que esses eventos não devem ser analisados de forma isolada. Eles fazem parte de um sistema atmosférico amplo, no qual extremos de frio em um continente podem favorecer extremos de chuva em outro. Embora a pesquisa não trate diretamente das causas do aquecimento global, os autores observam que um clima mais instável tende a potencializar esse tipo de conexão entre eventos extremos.

Monitorar grandes ondas de frio nos Estados Unidos, assim, pode ajudar a antecipar períodos de maior risco de chuva intensa na Europa Ocidental, incluindo Portugal. O frio que congela cidades norte-americanas e a chuva que alaga ruas portuguesas fazem parte do mesmo padrão atmosférico com conexão por ventos em grande altitude, uma evidência a mais que o clima não tem fronteira com o que acontece em um lado do Atlântico impactando a outra margem do oceano.

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