Condições de El Niño podem se instalar na faixa equatorial do Oceano Pacífico mais cedo que o habitual, durante o mês de maio, e o fenômeno tende a atingir forte intensidade já nos meses de inverno, de acordo com a mais recente análise da equipe da MetSul Meteorologia.

El Niño se forma nas próxima semanas e será muito forte a intenso no segundo semestre | NASA
Um forte aquecimento das águas do Pacífico equatorial está em curso em processo que vai marcar a formação de um novo episódio de El Niño nos próximos meses e deverá atingir o seu pico de intensidade no último trimestre do ano.
Após uma recente fase de La Niña, os dados mostram uma rápida mudança no padrão oceânico, com áreas frias desaparecendo e anomalias positivas de temperatura do mar se expandindo na superfície do Pacífico e nas profundezas do mar (subsuperfície).
Um dos principais sinais dessa transição rápida para um estado de El Niño no Pacífico nas próximas semanas é a presença de uma muito significativa Onda de Kelvin abaixo da superfície do mar.
Trata-se de um verdadeiro “pulso” de águas quentes que se forma no Pacífico Oeste e se desloca ao longo da faixa equatorial no sentido Leste em direção à América do Sul. Essa onda pode atingir centenas de metros de profundidade e se estender por milhares de quilômetros, transportando grandes volumes de água mais quente.
No momento, esse bolsão de água quente está concentrado entre cerca de 100 metros e 250 metros de profundidade, funcionando como uma gigantesca reserva de energia térmica prestes a emergir na superfície do mar com águas muito aquecidas, instalando o El Niño.
As anomalias de temperatura do mar nesta “piscina de águas quentes” gigante abaixo da superfície impressionam porque atingem 6ºC mais quentes do que o normal, o que sugere um El Niño forte a muito forte, potencialmente intenso (Super El Niño), durante o segundo semestre.

Gráfico da temperatura abaixo da superfície do mar no Pacifico de Oeste para Leste mostra uma enorme quantidade de água excepcionalmente quente entre 100 e 250 metros de profundidade avançando de Oeste para Leste com uma Onda Kelvin | NOAA
O processo de transporte de águas quentes de Oeste para Leste no Oceano Pacífico é impulsionado por rajadas de vento de Oeste que enfraquecem os ventos alísios. Com isso, a água quente acumulada migra para Leste, alimentando ainda mais a Onda Kelvin e ampliando seu impacto. Justamente a interação entre oceano e atmosfera é que pode acelerar a transição para um evento forte mais tarde neste ano.
El Niño já será forte no inverno
A MetSul Meteorologia projeta um acelerado aquecimento das águas superficiais da faixa equatorial do Oceano Pacífico nos próximos 30 a 60 dias com a formação de uma “língua de águas quentes” característica do fenômeno, uma vez que a enorme “piscina” de águas superaquecidas da subsuperfície alcançará a superfície.
Com isso, a tendência é que o El Niño comece entre maio e junho no Oceano Pacífico e ganhe intensidade rapidamente intensidade. No fim de maio ou mais tardar em junho, o fenômeno já deve estar plenamente configurado com o acoplamento das condições oceânicas e atmosféricas.
Sob este cenário, a perspectiva é que já durante o inverno deste ano o El Niño alcance forte intensidade antes do seu pico que deve ocorrer no último trimestre do ano, no decorrer da primavera ou no começo do verão.

NOAA
É o que vários modelos de clima analisados pela MetSul Meteorologia indicam para os próximos meses. Os mapas acima mostram as projeções de anomalia da temperatura da superfície do mar do NMME (North American Multi-Model Ensemble), da NOAA, em que se observa como o El Niño vai se instalar nas próximas semanas e será forte a muito forte no decorrer do inverno.
Normalmente, os episódios de El Niño se instalam em meados do inverno e durante a primavera, ou seja, este evento mais começar mais cedo que o habitual. Repete-se o padrão de 2023-2024, quando a NOAA (sob o critério antigo de monitoramento) declarou o começo do El Niño em junho de 2023.
Impactos maiores do fenômeno no segundo semestre
À medida que as condições da atmosfera e do oceano começam a acoplar nas próximas semanas, a circulação geral da atmosfera deve entrar em modo de El Niño, o que, por óbvio, deve começar a se refletir nas condições do tempo já ainda neste outono e no começo do inverno.

Risco de enchentes nos próximos meses será muito alto no Rio Grande do Sul com episódios de chuva excessiva a extrema principalmente na segunda metade do ano | ANSELMO CUNHA/AFP/METSUL/ARQUIVO
Os impactos maiores do El Niño, entretanto, devem se dar na segunda metade do ano. De acordo com a avaliação da MetSul, o período de maior risco e mais crítico em 2026 para eventos extremos será o trimestre de setembro a novembro.
No Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.
No Centro-Oeste, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal. Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.
No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.
O que é El Niño
Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.
El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.
Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.
A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.
Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.
