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O fenômeno El Niño, conhecido por aquecer as águas do Oceano Pacífico Equatorial e alterar o clima em diversas partes do planeta, existe há muito mais tempo do que se imaginava. Um novo estudo internacional concluiu que o El Niño e sua fase oposta, a La Niña, já atuavam na Terra há pelo menos 250 milhões de anos, quando os continentes tinham posições completamente diferentes das atuais.

Imagem artística do El Niño

ARTE SOBRE IMAGEM DA NASA

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. Os pesquisadores utilizaram modelos climáticos avançados semelhantes aos empregados pelo IPCC, o painel climático da ONU, mas em vez de projetar o futuro do clima, voltaram milhões de anos no passado.

Os resultados mostraram que as oscilações entre El Niño e La Niña eram ainda mais intensas do que as observadas atualmente. Segundo os cientistas, praticamente todas as simulações indicaram episódios mais fortes do que os modernos, alguns deles muito superiores aos registrados nas últimas décadas.

Hoje, o El Niño é acompanhado com atenção porque influencia diretamente o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta. No Brasil, o fenômeno costuma aumentar a chuva no Sul e provocar estiagem em áreas do Norte e do Nordeste. Em outras partes do mundo, pode causar enchentes, secas severas e mudanças importantes nas temperaturas.

Já a La Niña, caracterizada pelo resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, provoca efeitos opostos em muitas regiões. Ela pode intensificar monções na Ásia, aumentar secas em partes da África e alterar o comportamento das correntes de vento nos Estados Unidos e na América do Sul.

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Para entender como esses fenômenos funcionavam há centenas de milhões de anos, os pesquisadores dividiram a história climática da Terra em blocos de 10 milhões de anos. Foram realizadas 26 simulações diferentes, levando em conta mudanças na posição dos continentes, na radiação solar e na concentração de dióxido de carbono na atmosfera.

Na época dos dinossauros, por exemplo, a América do Sul fazia parte do supercontinente Pangeia. Mesmo com os oceanos e continentes organizados de maneira totalmente diferente, os modelos mostraram que o mecanismo do El Niño já existia. O fenômeno ocorria no antigo oceano Panthalassa, que ocupava grande parte do planeta.

Os cientistas também descobriram que dois fatores tiveram papel decisivo na intensidade desses eventos ao longo da história: a temperatura dos oceanos e os ventos atmosféricos na superfície do mar. Segundo os autores, pesquisas anteriores davam mais atenção ao calor dos oceanos e menos importância ao comportamento dos ventos.

Os pesquisadores explicam que os ventos funcionam como um “empurrão” em um pêndulo climático. Dependendo da intensidade e da direção, eles podem fortalecer ou enfraquecer os episódios de El Niño e La Niña. Isso ajuda a entender por que alguns eventos históricos foram extremamente intensos.

Outro ponto importante revelado pelo estudo é que, em certos períodos do passado, a Terra recebia menos radiação solar do que hoje, mas possuía concentrações muito maiores de gás carbônico na atmosfera. Mesmo assim, os oceanos eram mais quentes e as oscilações climáticas continuavam ocorrendo com força.

Os pesquisadores acreditam que estudar o passado pode ajudar a prever melhor o futuro. Com o aumento atual da concentração de gases de efeito estufa, compreender como o El Niño reagiu em períodos antigos de clima mais quente pode oferecer pistas importantes sobre o comportamento do fenômeno nas próximas décadas.