Imagem aérea mostra devastação deixada pela enchente catastrófica do Rio Taquari no município de Roca Sales | SILVIO ÁVILA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A edição deste +Domingo do Correio do Povo é em grande parte dedicada à catástrofe terrível no Rio Grande do Sul pela chuva extraordinária na última semana, que destruiu comunidades e deixou um saldo ainda desconhecido de vítimas. A dimensão do desastre choca pela destruição arrebatadora e a violência assustadora com que as águas varreram cidades.

Infelizmente, as grandes enchentes estão longe de ser uma surpresa e, pior, vão se repetir. Já no final de 2022 se acendeu o primeiro alerta quando modelos de clima passaram a indicar um evento de El Niño neste ano. Durante todo o primeiro semestre foram inúmeros avisos que a segunda metade de 2023 seria crítica.

No início de junho, a MetSul Meteorologia sugeriu à Federação dos Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), apresentação aos prefeitos sobre os graves riscos no clima por excesso de chuva e tempestades que viriam nos meses seguintes com o El Niño. A federação, de pronto, aceitou a sugestão e apresentei os cenários de alto risco em Restinga Seca, no Congresso de Municípios do Rio Grande do Sul.


Quatro dias depois, em 11 de junho, edição especial do +Domingo era publicada pelo Correio do Povo questionando se o estado estava preparado para o cenário climático que se acercava pelo El Niño (dias depois viria o ciclone que matou 16 gaúchos). Na coluna, que assinei naquela edição, estava o aviso sobre “chuva extrema, cheias e enchentes” no segundo semestre.

Os eventos de chuva extremos dos últimos dias, primeiro na Metade Norte e depois na Metade Sul gaúcha, confirmam o que há meses se antevia, repetem padrões do passado sob El Niño e coincidem com a intensificação do fenômeno.

A anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Centro-Leste está perto hoje dos valores observados na primeira semana de setembro nos quatro episódios de Super El Niño das últimas quatro décadas, embora não haja hoje um Super El Niño: 1982 (+1,0ºC), 1997 (+2,1ºC), 2015 (+1,7ºC) e 2023 (+1,6ºC).


A tendência é que o El Niño siga se intensificando até o fim deste ano, quando deve atingir o seu máximo de intensidade, mas o fenômeno permanecerá atuando e influenciando o clima ainda nos primeiros meses de 2024.

Os grandes extremos de chuva sob El Niño tendem a se dar principalmente nos meses da primavera climática (setembro a novembro) e, às vezes, no outono (março a maio) do ano seguinte ao seu começo, caso da enchente de 1941.

Assim, lamentavelmente, é possível se afirmar com elevada margem de confiança de que o Rio Grande do Sul deve se preparar para outros eventos extremos de chuva e possíveis novas situações de desastre por chuva ou tempestades severas.

A pergunta não é se teremos novas enchentes ou estragos nas próximas semanas e meses, mas quantos serão estes eventos. A história climática do estado sob El Niño e as projeções por supercomputadores de modelos de clima nos fazem alertar que ainda tem muito mais por vir.


Capas do jornal Folha da Tarde no El Niño de 1965 | CP MEMÓRIA

Capas do jornal Correio do Povo no El Niño de 2015 | CP MEMÓRIA

O cenário deste El Niño guarda certa semelhança até agora com o evento de 2009-2010 em que choveu demais em setembro de 2009. Olhando dados daquele episódio de El Niño de 14 anos atrás, novembro foi absurdamente chuvoso do Centro para o Oeste gaúcho e em janeiro houve o desastre da queda da ponte sobre o Rio Jacuí, em Agudo.

Em setembro de 2009, nos Campos de Cima da Serra, onde estão as nascentes do Taquari-Antas e do Rio Caí, Bom Jesus anotou incríveis 528,8 mm (estação somou 225,6 mm apenas entre 1º e 8/9/2023). Caxias do Sul registrou naquele mês 421,7 mm (estação teve 235,1 mm entre 1º e 8/9/2023).

Em novembro de 2009, caíram impressionantes 569,3 mm em Uruguaiana e 480,9 mm em Santa Maria. Janeiro de 2010 foi extremamente chuvoso com 405,9 mm em Santa Maria, 331,8 mm em Bom Jesus e 305,8 m em Caxias do Sul. Em Porto Alegre, os piores meses de chuva no El Niño de 2009 foram setembro com 293,7 mm (choveu 143,8 mm de 1º a 8/9/2023) e novembro com 287,6 mm.

A soma de sucessivos episódios de chuva excessiva fará com que este mês, assim como já tínhamos antecipado, acabe assombrosamente chuvoso no Rio Grande do Sul. Tal sequência de episódios de chuva com volumes excessivos agrava gradualmente o risco de grandes enchentes.

Numa analogia, o copo está cada vez mais cheio a cada episódio de precipitação extrema. À medida que os eventos se sucedem, aumenta o risco de o copo transbordar. Exatamente o padrão que levou à grande enchente de maio de 1941 e à cheia do Guaíba de outubro de 2015, em que as águas atingiram o cais no Centro, dois anos, aliás, de Super El Niño.

O tempo que havia para se preparar para o El Niño de 2023-2024 já passou. Agora, governo e sociedade devem trabalhar para mitigar o máximo possível os seus efeitos. Até porque estamos sob um El Niño diferente de qualquer outro anterior, que ocorre sob aquecimento acelerado do planeta, o que potencializa ainda mais os extremos que normalmente já ocorreriam e têm a história como guia para antever o futuro.

*Texto publicado na edição do Correio do Povo de 10 de setembro de 2023